quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Eco-simplicidade



"Esse texto eu vi no Jornal da Abadá-Capoeira de Americana-SP e resolvi postá-lo aqui..."


O que se opõe à nossa cultura de excessos e complicações é a vivência da simplicidade, a mais humana de todas as virtudes, presente em todas as demais.

A simplicidade exige uma atitude de anti-cultura, pois vivemos enredados em todo tipo de produtos e de propagandas. A simplicidade nos desperta a viver consoante nossas necessidades básicas. Se todos perseguissem esse preceito, a Terra seria suficiente para todos. Bem dizia Gandhi: “temos que aprender a viver mais simplesmente para que os outros simplesmente possam viver”.

A simplicidade sempre foi criadora de excelência espiritual e de liberdade interior. Henry David Thoreau(+1862) que viveu dois anos em sua cabana na floresta junto a Walden Pond, atendendo estritamente às necessidades vitais, recomenda incessantemente em seu famoso livro-testemunho: Walden ou a vida na floresta: “simplicidade, simplicidade, simplicidade”. Atesta que a simplicidade sempre foi o apanágio de todos os sábios e santos. De fato, extremamente simples eram Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi e Chico Mendes entre outros.

Como hoje tocamos já nos limites da Terra, se quisermos continuar a viver sobre ela, precisamos seguir o evangelho da eco-simplicidade, bem resumida nos três “erres” propostos pela Carta da Terra:”reduzir, reutilizar e reciclar” tudo o que usamos e consumimos.

Trata-se de fazer uma opção pela simplicidade voluntária que é um verdadeiro caminho espiritual. Esta eco-simplicidade vive de fé, de esperança e de amor. A fé nos faz entender que nosso trabalho, por simples que seja, é incorporado ao trabalho do Criador que em cada momento ativa as energias que produzem o processo de evolução.

A esperança nos assegura que se as coisas tiveram futuro no passado, continuarão a ter no presente. A última palavra não a terá o caos mas o cosmos. Para os cristãos, o fim bom já está garantido, pois alguém de nós, Jesus e Maria, foram introduzidos corporalmente no seio da Trindade.

A eco-simplicidade nos faz descobrir o amor como a grande força unitiva do universo e de Gaia. Esse amor faz com que todos os seres convivam e se complementem. Na modernidade, nós nos imaginávamos o sujeito do pensamento e a Terra o seu objeto. A nova cosmologia nos afirma que a Terra é o grande sujeito vivo que através de nós sente, ama, pensa, cuida e venera. Consequentemente, importa pensarmos como Terra, sentirmos como Terra, amarmos como Terra pois, na verdade, somos Terra, espécie homo, feito de húmus, de terra boa e fértil.

Ao sentirmo-nos Terra, vivemos uma experiência de não-dualidade que é expressão de uma radical simplicidade. Algo da montanha, do mar, do ar, da árvore, do animal, do outro e de Deus está em nós. Formamos o grande Todo. Uma moderna legenda dá corpo a estas reflexões:

Certa feita, um jovem iniciante na eco-simplicidade, foi visitado, em sonho, pelo Cristo ressuscitado e cósmico. Este o convidou para caminharem juntos pelo jardim. Depois de andarem por longo tempo, observando, encantados, a luz que se filtrava por entre as folhas, perguntou o jovem: “Senhor, quando andavas pelos caminhos da Palestina, disseste, certa feita, que voltarias um dia com toda a tua pompa e com toda a tua glória. Está demorando tanto esta tua volta! Quando, finalmente, retornarás, de verdade, Senhor”? Depois de momentos de silêncio que pareciam uma eternidade, o Senhor respondeu: “Meu irmão, quando para ti, minha presença no universo e na natureza for tão evidente quanto a luz que ilumina este jardim; quando minha presença sob a tua pele e no teu coração for tão real quanto a minha presença aqui e agora; quando não precisares pensar mais nela nem fazeres perguntas como esta que fizeste, então, meu irmãozinho querido, eu terei retornado com toda a minha pompa e com toda a minha glória”.

Leonardo Boff

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ethos Africano na Capoeira


A capoeira tal como as demais artes de luta, ou artes marciais, contem diversos pressupostos que funcionam como um todo coerente e que conferem singularidade ou indentidade ao sujeito em si. Na capoeira a música é fundamental, ela funciona como elemento de ligação entre os praticantes e dá o ritmo e corpo à arte. É a base da dança, e juntamente com as cantigas e com os instrumentos geram o sentimento africano, o ethos africano, da prática. Berimbaus, atabaques, ganzás, agogôs, voz, palmas, tudo contribui para a criação de uma entidade harmónica.

No entanto, mais do que a musicalidade que acompanha o jogo, são as cantigas o elemento mais importante e marcante da capoeira. Se forem retirados todos os instrumentos musicais que acompanham o jogo a capoeira mantém a sua identidade, mas se for retirado o acompanhamento vocal a capoeira perde a sua alma. É pelas cantigas que os mestres passam os seus ensinamentos, que se perpetua a tradição, que se dá a conhecer a história da capoeira e da luta anti-esclavagista, que se transmite, em suma, o ethos afro-brasileiro.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal...


Charge do Mestre Cartunista Redi
A primeira coisa que vou fazer é agradecer o apoio dos leitores do blog. Sem o apoio de todos nada teria acontecido. Alguns talvez nem leiam este post por estarem de ressaca ou qualquer outra coisa, mas POR FAVOR, SE BEBER NÃO DIRIJA!!!

Estamos chegando ao final de Dezembro de 2009!

Mais um ano que passa, e a Vida cada vez passa mais rápido.

Claro que nem tudo é um mar de rosas. Mas no final, o saldo é positivo, até porque, mesmo a parte negativa, mesmo eventuais exemplos ruins acabam servindo como referência sobre o que deve ser evitado no futuro.
Estou fazendo este pequeno post para desejar de coração um...

FELIZ NATAL À TODOS!!!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Clip - Graduado Psico

Estou colocando este clip aqui no blog para dar uma força na divulgação do trabalho de um grande amigo e companheiro, falou Psico!



Vídeo promocional produzido pela GABA FILMS.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ABADÁ-Capoeira Cadastro Brasil


Agora para facilitar o contato da ABADÁ-Capoeira com seus integrantes foi criado um novo email.

abadacapoeiracadastrobrasil@hotmail.com

Através dele, os Graduados, Instrutores e Professores, poderão:

- Receber informações;
- Tirar dúvidas;
- Fazer (ou atualizar) seu cadastro na ABADÁ-Capoeira;
- Ter um meio de comunicação direto e confiável com a sede no Rio de Janeiro.

Este email estará on line no MSN todas as Quartas-feiras, das 12:00 as 16:00, e sempre aberto para receber material dos integrantes da ABADÁ-Capoeira.

Façam uso desta nova ferramenta para sempre melhorar a ABADÁ-Capoeira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Samba de Roda


Samba de roda é uma variante musical mais primitiva do samba, originário do estado brasileiro da Bahia, provavelmente no século XIX.
O samba de roda é um estilo musical tradicional afro-brasileiro, associado a uma dança que por sua vez está associada à capoeira. É tocado por um conjunto de pandeiro, atabaque, berimbau, viola e chocalho, acompanhado principalmente por canto e palmas.

Patrimônio Imaterial

O Samba de Roda no Recôncavo Baiano, é uma mistura de música, dança, poesia e festa. Presente em todo o estado da Bahia, o samba é praticado, principalmente, na região do Recôncavo. Mas o ritmo se espalhou por várias partes do país, sobretudo Pernambuco e Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, já na sua condição de Distrito Federal, se tornou conhecido como a capital mundial do samba brasileiro, porque foi nesta cidade onde o samba se evoluiu, adquiriu sua diversidade artística e estabeleceu, na zona urbana, como um movimento de inegável valor social, como um meio dos negros enfrentarem a perseguição policial e a rejeição social, que via nas manifestações culturais negras uma suposta violação dos valores morais, atribuindo a elas desde a simples algazarra até a supostos rituais demoníacos, imagem distorcida que os racistas atribuíram ao candomblé, que na verdade era a expressão religiosa dos povos negros, de inegável importância para seu povo.

Origens

O samba teria surgido por inspiração sobretudo de um ritmo africano, o semba, e teria sido formado a partir de referências dos mais diversos ritmos tribais africanos. Note-se que a diversidade cultural, mesmo dentro da raça negra no Brasil, era bastante notável, porque os senhores de escravos escolhiam aleatoriamente seus indivíduos, e isso tanto fez separarem tipos africanos afins, pertencentes a uma mesma tribo, quanto fez juntarem tipos africanos diferentes, alguns ligados a tribos que eram hostis em seu continente original. Isso transformou seriamente o ambiente social dos negros, não bastasse o novo lugar onde passariam a viver, e isso influenciou decisivamente na originalidade da formação do samba brasileiro, com a criação de formas musicais dentro de um diferente e diverso contexto social. O Samba de roda também é muito semelhante com o jongo.

Estilos derivados

Com a modernização e urbanização do samba, vieram então vários nomes. Em 1916, veio o primeiro samba gravado em disco, Pelo Telefone, pelo cantor e compositor Donga, e, ao longo do tempo, vieram outros cantores e autores de sambas: Ataulfo Alves, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, entre tantos outros.
Dos ritmos derivativos do samba, o mais controverso foi o da Bossa Nova, na década de 1950. Lançada por artistas como Antônio Carlos Jobim e João Gilberto (este, baiano de Juazeiro, o inventor do ritmo tocado no violão), a Bossa Nova é acusada pelo historiador da música brasileira, José Ramos Tinhorão, de ter se distanciado da evolução natural do samba e se limitar apenas a aproveitar parte de seu ritmo para juntá-lo à influência do jazz e dos standards (a música popular cinematográfica de Hollywood, cujo maior ídolo foi Frank Sinatra). Os defensores da Bossa Nova, no entanto, embora reconheçam que o ritmo pouco tenha a ver com a realidade das favelas cariocas (por sinal, removidas dos principais bairros da Zona Sul pelos governos estaduais nos anos 50 e 60), no entanto afirmam que a BN contribuiu inegavelmente para o enriquecimento da música brasileira e para o reconhecimento do samba no exterior.

Contemporaneidade

A manifestação cultural, na sua forma contemporânea, está presente em obras de compositores baianos como Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso. Nos anos 1980, o Samba foi representado por nomes como Zeca Pagodinho e Dudu Nobre. A partir do final dos anos 1990 o Pagode também começou a sofrer a decadência e como a história do samba tem demonstrado que, sempre que um gênero começa a perder popularidade, novas formas de se produzi-lo aparecem e mantêm o Samba a principal forma de harmonia musical brasileira, mesmo que sempre se modificando por novas influências. Assim, recentemente este tem se apresentado pela forma do Samba-reggae, o mais novo gênero, que traz todas as influências do passado e ao mesmo tempo inova com a evolução da Guitarra como elemento de corda subustitutivo do cavaquinho.

Histórico

O samba teve início por volta de 1860, como manifestação da cultura dos africanos que vieram para o Brasil. De acordo com pesquisas históricas, o Samba de Roda foi uma das bases de formação do samba carioca.
A manifestação está dividida em dois grupos característicos: o samba chula e samba corrido. No primeiro, os participantes não sambam enquanto os cantores gritam a chula – uma forma de poesia. A dança só tem início após a declamação, quando uma pessoa por vez samba no meio da roda ao som dos instrumentos e de palmas. Já no samba corrido, todos sambam enquanto dois solistas e o coral se alternam no canto.
O samba de roda está ligado ao culto aos orixás e caboclos, à capoeira e à comida de azeite. A cultura portuguesa está também presente na manifestação cultural por meio da viola, do pandeiro e da língua utilizada nas canções.
  • [1] foi considerado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como patrimônio imaterial. O ritmo e dança teve sua candidatura ao Livro do Tombo (que registra os patrimônios protegidos pelo IPHAN) lançada em 4 de outubro de 2004, e, depois de ampla pesquisa a respeito de sua história, o samba-de-roda foi finalmente registrado como patrimônio imaterial em 25 de novembro de 2005, status que traz muitos benefícios para a cultura popular e, sobretudo, para a cultura do Recôncavo Baiano, berço do samba-de-roda.
Gravações de samba de roda estão à disponibilidade nas vozes de Dona Edith do Prato, natural de Santo Amaro da Purificação, ama de leite dos irmãos Velloso, e amiga de Dona Canô. Dona Edith toca música batendo garfo num prato, do que provém o apelido, e hoje, mesmo sendo uma mulher muito idosa, sua música ainda é respeitada. O CD Vozes da Purificação contém sambas de roda, na maioria de domínio público, cantados por Dona Edith e o coral Vozes da Purificação.
Outra cantora está fazendo grande sucesso baseada no samba de roda e na cultura popular do Recôncavo: é Mariene de Castro, com o CD Abre Caminhos, no que interpreta músicas de Roque Ferreira e outros compositores, com arranjos onde é possível apreciar o profundo conhecimento da cantora. Mariene já cantou com Daniela Mercury, Beth Carvalho e outros.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Mestre Bimba por Mestre Osvaldo de Souza

Mestre Bimba
O outro lado da História!

Em 1970 treinando com Mestre Bimba no Centro de Cultura Fisica Regional da Bahia, convidei-o a visitar Goiânia, (Goiás) e ao mesmo tempo ser paraninfo da 1ª turma de capoeiristas, formatura esta feita por mim, Mestre Osvaldo de Souza no Cine Teatro Goiânia. Ele aceitou e consegui trazê-lo através do apoio do Departamento de Cultura do Estado de Goiás para formar 15 capoeiristas!
Mestre Bimba ficou comovido com a atenção do público Goiano, pois naquela época estava atravessando uma fase difícil na Bahia, ninguém lhe apoiava e eu cheguei a ver isso de perto!

Todos falam:
Mestre Bimba prá lá, Metre Bimba pra cá, mas ninguém procurou ajudar o Mestre dentro da maneira que correspondesse a sua expectativa, pelo número grande de discípulos que tinha em Salvador.
É importante frisar isto, pois houve/há uma grande deturpação (da verdade?) pela vinda definitiva dele para Goiás e isso posso afirmar com certeza:
Mestre Bimba nunca teve apoio em Salvador, principalmente por parte de seus discípulos!
Quando eu falo assim:
Discípulos do Mestre Bimba, não é abrangendo todo mundo, têm as pessoas de bem que sempre procuraram ajudar o Mestre, cito Mestre Decânio que foi um companheiro que ajudou o Mestre Bimba dentro de suas possibilidades!

Constatei que Mestre Bimba fazia apresentações para turistas no Nordeste de Amaralina e todo mundo sabendo das dificuldades que ele atravessava, com as despesas que tinha, ninguém correspondia, tanto é que muitos díscípulos que participavam do Show com Capoeira, Maculêle, samba de roda, samba duro e apresentação de Candomblé, ficavam brigando para dividir o dinheiro!
Agora eu lhes pergunto:
Aonde é que está o coração destes discípulos?
Na (1ª?) vinda do Mestre Bimba para Goiás ele me disse:
Olha Osvaldo, se você puder me ajudar, eu quero vir trabalhar a Capoeira aqui no Estado de Goiás, porque a Bahia para mim não está resolvendo nada em termos financeiros!

Todo mundo falando e eu aqui (em Goiás) trabalhando, dando minhas aulas de Capoeira e sempre mandando uma ajuda para o Mestre Bimba em Salvador!
Voltei a Salvador e na época participei junto com outros alunos de Mestre Bimba de um documentário para a União Soviética que foi realizado no Nordeste de Amaralina e outro que foi filmado no Jardim de Alá!.
Participei junto com o Grupo Folclórico de Mestre Bimba e pude constatar o que já acontecera antes, todos querendo a partilha do dinheiro.

Na volta vim conversando com o Mestre e perguntei-lhe:
Como é que este pessoal ao invés de dar apoio ao Senhor, eles ficam exigindo pagamento, fazendo rateio entre eles para depois dar a parte do Mestre?
Chegando na Pituba aonde eu estava hospedado por causa da temporada do Curso de Especialização com o Mestre Bimba, ele tirou o dinheiro e disse:
Aqui está a sua parte!
Respodi:
Não Mestre, nunca peguei dinheiro de apresentação e não vai ser agora que vou pegar!

Foi quando ele me disse uma coisa que nunca mais esqueci:
Se todo mundo fôsse igual a você Osvaldo, que sempre está me ajudando e nunca pegou dinheiro de apresentação que você participou aqui comigo!
Em 1971 na ocasião da EXPO 71 em Goiânia-Goiás, colaborei com o pessoal da Organização e fui convidado para fazer a apresentação de Capoeira.
Sabendo das dificuldades do Mestre Bimba, pedi ao pessoal da organização para contratá-lo, para apresentar a Capoeira na abertura da Feira Agropecuária de Goiânia que é uma festa muito importante e conhecida no Brasil inteiro.

O Mestre fêz 3 apresentações e em uma delas teve a honra das presenças do Presidente Médice e do governador do Estado de Goiás, Dr Leonino di Ramos Caiado!
O cachê foi de 2 milhões de cruzeiros e o ajudou muito a aguentar a crise que ele vinha atravessando na Bahia!
Foi um marco histórico para mim, pois consegui um avião da SUDENE com o Governo do Estado de Goiás, para ir buscar o Grupo Folclórico de Mestre Bimba em Salvador.

Fechei contrato com Mestre Bimba e tenho toda esta documentação arquivada! Tem muita gente que fica conversando o que não sabe, porque quer aparecer e viver de conversa, viver de ilusão, mentindo para os outros!
Reuni o pessoal do Mestre no Nordeste de Amaralina 7:00 horas da manhã e embarcamos para Gioânia. A volta também de avião com Mestre Bimba foi uma honra muito grande para mim, porque nenhuma dessas pessoas que conversam o que não sabem, tiveram a capacidade de fazer o que fiz pelo Mestre Bimba!

Outro grande marco que realizei, foi quando o Grupo Furacões da Bahia, fêz apresentações aqui em Gioânia! Consegui a estadia de 8 dias para 40 figurantes e que era comandado pelo Mestre Camisa Rôxa, discípulo de Mestre Bimba.
Fêz o 1º Show com qualidade internacional aqui no ESEFEGO levando grande multidão. Consegui outro Show no Goiânia Tênis Clube e você pode tirar a conclusão:
40 pessoas e eu consegui hospedagem para todos, que ficaram muito satisfeitos comigo, com a atenção que tive para com eles.

Porque eu sempre procurei trabalhar e não ficar de conversa mole, porque conversa mole não põe ninguém para frente!
Ficar conversando e criticando é muito fácil, mas eu posso falar com todo prazer da honraria que tive de Mestre Bimba ao ele me dizer:
Você é um cara que faz alguma coisa!
Num Simpósio Brasileiro de História realizado aqui em Goiânia, veio delegações de todo o Brasil e a delegação Bahiana teve problema, pois estava sem verba para a alimentação e o combustível da volta.

Juntei os meus discípulos do Grupo Folclórico do Mestre Osvaldo de Souza e junto com o pessoal do Manolo aluno de Bimba e que estava na delegação Bahiana, fizemos um Show e graças a Deus, porque Deus é grande, conseguimos lotar o local e com isso conseguir a verba necessária para voltarem de ônibus!
O que eu passo para meus alunos foi o que aprendi com Mestre Bimba, nunca desvirtuei a Capoeira Regional, tanto que ja re-editei o Método de Capoeira Regional (#1) aonde friso as palavras:
Discípulo e seguidor de Mestre Bimba!

Fiz todo o aprendizado de Capoeira com Mestre Bimba, as especializações e ele falava:
Você é um discípulo que eu vou diplomar!
Tanto é que recebi os diplomas, um na época do Orgão que comandava a Capoeira, a Federação de Pugilismo e outro do Centro de Cultura Física Regional da Bahia.
No diploma do Centro lê-se:
O Sr. Osvaldo Rocha de Souza recebeu com aproveitamento os cursos de Capoeira Regional e recebeu o Título de Mestre de Capoeira!

Um dia o Mestre falou para mim:
Osvaldo se um dia eu faltar, você vai ser endeusado por uns e odiado por outros!
Quero deixar claro aqui que nunca causei dano a coisa nenhuma, apenas atendi ao pedido dele, porque o exílio dele foi expontâneo, ja tinha vontade de vir para Goiás, tanto é que falou para os jornais:
Se eu não gozar nada em Goiás, gozarei ao menos do cemitério!
A decepção de Mestre Bimba com a Bahia foi muito grande, ja saiu de lá abalado emocional e psicologicamente, uma pessoa já de idade, passar pelo que ele passou e não ter ajuda!!!

A minha militância na Capoeira vem desde os 13 anos, sempre estive no núcleo de bons capoeiristas na Bahia, treinei com Crispim o filho de Mestre Bimba e depois fui para a mão de Mestre Bimba que me recebeu com toda a atenção e procurou me ensinar/transmitir tudo.
Tenho um acervo muito grande, fotos de Mestre Bimba, documentação que não é qualquer um que tem.

Enquanto ele esteve aqui em Goiás sempre procurei zelar pela saúde do Mestre, porque quando ele chegou estava se sentido mal e procurei médicos alunos meus que fizeram todo o check-up no Mestre, tratamento, revisão médica! Também o Doutor Carlos ajudou dando tratamento ja que ele apresentava sintomas de hipertensão, e ele tinha todos os remédios necessários, os quais ele sempre procurou tomar seguindo o que os médicos prescreviam.

As Casas
Muitos falam que foi prometido casas para Mestre Bimba e familiares, escola para os filhos....nunca falei isso e não foi firmado contrato nenhum a respeito!
Ele chegou aqui, escolheu as casas e morou nelas, só que tinha que vender as casas e Academias ( a história diz que ele vendeu-as para alunos) da Bahia para poder compra-las.
Infelizmente para ele, vendeu-as a prestação e na 1ª cobrança veio da Bahia sem o dinheiro e o que ele ganhava aqui só dava para as despesas dele e familiares.

Chegou tão contrariado que até desmaiou na rodoviária!
Falar todo mundo fala, criticar todo mundo critica, mas ninguém participou, ninguém ajudou em nada!
Procurei ajudar e dentro do possivel fiz demais!
Para ele vir para cá, eu tive que pegar todo o pessoal lá, embarcar todos e encaminha-los aqui.
Lá na Bahia o pessoal ajudou em quê?
Em nada!
Fui eu quem pagou as passagens de todos e foram 22 pessoas, e para elas dei alimentação até normalizarem as suas vidas!

A Academia
Um dia Mestre Bimba me falou:
Agora vou arrumar um local e vou dar aula para minha sobrevivência.
Enquanto esteve comigo a aula era dividida 50% para cada um e eu tinha quase 600 alunos.
Foi um negócio democrático, dividimos numa boa, sem um arranhão, sem nada de discussão!
Quando ele foi dar aula no DCE e na ESEFEGO uma parte e meus alunos foi com ele.

É importante frisar que foram alunos que começaram na minha Academia, e foram formados por mim na Formatura no Cine Teatro Gioânia, aonde Mestre Bimba foi paraninfo dessa turma.
Eles ficam falando:
Eu formei com Mestre Bimba, fui aluno de Mestre Bimba!
Iniciaram comigo na Capoeira, eu peguei na mão deles para ensiná-los e sei o nome de todos eles!

As cartas
Tenho cartas de quando ele me escrevia de Salvador, no começo da carta ele fala:
Meu aluno e Amigo Osvaldo!
As pessoas foram deturpando, falando isso e aquilo e procurando uma deturpação fora do comum.
Outro fato importante, eu sempre conversei com Dona Nair (espôsa de Bimba) e ela falou-me:
O Mestre Bimba aqui em Gioás ganhou dinheiro que muito tempo ele não ganhou em Salvador! Eu admiro muito o que você fez pelo Mestre, porque só eu sei as dificuldades que passamos. Todo mundo fala isso e aquilo mas resolver o problema ninguém resolvia!

A morte
Dizem que Mestre Bimba morreu de Banzo aqui em Gioás o que não é verdade, porque o problema do Mestre Bimba foi a Bahia, que não socorreu ele em nada, que não fez nada, todo mundo foi displicente.
Agora eu pergunto a vocês aí em Salvador:
Um baluarte da Capoeira como Mestre Bimba, Mestres dos Mestres, o Lutero da Capoeira, o Papa da Capoeira moderna, vocês só ficam olhando o Homem na extrema dificuldade, vendendo as coisas para sobreviver?

Na hora do acontecimento que ele faleceu, eles entraram em pânico, porque não resolveram nada, ficaram aqui com o Mestre fazendo Shows e hoje se viram para querer me criticar!
Aí ele vem até mim, me pede e eu não posso falar que não para ele, pelo menos fiz o que me pediu e aqui ele teve trabalho, fez show, deu aula!
Quero deixar bem claro aqui, se ele falasse:
Me leva novamente!
Eu o levaria para Goiás!
Esta é a minha verdade!
Mestre Osvaldo de Souza, discípulo e seguidor de Mestre Bimba!

Escrito por Leiteiro

PS: Um artigo interessante não acham? Quem quiser pode deixar um comentário para podermos abrir uma discussão sadia.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Capoeira na Men's Health



Ganhe um novo corpo na capoeira

Aposte nesse jogo para definir os músculos e deixar seu corpo ágil e flexível

Por: Tarso Araújo e Wilson Weigl
Foto: Rogério Albuquerque
Publicado 23/10/2009


Você quer colocar movimento na sua rotina de exercícios e deixar seu corpo ao mesmo tempo forte e flexível, resistente e relaxado? Então a capoeira é sua opção de treino. A arte marcial tipicamente brasileira nasceu como uma técnica de luta dos negros escravos. Ao longo do tempo, foi se difundindo entre as raças e classes sociais até se tornar um esporte praticado hoje em pelo menos 132 países, segundo a Federação Internacional de Capoeira (Fica).

Jogar capoeira é uma alternativa para quem não gosta de treinos com pesos e da rotina de academia e quer construir um corpo sarado. "É uma atividade excelente para ganhar força muscular localizada. Os golpes movimentam grupos musculares que raramente exercitamos", afirma o presidente da Fica, Sergio Luiz Vieira, mestre de capoeira e antropólogo especializado no esporte.

A prática nasceu nas rodas de escravos que se reuniam nas clareiras em volta das fazendas. Tanto que o nome foi emprestado do termo que designa o terreno roçado para o plantio - capoeira, em língua tupi. Um dos diferenciais dessa arte marcial, a música (cantos e palmas embalados por berimbau, atabaque e pandeiro) ajudava a disfarçar o caráter agressivo, fazendo a luta parecer uma dança aos olhos dos fazendeiros brancos. Quando escravos fugitivos começaram a usá-la em assaltos e arruaças, ela criou vínculo com a bandidagem e foi proibida no século 19. Só voltou a ser legalizada na década de 1940.

Hoje são 5 milhões de praticantes no Brasil e mais 3 milhões no mundo. A calça branca usada ainda hoje - o abadá -, único acessório necessário para a prática, é reminiscência das roupas dos escravos, feitas de sacos de farinha.

O que você ganha na roda
Veja os benefícios que você conquista com a prática. A freqüência ideal é de três dias por semana com duas horas por sessão. Treinando nesse ritmo, você já sente resultados em três meses.

• Força e resistência
A riqueza de movimentos da capoeira mobiliza praticamente todos os grupos musculares, grandes e pequenos. Eles são importantes para sustentar e impulsionar o peso do corpo. Você desenvolve força, explosão e resistência muscular de maneira harmoniosa, sem hipertrofia, além de uma excelente capacidade cardiorrespiratória.

• Flexibilidade
Como os movimentos da capoeira têm muita amplitude, ela desenvolve a elasticidade dos músculos e a flexibilidade das articulações. Com o corpo mais solto, você ganha qualidade de movimento e se protege de lesões.

• Coordenação e equilíbrio
Todos os golpes da capoeira são encaixados em uma seqüência ininterrupta de movimentos, com a ginga no compasso do berimbau. Jogando, você exercita a coordenação motora, o equilíbrio e o ritmo, tudo ao mesmo tempo.

• Agilidade e reflexo
A capoeira também é uma espécie de diálogo em que os participantes alternam golpes de ataque e movimentos de esquiva de olho na ação do outro. Essa interação - e o pouco tempo para agir sem perder o ritmo - exige agilidade e reflexo rápido.

• Sociabilidade
Na roda, as diferenças se nivelam.
A cada vez, duas pessoas entram no centro do círculo e exibem seu jogo para os demais participantes, que cantam e batem palmas para dar o ritmo. Essa dinâmica leva à desinibição e à abertura entre os capoeiristas. No jogo, alternam-se momentos de provocação, malícia, respeito, seriedade e brincadeira.

Um jogo, três estilos

Ao longo das décadas, a capoeira se ramificou em três vertentes.

Angola: gênero mais próximo do jogo original dos escravos, valoriza a "mandinga" (o jogo malicioso) e tem um estilo mais lento e próximo ao chão.

Regional:
surgida na primeira metade do século 20, tornou-se bastante popular. Tem um estilo rápido e dinâmico, que utiliza movimentos amplos.

Contemporânea:
designa um tipo de capoeira regional com movimentos que não fazem parte do repertório tradicional do jogo, como os saltos.

Malhando com a capoeira
Se você ainda não estiver pronto para entrar de vez na roda, pode começar a mexer o corpo com esta série de exercícios inspirada no jogo da vertente regional. Você vai sentir o aumento da força, agilidade e flexibilidade, três benefícios do esporte. O treino foi criado em parceria pelo professor de capoeira Bruno Tijolo, da academia Tribal Brasil, de São Paulo, e pelo preparador físico Marcelo Bueno, consultor de fitness da Men's Health. O modelo é Joubert Campelo, professor de capoeira da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo.



Antes de começar: alongue membros superiores e inferiores e, principalmente, as articulações dos joelhos, quadril, punhos, cotovelos e pescoço.

GINGA
É a fase inicial da capoeira, com ênfase nos movimentos de braços e pernas. os golpes da luta partem dela.



Exercita: coxas, pernas, abdome e ombros.

Como fazer: comece executando os movimentos devagar, em frente ao espelho, para pegar o ritmo. Em pé, posicione-se com a perna direita à frente e à esquerda atrás, ambas flexionadas, e o braço esquerdo flexionado na altura do queixo. Traga a perna esquerda para a frente, na linha da direita, invertendo os braços. Jogue a perna direita para trás, assumindo a posição inicial , só que do lado contrário. Repita o movimento todo de trás para a frente, sempre trocando pernas e braços. Quando pegar o ritmo, alterne os dois lados sem parar, fazendo a "ginga". Execute três séries de dez repetições de cada lado.


MEIA-LUA DE FRENTE
Este é um movimento básico, que se aprende nas primeiras aulas de capoeira: levanta-se a perna na direção do adversário, um chute em forma de semicírculo, de fora para dentro.

Exercita: coxas, abdome, glúteos.

Como fazer: eleve a perna direita para executar um movimento de "meia lua" à frente, de fora para dentro. Para isso, cruze a perna direita à frente da esquerda, sem tocar o pé no chão, e volte à posição inicial. Execute o movimento rapidamente. Comece com uma altura onde a perna fique completamente estendida e o pé fletido (com a ponta voltada para o tronco). Faça três séries de dez repetições, alternando as pernas.


COCORINHA
É um dos movimentos de defesa frontal na capoeira: quando um jogador ataca, o outro recua se agachando. Daí parte para o ataque quando se levanta, com a impulsão do braço.

Exercita: coxas, glúteos, abdome, tríceps e ombros.

Como fazer: comece pela posição da ginga (veja acima), dê um passo à frente com a perna direita, posicionando-a paralelamente à esquerda, mantendo-as afastadas. Com as pernas flexionadas, inverta a posição dos braços (eleve o braço esquerdo, flexionando-o acima dos olhos para se equilibrar, como se fosse se proteger em caso de ataque) e apóie a mão direita no chão. Faça três séries de dez repetições, passando por todos os movimentos de forma cadenciada, até pegar o "ritmo". Alterne os lados.


QUEIXADA

O golpe é semelhante à meia-lua. A diferença é que o movimento da perna é feito de dentro para fora.

Exercita: coxas, abdome, glúteos.

Como fazer: fique em pé com uma distância entre os pés similar à largura dos ombros. Fazendo um movimento de semicírculo, eleve a perna direita passando-a à frente do corpo e cruzando a perna esquerda. Durante o movimento, coloque o braço esquerdo flexionado à frente do queixo para ganhar equilíbrio e proteção. Execute o movimento rapidamente, como um chute lateral de dentro para fora do seu eixo central. Faça três séries de dez repetições, alternando as pernas e os braços.

ESQUIVA LATERAL
Aqui, o jogador se defende dos golpes se desviando para o lado, posicionando-se para o rápido contra-ataque.

Exercita: coxa, glúteos, tríceps, abdome, ombros, cintura.

Como fazer: adote a posição básica da ginga - perna esquerda à frente e perna direita posicionada atrás (as duas semiflexionadas) e o braço direito flexionado na frente do queixo. Dê um passo à frente com a perna direita, flexionando-a, e estenda a perna esquerda. Abaixe o tronco na direção da perna flexionada, apoiando a mão direita no chão. O braço esquerdo continua protegendo o rosto. Volte à posição inicial, repetindo todos os movimentos passo a passo. Faça três séries de dez repetições de cada lado.


BÊNÇÃO

Este golpe usa a força da impulsão para afastar o adversário.

Exercita: abdome, coxas.

Como fazer: com as pernas flexionadas (a esquerda à frente e à direita atrás) e o braço direito flexionado à frente do queixo, execute um chute à frente, flexionando a perna direita e estendendo-a com o pé fletido (com a ponta voltada para cima). Troque a posição dos braços para ganhar equilíbrio e se proteger. Faça três séries de dez repetições, alternando as pernas.


QUEDA DE QUATRO APOIOS
Nesta outra defesa, o jogador impulsiona o corpo para trás, apoiando mãos e pés no chão, e anda para a frente e para trás "de caranguejo".

Exercita: abdome, ombros, lombar, glúteos, coxas e tríceps.

Como fazer: a posição de partida é a da ginga. Dê um passo à frente com a perna direita, posicionando-a paralelamente à perna esquerda, a uma distância similar à largura dos ombros. Flexione as duas pernas colocando os braços para trás e desloque o tronco como se fosse cair de costas. Apóie as mãos no chão. Com o abdome contraído e o quadril acima do chão, caminhe três passos para a frente e três para trás, como um caranguejo. Volte à posição inicial. Atenção: se você tem alguma lesão nos ombros ou nos punhos, evite este exercício. Faça três séries de dez repetições.


MARTELO

golpe extremamente ofensivo que os capoeiristas chamam de "traumatizante", usado para definir o jogo.

Exercita: abdome, cintura, coxas, glúteos.

Como fazer: posicione-se com a perna esquerda à frente e a direita para trás (as duas semiflexionadas) e o braço direito dobrado à frente do queixo. Execute um chute à frente "lateralmente" com a perna direita e volte à posição inicial. Ao executar o movimento, observe a posição dos braços para obter equilíbrio e proteção (o braço esquerdo fica flexionado à frente do peito). Faça três séries de dez movimentos, alternando as pernas.

PONTE (ALONGAMENTO)

inicie e Finalize o treino com este exercício para alongar os músculos e ganhar flexibilidade nas articulações.

Alonga: abdome, glúteos, ombros, coxas e tríceps.

Como fazer: deite de costas com as pernas flexionadas e afastadas, os braços ao lado da cabeça flexionados e afastados e os cotovelos apontando para cima. Eleve o tronco e o quadril até formar um arco. Mantenha a posição durante três segundos e volte à posição inicial. Repita três vezes.



Fonte: Revista Men's Health

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Mestre João Pequeno de Pastinha



FALTA DE MESTRE PASTINHA,
JOÃO PEQUENO É SUCESSOR, CAMARADINHA

Texto e fotos: Brígida Rodrigues



O senhor nasceu onde?
Eu nasci... Em Araci (interior da Bahia), que era a terra de minha mãe, onde morava o pai de minha mãe. E meu pai era de Tanquinho de Feira.

Mestre, eu já ouvi umas histórias do senhor... Fiquei sabendo que o senhor era o terror da Bahia...
Era eu e João Grande. “Nós era” parceiro de jogo. Apelidavam a gente “os caceteiro de Pastinha”. É, meu Deus... Mas João Grande tá velho, já lá encostado, e eu não, eu ainda tô aí... Eu não quero ficar velho, não (risos).

O que é a capoeira pro senhor?
A capoeira é parte da minha vida. Posso dizer que é a minha profissão. Minha profissão mesmo de trabalho é pedreiro. Eu sou pedreiro e pintor de parede, pintor de casa. Mas depois da capoeira eu deixei tudo e só vivo da capoeira.

Desde que idade o senhor começou a jogar a capoeira?
Desde menino que eu ando no meio da capoeira. Agora quem me preparou mesmo foi mestre Pastinha.

E o senhor tinha quanto anos na época em que começou a treinar com Mestre Pastinha?
Uns 40 anos, mais ou menos. Não me lembro...


E seu Pastinha tinha quantos?
Tinha de setenta pra lá (risos).



E hoje o senhor ainda entra na roda de capoeira?
Jogo, canto, eu toco, faço tudo. Sabe quantos anos eu tenho? Entrei agora nos 89 anos.

E jogar capoeira?
Jogar capoeira é bom. A capoeira é... (risos)

É remédio pra tudo?
A Capoeira é liberdade.

O senhor acredita que a capoeira pode ajudar pessoas que têm alguma limitação a superar?
Com certeza. A capoeira até cura doença.

Jogar capoeira faz viver mais?
Eu não sei porque tem capoeirista que morre novo.

Os valentões?
Não, que nada! Valentão é os que “veve” mais... (garganhada)

O senhor é valentão?
Não (risos). Eu tinha vontade de ser valentão. Antigamente, a capoeira angola era uma luta. E eu ouvia dizer que tinha uma luta que batia no adversário sem precisar pegar. Aí eu... Que luta é essa? Quando eu vi a capoeira eu disse, ah, essa tá boa. Mas a minha mãe, quando via minhas intenções, rogava muito a Deus por mim. E eu, em vez de continuar naquele pensamento maluco, hoje eu sou cristão, graças a Deus. Hoje eu sou assim, sentimental. Em vez “deu” ficar valentão eu fiquei sentimental. Qualquer coisa que dá sentimento, eu choro.

O que o senhor acha importante que os alunos do senhor saibam para continuar seu trabalho?
Importante é eles fazerem a capoeira como me encontraram com ela e cuidar dela também.


Cuidar como?
Como eu to fazendo (risos). Eu já andei o mundo inteiro...

O senhor já pensou alguma vez em sair do Brasil?
Não... Quero andar o mundo inteiro para mostrar a capoeira, mas sair do Brasil, sair da Bahia, não.


O senhor acha que a capoeira hoje, comparada com aquela época em que o capoeirista era comparado a um marginal, o senhor acha que ainda hoje as pessoas ainda sofrem preconceito por jogar a capoeira?
Não. A capoeira hoje é arte e o capoeirista hoje é artista.

Naquela época quem jogava capoeira podia ser preso...
Era malandro, era vagabundo...

O senhor chegou a ser preso?
Quando eu cheguei na capoeira, a capoeira já tinha sido libertada.

Qual a diferença daquela época, quando a capoeira era ilegal, para o capoeirista de hoje?
É a mesma coisa.


A capoeira antes era mais violenta?
Mesma coisa. A capoeira violenta, foram algumas que criaram aí, mas não andou não. Como a capoeira regional, foi Bimba que fez. Ele era lutador e achou que a capoeira de angola tava fraca. Aí botou outros golpes de luta e fez a capoeira regional.

O que é capoeira para o senhor?
Eu divido a minha vida em duas partes: a parte espiritual eu entrego nas mãos de Deus e de Jesus Cristo e a parte material é a capoeira. Eu falo sempre assim (risos).

Então quer dizer que a capoeira é a vida do senhor?
Pois é. Com certeza!

O que ficou de bom do aprendizado com Mestre Pastinha?
Foi o meu Mestre. Tudo que eu sei foi ele que me ensinou. Quando ele tava já morrendo, ele disse “João, tome conta disso. Tome conta disso que eu vou morrer, mas somente o corpo. Em espírito, eu vivo. Enquanto houver capoeira, o meu nome não desaparece”. Aí foi que me apelidaram João Pequeno de Pastinha, Pastinha de Vicente Ferreira.

O senhor se lembra de qual cantiga mestre Pastinha mais gostava?
Não, ele não era cantor, não.

E corrido, ele tinha um preferido?
Ele não era cantor de capoeira. Às vezes ele cantava, mas ele era campeão mesmo é de jogo.

E qual é a cantiga ou o corrido que o senhor mais gosta?
A ladainha (começando a cantar):
Quando eu aqui cheguei
A todos eu vim louvar
Vim louvar a Deus primeiro
E “os morador” desse lugar
Agora tô cantando, cantando, dando louvor
Tô louvando a Jesus Cristo
Porque nos abençou
Tô louvando e tô rogando
Tô louvando e tô rogando ao pai que nos criou
Abençoe esta cidade com todos seus moradores
E na roda de capoeira abençoe jogadores, camaradinho
Eu gosto de cantar. Quando nos lugares eu chego, eu gosto de cantar essa ladainha.

Mestre Pastinha fez uma ladainha para o senhor que chama o senhor de cobra mansa...
Era eu e João Grande. Eu era cobra mansa e João grande era gavião. É porque a minha capoeira sempre foi rolada no chão e a de João Grande era capoeira alta. Aí seu Pastinha me botou o apelido de cobra mansa e João Grande, de gavião.

O senhor pode cantar?
Na minha academia tenho “dois menino”
Todos dois se chama João
Um é cobra mansa
E o outro é gavião
Quando um anda “pelos ar”
O outro se enrosca pelo chão, camaradinha


Mestre, o que é esse pulo do gato de que Mestre Pastinha falava quando dizia que o 

O senhor tem alguma visão de como vai ser a capoeira no futuro?
É a mesma coisa de agora. Continua sendo a mesma coisa (muitos risos). É que antes a capoeira era de malandro e hoje não, a capoeira já entrou nas escolas e já tem campeonato de capoeira. A capoeira já está funcionando como arte.

Mestre o que o senhor acha da capoeira contemporânea?
Contemporânea é que vai permanecer de agora em diante.

Contemporânea então é capoeira angola?
É a mesma capoeira, porque a capoeira regional quem fez foi Bimba, Bimba morreu e a capoeira regional acabou.

Porque que Bimba criou a capoeira regional?
Porque ele era lutador e ele achou que a capoeira de angola tava fraca. Aí botou golpe de outras lutas e o nome de regional. Eu ouvi ele dizer assim: “eu botei esse nome de regional porque são coisas que vêm das regiões”. Mas qualquer pessoa bota novos golpes. Seu Pastinha, mesmo, botou. Eu também. E também trenel de alunos.

O senhor acha a capoeira angola fraca?
Eu não acho a Capoeira de Angola fraca, não. Ela não tem é os golpes que tem a regional, nas na hora H, a gente bate (risos).

O que o senhor pensa de um jogo com um angoleiro jogando com um capoeirista da capoeira regional ou contemporânea?
Eu acho que ninguém faz mais capoeira regional, não. Mas pode-se jogar junto. Eles só fazem a capoeira regional porque a capoeira angola é mais jogada no chão. E a regional é no alto.

E o que o senhor acha de ter campeonato de capoeira angola?
Isso é bom. Acho que nunca foi criado isso. Até agora nunca puderam criar campeonato de capoeira nas escolas. As escolas fazendo campeonato de capoeira. Eu tinha vontade que isso fosse incluído na capoeira, campeonato.

E quem vai ganhar e quem vai perder no campeonato?
As escolas. A campeã seria a escola de capoeira que tivesse os alunos que ganharam de todas as outras escolas.

O que o senhor acha que não está bom na capoeira hoje?
A capoeira hoje tá boa. Agora, tem lugar aí ou pessoas que vão fazer capoeira na rua. E capoeira na rua não pode ser uma escola. A escola tem que ser em aposento assim, né? E a rua não pode ser escola de capoeira. Não é bom porque a capoeira é uma arte. E ela na rua é de malandro, é de vagabundo. Por exemplo, a pessoa quer botar uma criança na capoeira, mas pra botar, uma roda na rua não presta, só treino na academia pra ensinar a criança.
Se ganha dinheiro na capoeira com aluno. E aluno tem que pagar para aprender. Nas academias tem que pagar.


O que o senhor pode falar sobre Besouro de Mangangá?
Ele era primo de meu pai, acho que por parte de mãe. Meu pai era de Tanquinho de Feira, de Santana. Besouro de Mangagá não era capoeirista. Eu sei que ele desaparecia (risos).

Como assim?
Botaram besouro na capoeira, mas ele não era capoeirista, não. Besouro sumia, desaparecia... Era de reza, de oração. Tem reza que a pessoa faz pra desaparecer. Desaparecer da vista do povo.


O senhor acredita que desaparece mesmo?
Desaparece sim.
Uma vez quando eu era menino ainda, ia mais meu pai procurar beira de mato pra tirar mel. E um dia a gente foi descansar debaixo de um embuzeiro numa fazenda de um irmão de meu padrinho. Essa cara não era coisa muito boa não... (riso).
Aí eu peguei no sono, dormi em baixo do embuzeiro. Quando eu acordei, meu pai bateu em mim com a mão assim pra eu ficar quieto, né? Pra eu não me bulir. Era a oração que ele tinha, que ele fazia e ali ninguém via ele.


Mas o senhor viu ele desaparecer?
Nem se via mesmo porque eu tava dormindo... Aí quando eu acordei ele bateu assim em mim que eu pra eu ficar quieto. Aí o dono da fazenda chegou andou por ali tudo, mas não viu.

O que o senhor deixaria como mensagem da capoeira pra quem tá começando, pra ler no Jornal Capoeira e levar pro resto da vida?
Eu gosto de dar um conselho: quem faz capoeira ou quer fazer, que façam capoeira com amor. Que não queira desviar a capoeira pelos maus caminhos. Que a capoeira serve pra vida da gente, pra saúde, pra tudo. Faça a capoeira com amor! Que a capoeira antes era de valentão e hoje não... Que hoje eu roguei a Deus para que a capoeira venha a ser uma profissão, não espiritual, mas até pessoal. Esse é o recado que eu tenho para mandar pra quem já sabe e quer também aprender a capoeira.

Agradecimentos especiais aos capoeiristas Zoinho (Academia de João Pequeno de Pastinha), Marcelo (....), Lim (.....), Miguel (Louvadeus de João Pequeno), e a André Galvão, da Secretaria de Cultura de Londrina, que acompanhando as entrevistas realizadas, colaboraram neste trabalho fazendo também suas perguntas ao Mestre.

Fonte: Revista Capoeira

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Relançamento mundial em DVD do filme: Pastinha! Uma Vida pela Capoeira

Mestre Pastinha e Mestre Noronha
Primeiro filme/documentário sobre Capoeira lançado após a retomada do Cinema Nacional, conta a vida do maior mestre da Capoeira Angola, seu Guardião e Poeta - Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha.
Conta com depoimentos dele, de sua companheira D. Maria Romélia, dos maiores mestres da Capoeira Angola, como João Grande, em Nova Yorque, USA, João Pequeno e Curió, em Salvador, Bahia, e Neco Pelourinho, no Rio de Janeiro, bem como o depoimento do Mestre Dr. Ângelo Decânio, o mais antigo discípulo de Mestre Bimba. Conta ainda com entrevistas de Jorge Amado, Carybé, Pierre Verger, Roberto Freire, Ildásio Tavares, do Prof. Muniz Sodré, e dos especialistas em Capoeira Prof. Carlos Eugênio Líbano Soares e Frede Abreu.

Pastinha! Uma Vida pela Capoeira está sendo relançado em tres frentes:
  • Editora D+T, de São Paulo, está disponível nas bancas de jornais de todo o Brasil, junto com uma revista especial sobre o  Mestre Pastinha.
  • Livraria Saraiva Digital, para download em todo o Brasil - Para Comprar o Filme, clique aqui (Livraria Saraiva Digital)
  • DIVA A.G, da Suíça, que está disponibilizando o DVD para download a mais de 100 sites revendedores de conteúdo digital no mundo.
Em parceria com o Cineasta Toninho Muricy, o Portal Capoeira está disponibilizando uma fantástica galeria de Imagens do Filme, clique aqui e confira!!!

Nova Versão em DVD

A nova versão em DVD contém 07 minutos de imagens adicionais, em relação ao lançamento original do filme nas bancas de jornal em 2000, em formato de fita VHS, legendas em Português, Inglês, Francês e Espanhol, e três extras: os depoimentos do Diretor, Antônio Carlos Muricy, do Prof. Muniz Sodré, e do Dr. Ângelo Decâneo, que faz uma profunda reflexão sobre a violência na Capoeira.
Tem ainda uma participação especialíssima do sambista Nélson Sargento, interpretando o samba "Héróis da Liberdade", de Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira. E mais, fotos de Pierre Verger, e desenhos de Capoeira do próprio Mestre Pastinha.



Grande abraço e muito obrigado!

Toninho Muricy
Taquari Produções Ltda.
(21) 8899-0328 / (21) 2236-0932
www.toninhomuricy.net
skype: toninhomuricy

Fonte: Portal Capoeira

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Puxada de Rede


Puxada de Rede
A Puxada de rede surgiu após o período da escravidão, quando os negros não acharam oportunidades de se encaixar no mercado de trabalho e procuram seu sustento no mar. E assim uma parte destes negros se deslocam para as entranhas dos mangues, sendo que na região de Santo Amaro - BA , foi umas das primeiras cidades a ser visto negros trabalhando nesta área. A puxada da rede do xareu (designação comum a várias espécies de peixes teleosteos, percomofos, migratório, da família dos carangídeos, encontrados no oceano atlântico) é uma das heranças mais interessantes dos tempos da escravidão, sobretudo pelo aspecto folclórico, que transforma um lambor fatigante em uma das mais agradáveis atrações das praias baianas. Observe-se tendo em vista o desenvolvimento tecnológico da pesca e outros fatores relacionados com o meio ambiente, essa atividade artesanal encontra-se, desde a década de 70, em franca decadência, sendo exercida, esporadicamente, por algumas das pequenas colônias de pescadores existentes ao longo da orla marítima da Bahia, mais sem o encanto e a magia dos tempos passados. Efetivamente embora ainda seja praticada, em escala muito reduzida, perdeu o seu antigo ritual e efeito sem os cânticos e marcação de pés que tanto a caracterizava e a embelezava no passado. Convém salientar que, apesar de estar hoje praticamente extinta, a pesca do xareu (que se fazia principalmente nas águas das praias).

O teatro folclórico que retrata a puxada de rede, conta a história de um pescador que ao sair para o mar em plena noite para fazer o sustento da família, despede-se de sua mulher que, em mau pressentimento, preocupa-se com a partida do marido e o assusta dizendo dos perigos de sair à noite, mas o pescador sai e deixa-a a chorar, e os filhos assustados.
O pescador sai para o mar e leva consigo uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, seus companheiros de pesca e a bênção de Deus.
Muito antes do horário previsto para a volta dos pescadores, a mulher do pescador, que ficou na praia esperando a hora do arrasto, teve uma visão um tanto quanto estranha. Ela vê o barco voltando com todos à bordo muito tristes e alguns até chorando. Quando os pescadores desembarcam, ela dá pela falta do marido e os pescadores dizem a ela que ele caiu no mar por conta de um descuido e que devido à escuridão da noite, não foi possível encontrá-lo, ficando ele perdido na imensidão das águas.
Ao amanhecer, quando foram fazer o arrasto da rede que ficara no mar, os pescadores notaram que por ter sido aquela uma noite de pouca pesca, a rede estava pesada demais. Ao chegar todo o arrasto à praia, já com dia claro, todos viram no meio dos poucos peixes que vieram, o corpo do pescador desaparecido. A tristeza foi instantânea e o desespero tomou conta de todos ali presentes.
Prossegue-se então os rituais fúnebres do pescador sendo levado à sua morada eterna pelos amigos que estavam com ele no mar, sendo seu corpo carregado nos ombros, pois a situação financeira não comportaria a compra de uma urna, o cortejo segue pela praia.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Maculelê: Dança e Luta


Click na imagem para ampliar
Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, cidade marcada pelo verde dos canaviais, é terra rica em manifestações da cultura popular de herança africana. Berço da capoeira baiana, foi também o palco de surgimento do Maculelê, dança de forte expressão dramática, destinada a participantes do sexo masculino, que dançam em grupo, batendo as grimas (bastões) ao ritmo dos atabaques e ao som de cânticos em dialetos africanos ou em linguagem popular. Era o ponto alto dos folguedos populares, nas celebrações profanas locais, comemorativas do dia de Nossa
Senhora da Purificação (2 de fevereiro), a santa padroeira da cidade. Dentre todos os folguedos de Santo Amaro, o Maculelê era o mais contagiante, pelo ritmo vibrante e riqueza de cores. Sua origem, porém, como aliás ocorre em relação a todas as manifestações folclóricas de matriz africana, é obscura e desconhecida. Acredita-se que seja um ato popular de origem africana que teria florescido no século XVIII nos canaviais de Santo Amaro, e que passara a integrar as comemorações locais. Há quem sustente, no entanto, que o Maculelê tem também raízes indígenas, sendo então de origem afro-indígena.

Conta a lenda que a encenação do Maculelê baseia-se em um episódio épico ocorrido numa aldeia primitiva do reino de Iorubá, em que, certa vez, saíram todos juntos os guerreiros para caçar, permanecendo na aldeia apenas 22 homens, na maioria idosos, junto das mulheres e crianças. Disso aproveitou-se uma tribo inimiga para atacar, com maior número de guerreiros. Os 22 homens remanescentes teriam então se armado de curtos bastões de pau e enfrentado os invasores, demonstrando tanta coragem que conseguiram pó-los em debandada. Quando retornaram os outros guerreiros, tomaram conhecimento do ocorrido e promoveram grande festa, na qual os 22 homens demonstraram a forma pela qual combateram os invasores. O episódio passou então a ser comemorado freqüentemente pelos membros da tribo, enriquecido com música característica e movimentos corporais peculiares. A dança seria assim uma homenagem à coragem daqueles bravos guerreiros.

No início deste século (XX), com a morte dos grandes mestres do Maculelê de Santo Amaro da Purificação, o folguedo deixou de constar, por muitos anos, das festas da padroeira. Até que, em 1943, apareceu um novo mestre – Paulino Aluísio de Andrade, conhecido como Popó do Maculelê, considerado por muitos como o “pai do Maculelê no Brasil”. Mestre Popó reuniu parentes e amigos, a quem ensinou a dança, baseando-se em suas lembranças, pretendendo incluí-la novamente nas festas religiosas locais. Formou um grupo, o “Conjunto de Maculelê de Santo Amaro”, que ficou muito conhecido.

É nos estudos desenvolvidos por Manoel Querino (1851-1923) que se encontram indicações de que o Maculelê seria um fragmento do Cucumbi, dança dramática em que os negros batiam roletes de madeira, acompanhados por cantos. Luís da Câmara Cascudo, em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, aponta a semelhança do Maculelê com os Congos e Moçambiques. Deve-se citar também o livro de Emília Biancardi, “Olelê Maculelê”, um dos mais completos estudos sobre o assunto.

Hoje em dia, o Maculelê se encontra integrado na relação de atividades folclóricas brasileiras e é freqüentemente apresentado nas exibições de grupos de capoeira, grupos folclóricos, colégios e universidades. Contudo, convém registrar as observações feitas por Augusto José Fascio Lopes, o mestre Baiano Anzol, ex-aluno do mestre Bimba e professor de Capoeira na Universidade federal do Rio de Janeiro: “...neste trabalho de disseminação, o Maculelê vem sofrendo profundas alterações em sua coreografia e indumentária, cujo resultado reverte em uma descaracterização. Exemplo: o que era originalmente apresentado como uma dança coreografada em círculo, com uma dupla de figurantes movimentando-se no seu interior sob o comando do mestre do Maculelê, foi substituído por uma entrada em fila indiana com as duplas dançando isoladamente e não tendo mais o comando do mestre. O gingado quebrado, voltado para o frevo, foi substituído por uma ginga dura, de pouco molejo.

“Mais recentemente, faz-se a apresentação sem a entrada em fila. Cada figurante posta-se isoladamente, sem compor os pares, e realiza movimentos em separado, mais nos moldes de uma aula comum de ginástica do que de uma apresentação folclórica requintada.

“Deve-se reconhecer que não só o Maculelê mas todas as demais manifestações populares vivas ficam sempre muito expostas a modificações ao longo do tempo e com o passar dos anos. (...) Entendo que todas essas modificações devam ficar registradas, para permitir que os pesquisadores, no futuro, possam estudar as transformações sofridas e também para orientar melhor aqueles que vierem a praticar esse folguedo popular de extrema riqueza plástica, rítmica e musical que é o Maculelê.”

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ganga Zumba


 Capa do filme Ganga Zumba
A história comete uma injustiça quando conta a saga do Quilombo dos Palmares. Nela, Zumbi aparece como o grande e único personagem na luta contra o governo escravocrata. A verdade é que Palmares só foi o que foi graças a Ganga Zumba, o grande estadista do quilombo. Pouco se sabe dele. Era um negro africano alto e forte que chegou a Palmares por volta de 1630.
Sobre sua vida foi feito um filme homônimo, dirigido por Cacá Diegues e que contou com a participação do músico Cartola.

Ganga Zumba, ou Grande Senhor, foi o primeiro líder do Quilombo dos Palmares, ou Janga Angolana, no atual estado de Alagoas - Brasil, governando entre 1670 e 1678. Foi o antecessor de seu sobrinho Zumbi. Zumba era filho da princesa Aquatune e assumiu a posição de herdeiro do reino de Palmares e o título de Ganga Zumba. Apesar de alguns documentos portugueses lhe darem este nome e o traduzirem como "Grande Senhor", ele provavelmente não está correto. Entretanto, uma carta endereçada a ele pelo governador de Pernambuco em 1678, que se encontra hoje nos Arquivos da Universidade de Coimbra, chama-o de Ganazumba, que é a melhor tradução de Grande Lorde (em Kimbundu), e portanto o seu nome correto.

Nesta época, a medida que seu número foi crescendo, eles formavam assentamentos chamados de "mocambos" (mukambo é esconderijo no dialeto banto), eram refúgios de escravos foragidos, principalmente de origem angolana (Angola), que se refugiavam no interior do Brasil, principalmente na região montanhosa de Pernambuco. Gradualmente diversos mocambos se juntaram no chamado Quilombo dos Palmares, ou Janga Angolana, sob o comando do Rei Ganga Zumba ou Ganazumba. Ganga Zumba sabia que um quilombo unido dificilmente seria vencido e procurou os líderes locais. Reuniu os maiores mocambos em uma confederação e foi eleito comandante geral. E assim, iniciou-se o período mais próspero e feliz da existência de Palmares. Ganga Zumba, que governava a maior das vilas, Cerro dos Macacos, presidia o conselho de chefes dos mocambos e era considerado o Rei de Palmares. Os outros 9 assentamentos eram comandados por irmãos, filhos ou sobrinhos de Gunga Zumba. Zumbi dos Palmares era chefe de uma das comunidades e seu irmão Andalaquituche comandava outra.
Por volta dos anos de 1670 Ganga Zumba tinha um palácio, três esposas, guardas, ministros e súditos devotos no "castelo" real chamado "Macaco" em homenagem ao animal que havia sido morto no local. O complexo do castelo era formado por 1.500 casas que abrigavam sua família, guardas e oficiais que faziam parte de nobreza. Ele recebia o respeito de um Monarca e as honras de um Lorde.
Em 1677, sob sua chefia, Palmares travou dura guerra contra a expedição portuguesa de Fernão Carrilho. Nesta batalha, as tropas da coroa fizeram 47 prisioneiros, entre os quais dois filhos de Ganga Zumba, Zambi e Acaiene, netos e sobrinhos. Um de seus filhos, Toculo, foi morto na luta. O próprio Ganga-Zumba foi ferido por uma flecha mas escapou.

Porém para tentar acabar com as tentativas de invasão que não cessavam e que obrigavam os habitantes de Palmares a viverem sempre na expectativa de uma guerra, Ganga Zumba, decidiu negociar uma paz duradoura com os brancos. Em 1678, Ganga Zumba aceitou um tratado de paz oferecido pelo Governador Português de Pernambuco, Pedro de Almeida, oferecendo ''união, bom tratamento e terras'', além de prometer devolver ''as mulheres e filhos'' de negros que estivessem em seu poder. O qual também requeria que os habitantes de Palmares se mudassem para o Vale do Cucau. Em troca da paz, os palmarinos pediam liberdade para os nascidos em Palmares, permissão para estabelecer "comércio e trato" com os moradores da região e um lugar onde pudessem viver "sujeitos às disposições" da autoridade da capitania. Prometiam entregar os escravos que dali em diante fugissem e fossem para Palmares.
Em junho de 1678, o oficial enviado a Palmares para levar a proposta retornou a Recife, à frente de um grupo de 15 palmarinos, entre os quais se encontravam três filhos de Ganga Zumba, recebidos pelo governador Almeida. O tratado foi desafiado por Zumbi, um dos sobrinhos de Ganga Zumba, que se revoltou contra ele. Zumbi e a maioria do povo do quilombo não acreditavam na paz dos brancos. Parte dos palmarinos, liderados por Zumbi, eram contrários ao acordo de paz e se recusaram a deixar Palmares.
Foi a primeira discórdia dentro do quilombo. E assim, Ganga Zumba, no dia 5 de fevereiro de 1678, acompanhado de 400 quilombolas, foi para Recife e depois rumo a Cucau onde, depois de conhecer o local onde se instalariam, percebeu que caíra numa armadilha. Em Cucau, vivendo sob forte vigilância da autoridade portuguesa e hostilizado pelo moradores das vilas próximas, Ganga Zumba vê frustrada sua iniciativa. Na confusão que se seguiu Ganga Zumba foi envenenado, muito provavelmente por um dos seus, por fazer um tratado com os portugueses. Os que se mudaram para o Vale do Cucau foram reescravizados pelos Portugueses. A resistência aos Portugueses continuou com Zumbi.

Curiosidade:

O kimbundo (mbundu) é uma das línguas mais faladas em Angola, no noroeste desse país, incluindo a província de Luanda. O português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos quer em Angola quer no Brasil. É falada por cerca de 3 milhões de pessoas em Angola, como primeira ou segunda língua.
É também conhecida como mbundu, loanda, luanda, lunda, loande, mbundu do norte, nbundu, n'bundo e kindongo.
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