sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 3/6

Cada malta apoiava um partido político e recebia
proteção dos respectivos parlamentares. Acima, Nagoas
carregam nos ombros o deputado conservador Duque-
Estrada Teixeira, que criticou a polícia em plena
assembleia
O território dos Guaiamuns avançava pela atual praça Quinze, compreendia os morros de São Bento e Providência e terminava no Campo de Santana, área dominada pelos Nagoas, que estendiam seus domínios pelas freguesias que cercavam a área central da cidade. Controlavam, portanto, os atuais bairros da Lapa, Catete e Glória. Dessa maneira, dominavam uma parte da capital que ainda estava em formação, onde se localizavam as chácaras, sítios, fazendas e até mesmo quilombos. As duas grandes maltas também se distinguiam pelas cores das fitas que utilizavam: os Nagoas se identificavam com a cor branca, e os Guaiamuns, com a vermelha.

Além das disputas entre as maltas, era comum os capoeiras aterrorizarem os moradores do próprio território que ocupavam. Muitas vezes, quando a população se reunia para assistir aos desfiles das bandas militares, eles vinham à frente dos músicos, gingando, dando rasteiras, exibindo navalhas e ameaçando verbal e corporalmente o público. Em outras ocasiões, dezenas deles provocavam as chamadas “correrias”, que visavam tanto assustar o povo quanto resolver disputas entre gangues rivais, e não raramente acabavam com a morte de um capoeira ou mesmo de algum passante atingido durante a batalha.

A contínua ameaça que a capoeira passou a representar para a ordem pública provocou ondas de repressão policial ao longo dos períodos colonial e monárquico. Durante a época de D. João VI, o major Manuel Nunes Vidigal ficou tão famoso pela crueldade com que tratava os capoeiras que chegou a ser citado no célebre romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

O major Vidigal foi o criador das “ceias de camarão”, como eram chamadas “as sangrentas sessões de chibata a que eram submetidos os capoeiras e vadios por ele encontrados”, de acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, no seu livro A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Apesar da virulência de ações policiais como a do major Vidigal, os capoeiras resistiram durante todo o Império.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 2/6

Durante o Império, as maltas de capoeira atemorizaram a capital. Escravos renegados usavam esse misto de dança e luta para desafiar seus senhores e controlar bairros inteiros da cidade

por Maurício Barros de Castro

A praça XV de Novembro em 1904: após a expulsão dos capoeiras, a cidade foi remodelada para se enquadrar nos padrões europeus de urbanismo e civilidade

A condição ambígua do escravo no Rio de Janeiro colonial e, posteriormente, imperial possibilitou a associação dos capoeiras em maltas. A dependência da cidade em relação ao escravo fazia com que ele transitasse por vários segmentos sociais e espaços geográficos. Um lugar-chave para os encontros entre os capoeiras eram os chafarizes. Distribuídos em alguns pontos da capital, eram locais de disputa e integração dos escravos capoeiras que iam buscar água para as casas de seus senhores.

O mais antigo registro da palavra “capoeira” de que se tem notícia data de 1789 e se refere à libertação de um escravo chamado Adão, preso nas ruas do Rio de Janeiro devido à prática do jogo. Esse documento mostra que a repressão à capoeiragem acontecia antes mesmo do período joanino.

Havia muitos motivos para a capoeira ser perseguida. O primeiro deles era que inicialmente se tratava de uma prática de escravos rebeldes, soltos nas ruas, abertos às trocas culturais que levaram a capoeira a assimilar o uso da navalha, a partir de contatos com brancos das classes baixas, como os barbeiros e outros faquistas.

A navalha se tornou a arma-símbolo da capoeira, mas também eram utilizados bengalas e porretes nas lutas. Além disso, havia o repertório de golpes, como rasteiras, cabeçadas e rabos de arraia, entre outros. Ao mesmo tempo que absorveu outras práticas culturais, o capoeira passou a transmitir sua arte para representantes de outras classes sociais, chegando a atingir a elite. As maltas podiam ter poucos integrantes, algumas dezenas ou até 100 capoeiras, entre eles negros escravizados, libertos e uma minoria de brancos.

A geografia das gangues era determinada pelas freguesias, mas, apesar de existirem muitos grupos que pertenciam a essas localidades específicas, a cidade foi dividida em duas grandes maltas: Nagoas e Guaiamuns. A zona portuária e a área central da cidade eram controladas pelos Guaiamuns, que ocuparam os pontos de fundação do Rio de Janeiro, mais densamente povoados e onde foram erguidas as primeiras construções da capital, como o Paço Imperial, os chafarizes, as casas, quiosques e cortiços, também chamados de “cabeças de porco”.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 1/6

Durante o Império, as maltas de capoeira atemorizaram a capital. Escravos renegados usavam esse misto de dança e luta para desafiar seus senhores e controlar bairros inteiros da cidade

por Maurício Barros de Castro

No século XIX, o jogo se tornou uma arma dos cativos
para desafiar a ordem a impor um poder paralelo em
suas comunidades
Rio de Janeiro, século XIX. Os moradores do atual bairro da Lapa estão reunidos para assistir ao desfile de uma banda militar quando, de longe, avistam um grupo de negros que aparece à frente dos músicos, gingando e dando rasteiras. Eles se aproximam. Começam a exibir suas navalhas e ameaçar o público, tanto verbal quanto corporalmente. A multidão se assusta. Todos sabem o que significam aqueles movimentos: é a temível capoeira que desfila pelas ruas da cidade.

É comum ouvir que essa mistura de dança e luta nasceu no ambiente rural dos quilombos e senzalas, mas os estudos recentes mostram que a capoeira se desenvolveu em diversas cidades portuárias que receberam grande contingente de africanos escravizados, como o Rio de Janeiro. O jogo adquiriu características próprias na capital do Império, onde foi usado pelos escravos “ao ganho”, aqueles que trabalhavam nas ruas da cidade, como instrumento tanto de resistência ao sistema de servidão quanto de controle de determinados territórios.

Os capoeiras, como eram chamados os escravos rebeldes que percorriam os bairros hostilizando os cidadãos, se organizavam em maltas, grupos que funcionavam como espécies de gangues e controlavam áreas específicas da cidade. Temidos pela população, esses bandos eram frequentemente citados nos documentos policiais como uma ameaça à ordem pública, e a capoeira sofreu uma perseguição devastadora no Rio de Janeiro no início da República.

Ocupando territórios delimitados pelas freguesias – como eram chamados os bairros demarcados a partir das igrejas católicas –, o capoeira escravo vivia uma vida dupla entre a casa do senhor e a rua, onde trabalhava carregando água e dejetos, vendendo produtos para o comércio da capital, entre outros afazeres. A rua também era o espaço dos encontros, da organização, das festas, das fugas, dos ataques e onde aprendiam capoeira, que era utilizada nas brigas em grupo ou nos confrontos individuais, fosse à luz do dia ou na escuridão das ruelas e becos que formavam o núcleo da cidade no século XIX.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Livro: Cadu e as histórias de Bantu

Sobre o livro: A autora Alexandra Barcellos nesta obra Cadu e as histórias de Bantu apresenta ao público juvenil as raízes afro-brasileiras, pouco exploradas na literatura específica para esta faixa etária, situando a narrativa no vilarejo mítico e sugestivo de africanidade Bantu, aonde o protagonista Cadu dotado pelas asas da imaginação, vivencia peripécias repletas de aprendizagem por entre o ondular de coqueiros e a presença do mar.

Leiam o restante da resenha do livro na fonte abaixo...

Fonte: Portal Capoeira
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