sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Conselho Nacional do Esporte decide que Capoeira é Esporte

Chegou ao fim uma discussão que perdurava há tempos: capoeira é esporte. A decisão foi tomada pelo Conselho Nacional do Esporte (CNE), órgão consultivo do Ministério do Esporte. Como havia o entendimento de que capoeira é uma dança, a modalidade não podia ser beneficiadas por programas do Ministério do Esporte, como o Bolsa Atleta.

A capoeira é esporte, tem competições, são atividades importantes para o condicionamento físico. Crianças, adultos e idosos praticam a mesma para diminuir a obesidade e, principalmente, são atividades que têm federações e confederação. Já tinha aprovação do Conselho, mas ainda não havia a publicação do Ministério do Esporte de uma resolução a esse respeito”, comemorou Jorge Steinhilber, presidente do Conselho Federal de Educação Física (CFEF).
A decisão que beneficia a capoeira também afeta outras artes marciais. A partir do momento que o Ministério do Esporte publicar resolução admitindo-as como modalidades esportivas, a pasta pode repassar recursos para confederações e atletas desses esportes. Atualmente, a capoeira não é incluída no Bolsa Atleta.

Matéria publicada no site R7

Fonte: Portal da Educação Física

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 6/6

Uma das ilustrações de K.Lixto publicadas em 1906 na luxuosa
revista Kosmos: perseguida nas ruas, a capoeira era
apresentada de forma romântica para a classe dominante

A capoeira e a elite

Com o fim da escravidão, a capoeira já havia se disseminado por diversas camadas sociais na capital, alcançando não só brancos brasileiros – entre pobres e ricos – como também europeus que viviam na cidade. O poeta português Plácido de Abreu, citado pelo escritor carioca Henrique Coelho Neto como um dos mais valentes capoeiras de sua época, morreu na Revolta da Armada, mas deixou o testemunho de suas experiências entre as maltas cariocas registrado em um livro pioneiro, chamado Os capoeiras, lançado em 1886.

Muitos frequentavam e conheciam o “submundo” da capoeira: intelectuais, profissionais liberais e “até figuras prestigiosas no plano político, como o barão do Rio Branco, quando jovem, e Floriano Peixoto, entre outros, foram apontados como praticantes da arte da capoeiragem”, escreveu o historiador Luiz Sergio Dias no seu livro Quem tem medo da capoeira?. No entanto, nem mesmo os que pertenciam à elite escaparam da fúria perseguidora de Sampaio Ferraz.

O caso da prisão de Juca Reis, em 1890, foi o maior exemplo desse empenho e causou uma grave crise política. Irmão do conde de Matosinhos, Juca era um capoeira conhecido por suas desordens e estava em Portugal quando as perseguições começaram. Quintino Bocaiuva, ministro das Relações Exteriores, era amigo do conde e assegurou a volta de Juca Reis. Ainda assim, ele foi preso e desterrado, apesar dos protestos e do pedido de demissão de Quintino Bocaiuva, o qual não foi aceito pelo presidente. Já o conde, indignado, encerrou suas transações comerciais no Brasil e retornou a Portugal.

O mais irônico do caso é que o próprio Sampaio Ferraz conhecia os golpes de capoeira, tanto que uma vez, ao ensaiar uma disputa com seu amigo, o poeta Luís Murat, levou uma rasteira e bateu com a cabeça na mesa de mármore do Café Inglês, no centro do Rio.

Não deixa de ser curioso que a “redenção” da capoeira tenha sido apresentada à sociedade pela elite. Em 1906, em plena belle époque carioca, a luxuosa revista Kosmos dedicou algumas páginas da sua terceira edição à capoeira, com textos escritos por Lima Campos, explorando uma visão romântica do jogo, e desenhos de Klisto, desenhista que também era capoeira, cujos traços mostram golpes e gírias utilizados na época de forma bem próxima da realidade das ruas.

Não tardou para que, entre intelectuais e integrantes nacionalistas da elite, surgisse a defesa da capoeira como esporte nacional, que deveria ser ensinado das escolas aos quartéis. O principal articulador dessa ideia foi Coelho Neto, que publicou na revista Bazar, em 1928, um artigo defendendo “o nosso jogo”. Não por acaso, a partir desse período e durante os anos 1930, a capoeira começou a ser ensinada nas chamadas academias, deixando aos poucos as ruas. As maltas do Rio de Janeiro ficaram definitivamente para trás, mas se mantêm como um importante acontecimento para entender a história da capoeira e do Brasil.

Maurício Barros de Castro é jornalista, pesquisador e doutor em história social pela Universidade de São Paulo. É autor dos livros Zicartola – Política e samba na casa de Cartola e Dona Zica (Rio Arte/Relume Dumará, 2004) e Mestre João Grande – Na roda do mundo (Biblioteca Nacional/Garamond, 2010).

Fonte: História Viva

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 5/6

Mesmo depois de banido do Rio de Janeiro, o jogo continuou
bastante popular em outros centros urbanos do país. Na Bahia
da década de 1930, Samuel Querido de Deus (agachado na
foto) se tornou uma lenda nas rodas de Salvador
Estigmatizados como criminosos – já que sua prática se tornou ilegal em 1890 – e perseguidos como indivíduos perigosos, os capoeiras que permaneceram escondidos no Rio de Janeiro saíram, estrategicamente, de cena. Os que voltaram do desterro continuaram na clandestinidade. Poucas décadas depois, entre os anos 1910 e 1920, surgia o “bamba”. De acordo com o pesquisador e sambista Nei Lopes, é um termo que “vem do quimbundo mbamba, que significa exatamente mestre”.

O bamba tinha o domínio do corpo e do ritmo, por isso era um personagem típico do mundo negro, presente nas festas religiosas como ogã, tocando tambores para os orixás, o que o levou a desempenhar também papel fundamental na criação do samba de morro, na organização das escolas e dos blocos carnavalescos. Assim como os capoeiras do século XIX, que serviram de “baliza” para as bandas militares, eram os bambas que vinham à frente dos blocos, dançando ao redor do estandarte do grupo e ao mesmo tempo protegendo-o caso se encontrassem com blocos rivais, embalados pela música, gingando e dançando como se faz na capoeira, divertindo-se no carnaval, preparados para repelir qualquer ataque. Esse ritual mais tarde se tornaria uma das influências da coreografia do mestre-sala e da porta-bandeira.

Profundamente integrado à cultura popular da cidade, o bamba, que depois passaria a ser chamado simplesmente de malandro, vivia de pequenos expedientes, do jogo, do contrabando, da proteção de zonas de meretrício e casas noturnas e, mais tarde, do comércio do samba. Nesse ambiente marginal, vários malandros se tornaram famosos por façanhas que envolviam valentia e confronto com a ordem policial. O mais famoso deles foi Madame Satã.

Envolto em silêncio, o capoeira carioca deixou de se identificar como tal. Com o tempo, ele passou a se apresentar rebatizado como malandro ou bamba. Como afirmou o escritor e historiador Joel Rufino: “Caçada pela repressão a capoeira não acabou; o que nela havia de permanente, de essencial, sobreviveu na figura do bamba”. O capoeira só voltaria à cena novamente no Rio de Janeiro décadas mais tarde, assimilando a malandragem como uma de suas habilidades principais.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 4/6

Praticante do jogo a caminho de uma das sangrentas
sessões de chibata que a polícia preparava para punir os
cativos e libertos rebeldes
Um dos motivos para que as gangues se mantivessem mesmo com forte repressão policial era a cobertura que recebiam dos partidos políticos da época. Os Guaiamuns e Nagoas apoiavam, respectivamente, liberais e conservadores. O voto, na época, não era secreto, por isso muitos eleitores eram obrigados pelos capoeiras a votar nos candidatos dos partidos que apoiavam cada malta. Eles também eram responsáveis por criar arruaças nas eleições, que muitas vezes acabavam em confusões e brigas.

A proteção política dos poderosos e a atuação como capangas dos partidos tiraram dos capoeiras o brilho da resistência escrava. Além disso, eles passaram a servir de massa de manobra para interesses ideológicos. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, eles chegaram a organizar uma milícia, chamada de Guarda Negra, que perseguia os abolicionistas, como prova da lealdade da capoeiragem à princesa Isabel e ao regime monárquico.

O golpe fatal nas gangues do Rio de Janeiro veio justamente com a Proclamação da República, em 1889. No ano seguinte, a capoeira foi inserida no Código Penal Brasileiro, por meio do decreto de 11 de outubro de 1890, cujo artigo 402 qualificou como crime “fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem”.

O responsável pela façanha que culminou com o fim das maltas no Rio de Janeiro foi Sampaio Ferraz, chefe de polícia que comandou a campanha que desterrou os capoeiras para Fernando de Noronha, durante o governo de Deodoro da Fonseca. Dessa maneira, Ferraz entrou para a história como o algoz que decretou a morte da capoeira na cidade.
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