sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sorocaba: o historiador, Carlos Carvalho Cavalheiro, lança o livro “Notas para a História da Capoeira em Sorocaba”

Carlos Carvalho Cavalheiro: ‘Notas para a História da Capoeira em Sorocaba’
O livro foi contemplado pelo Edital PROAC (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

O livro “Notas para a História da Capoeira em Sorocaba (1850 – 1930)”, de autoria do escritor e historiador Carlos Carvalho Cavalheiro foi lançado no dia 10 de junho (sábado), às 15h, na Biblioteca Infantil de Sorocaba.

Resultado de quase 20 anos de pesquisa, a obra trata do desenvolvimento da luta capoeira numa cidade do interior de São Paulo. O ineditismo da pesquisa serviu de base para outros pesquisadores, como Pedro Cunha que publicou sua dissertação de Mestrado, “Capoeiras e valentões”, no ano de 2015.

Esse mesmo pesquisador escreveu o prefácio para Cavalheiro, evidenciando que seu livro “consolida um trabalho pioneiro”, iniciado em fins da década de 1990, e que seus estudos “vem inspirando diversos outros pesquisadores como eu a romperem o silêncio da historiografia da capoeira”.

Já o apresentador do livro, o escritor e pesquisador André Luiz Lacé Lopes, deixa em evidência que “Mais do que consagrar de vez um espaço para Sorocaba no Mundo da Capoeira, Cavalheiro, talvez até de modo inconsciente, faz com que o seu livro, em princípio concentrado no período de 1850/1930, ajude a entender ainda mais o Brasil de todas as épocas, inclusive o Brasil de hoje”.

Leia o restante no link abaixo...

Fonte: Portal Capoeira

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Carta para um Jovem Negro e Capoeirista Assassinado na Amadora

Lenine Sanches nasceu em Cabo Verde e veio para Portugal aos nove anos de idade. Tal como muitos jovens oriundos de famílias africanas, a sua vida não era fácil, marcada por intempéries e dificuldades. Foi por volta de 2010 que o conheci num projeto social na freguesia de Caneças, no concelho de Odivelas, onde ele atuava como dinamizador junto ao projeto Távola Redonda, em conjunto com outros jovens de origem africana. O projeto social Távola Redonda foi criado em parceria com instituições locais para desenvolver atividades lúdicas e culturais junto aos jovens do bairro. Lenine fazia parte de um grupo de jovens que já praticava capoeira, mas que na altura não possuía professor. As aulas aconteciam na Casa da Cultura de Caneças e no dia em que o vi pela primeira vez, ele estava na aula que, por falta de professor, era dada por um dos jovens que tinha um pouco mais de experiência. Aceitámos conduzir as classes de capoeira em regime voluntário, realizando uma parceria entre o projeto Távola e a nossa Associação Ginga Brasil capoeira.

Na nossa associação, Lenine atuava junto a um vasto grupo de amigos de origem africana com quem tinha fortes laços de amizade, privava e dividia o dia-a-dia de um entusiasta da capoeira. Para muitos deles, a capoeira era a felicidade das suas vidas, uma saída para a diversão, o lazer de que eram privados como pobres e negros e, porque não dizer mesmo, uma saída profissional. Nos trabalhos da associação alguns já atuavam em breves atividades remuneradas, remuneração que, sendo pouca, poderia significar ter o que comer num dia difícil.

Em 2010 a associação Ginga Brasil organizou o 1.º Encontro Gingando pela Cidadania que constava de um intercâmbio de jovens entre dois países, Portugal e Estónia. Foi possível aos jovens estonianos e africanos participarem numa série de atividades em Portugal e na Estónia que envolviam a música, a dança, a construção de instrumentos e a prática da capoeira. Em 2011 a Associação Lusofonia, Cultura e Cidadania lançou, em parceria com a Associação Ginga Brasil e o projeto Távola Redonda, o projeto Diferentes Origens, Uma Cidadania, no âmbito do programa Juventude em Ação. Lenine, bem como os seus companheiros, eram ativos participantes e envolvidos em todas as atividades e projetos da associação.

Lenine Sanches, “o Laranjinha”, como era carinhosamente chamado por todos, era um dos nossos, do “gangue” da capoeira. Era alegre, divertido, prestativo e cheio de vida. Era pai de uma criança de tenra idade, fruto de uma relação que mantinha com uma jovem do bairro e com quem tinha grande proximidade, como pai, companheiro e provedor das parcas condições financeiras que ajudavam a sustentar a criança.

Na entrevista que conduzi junto ao seu grupo de amigos, todos afirmaram ter tido problemas com as forças policiais e sentiam-se, por vezes, inconformados com as relações sociais desiguais das quais eram vítimas pela sua condição racial e social. No seu depoimento sobre o racismo e a intolerância, “o Laranjinha” utilizou as seguintes palavras para definir o que sentia sobre o assunto:

“Quando nos discriminam, sentimo-nos em baixo, mas temos de mostrar que não somos inferiores a eles. Mas às vezes, ao mostrar que somos iguais, há negros que partem para a violência. Acho errado, por vezes acontecem coisas que não deviam acontecer.”

Ao reler o seu depoimento, dei comigo a pensar que ele não faria ideia de que seria vítima da intolerância que concebia como incorreta.

Há algum tempo, ele tinha sido condenado a trabalhos comunitários por ter sido apanhado sem passe nos transportes públicos de Lisboa. Ficou designado pelo juiz que trabalharia num campo de futebol junto à escola em que foi assassinado e era isso que estava a fazer, quando foi confrontado com a disputa litigiosa entre grupos de indivíduos com quem nada tinha a ver. Não é possível afirmar que a tal contenda era um acerto de contas de gangues, como publicitou a imprensa. O julgamento é precipitado e incorreto até, uma vez que faltam informações que atestem o facto. Consta que Lenine, que estava a trabalhar no momento, sentindo o perigo que o rodeava, correu em direção à escola. Como era negro, tal como os demais, acabou por ser confundido e esfaqueado pelos seus próprios pares de cor.

No dia de sua morte, ao terminar o trabalho comunitário que lhe foi atribuído, ele dormiria na casa de um dos diretores da nossa associação para que, no dia seguinte, tomasse parte numa ação educativa junto a crianças. “O Laranjinha” tinha um dom especial no trato com os alunos e crianças, uma alegria inata, natural e honesta, razão pela qual era sempre chamado a cooperar na lida educativa do quotidiano da Associação Ginga Brasil.

O que me entristece, como capoeirista e imigrante, é saber como a sua condição de negro e imigrante o inseria, à partida, num grupo de alto risco – seja pelos seus algozes, também negros, que lhe retiraram a vida, seja pela polícia ou pela imprensa que o classificou, sem o menor escrúpulo, como membro de um gangue. Para mim, ele é tão vítima quanto os que o mataram, todos em busca de um espaço na urbe lisboeta que os rejeita, como seres humanos e cidadãos negros. Para a imprensa portuguesa, bem como para a maioria dos que viram os telejornais, ele era mais um tipo de cor, revoltado e marginal que talvez até fizesse por merecer o triste fim.

Entretanto, acalenta-me saber e dizer que ele era um de nós, capoeirista, e isso fez grande diferença na sua vida, na sua existência, na sua educação e na sua consciência como negro. Para quem não conhece a capoeira como prática social, cultural e desportiva, isso fará pouco sentido, mas para nós é o que anima as nossas almas, o nosso viver em sociedade.

Dentro de uma semana o nosso “Laranjinha” receberia uma nova graduação, dada no âmbito de um evento anual realizado pela nossa associação. Faremos esse ritual simbólico, para o lembrar e para recordar que a capoeira é também a luta em favor do oprimido. Ele estará nos nossos corações e memórias sempre que o berimbau tocar numa roda de capoeira na velha Lisboa.

Autor: RICARDO NASCIMENTO – Capoeirista e antropólogo

Fonte: Público - Comunicação Social S/A

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O golpe, a ingratidão e o descaso

O golpe, a ingratidão e o descaso…

Em 1971 aos oitenta e dois anos de idade, Pastinha já quase cego por causa de uma catarata, é obrigado pela prefeitura a se retirar do casarão, que entraria em reformas, com a promessa de que assim que estivesse pronto poderia voltar. E voltou?

Mestre Pastinha teve então que se mudar. Foi morar na Rua Alfredo Brito n° 14 no Pelourinho, em um quarto escuro, úmido e sem janelas. Único lugar que dava para pagar com o mísero salário que recebia da prefeitura, já que não podia contar mais com o dinheiro das aulas. Ainda na mudança, foram perdidos muitos móveis, quadros que o mestre pintava e fotografias, que juntos hoje, constituiriam um grande acervo cultural da nossa história.

Para piorar o prédio foi doado para o Patrimônio Histórico da Fundação do Pelourinho que posteriormente o vendeu para o SENAC que transformou o prédio em um restaurante.

Este foi um dos maiores absurdos praticados contra a nossa cultura. Mestre Pastinha foi usado, enganado e abandonado.

Tristeza

Após a mudança e a perda de sua academia, Pastinha entra em uma profunda depressão e em 1979 com 90 anos é vítima de um derrame cerebral, que o levou a ficar internado por um ano em um hospital público. Após esse período foi enviado para o abrigo para idosos Dom Pedro II, onde permaneceu até a sua morte. Mestre Pastinha morreu cego, quase paralítico e abandonado.

No dia 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, o Brasil perdia um dos seus maiores mestres. Não só o mestre da capoeira angola, mas o mestre da filosofia popular. O menino fraco e magrinho que conquistou o respeito e admiração do mais forte.

A estrela ainda brilha

Mestre Pastinha foi um dos maiores ícones da cultura do Brasil. Dedicou sua vida inteira em favor da nossa cultura, ajudou a tirar a capoeira da ilegalidade e a colocá-la no seu devido lugar como prática esportiva e cultural, preservou e divulgou a nossa arte até fora do país, ensinou jovens e adultos a enxergar a vida de uma forma simples, mas nobre. Mestre Pastinha foi uma estrela que veio para a terra em forma de homem, para nos ensinar a filosofia da simplicidade, mas teve que voltar ao céu, pois o seu brilho já não cabia mais aqui em um lugar tão pequeno. Um homem que transformou e formou crianças em grandes adultos e fez os mais velhos brincarem como crianças, literalmente de pernas pro ar.

Luciano Milani

Fonte: Portal Capoeira
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