sexta-feira, 18 de março de 2016

Capoeira Psicomotora – Parte II

A primeira parte deste texto comparou a semelhança das principais linhas de trabalho da Psicomotricidade com a Capoeira, no entanto, faltou abordar a relação dos principais componentes do desenvolvimento psicomotor com a prática desta arte-luta.
A criança que inicia na Capoeira tem o seu repertório motor aumentado automaticamente, pois ela aprende a utilizar o seu corpo de formas diferentes da vida cotidiana, ao mesmo tempo ela consegue se identificar com esta nova maneira de se movimentar e isso ocorre devido à liberdade e a ludicidade que a capoeira desperta em cada criança. Os movimentos que, muitas vezes, são reprimidos no ambiente doméstico ou escolar são permitidos na capoeira, sendo assim, levantar as pernas bem alto, rolar, virar de cabeça para baixo, usar as mãos no chão, cantar ou batucar, são ações que toda criança quer e sabe, cada uma a seu modo, realizar, mas não tem coragem, liberdade ou oportunidade de fazer.
Literalmente, o que toda criança quer é ser criança e a única forma de fazer isso é estimulando o seu desenvolvimento psicomotor e a melhor ferramenta que se tem é a brincadeira espontânea, mas nos dias atuais esta ferramenta tem sido pouco utilizada, por inúmeros fatores, por isso, algumas crianças tem maior ou menor facilidade para se movimentar e se expressar. Como a capoeira está repleta de aspectos simbólicos (lúdicos) e favorece a comunicação corporal ela se torna uma prática aliada da Psicomotricidade porque estimula os componentes do desenvolvimento psicomotor que são: coordenação motora global, coordenação motora fina, lateralidade, noção espaço- temporal, esquema corporal, imagem corporal.
A tão falada coordenação motora global, também conhecida como ampla ou geral, agrega os demais componentes do desenvolvimento psicomotor a partir do recrutamento dos grandes grupos musculares, ou seja, através de uma grande organização corporal é possível construir esta coordenação utilizando exercícios combinados e dissociados, danças e atividades de expressão corporal. A Capoeira possibilita tudo isso. Se na simples imitação do jogo de Capoeira, a criança estimula a construção da sua coordenação motora global pode-se imaginar os seus benefícios sobre este componente se a prática for organizada e devidamente orientada;
A coordenação motora fina também é amplamente estimulada pela prática da Capoeira, em especial pelo manuseio com os instrumentos musicais e dentre eles o berimbau torna-se o maior responsável pelo desenvolvimento desta coordenação devido à maneira de segurar, em forma de pinça, a baqueta (vareta) e a pedra (ou dobrão) em cada uma das mãos simultaneamente e vale lembrar que a escrita da criança dependerá dos estímulos de coordenação motora fina que ela recebe;
Através do manuseio dos instrumentos observa-se que a lateralidade, também, é estimulada, além da execução de todos os fundamentos para ambos os lados, que é uma prática comum nas aulas de Capoeira.
Se as noções de direita e esquerda causam dúvidas em muitos adultos podemos imaginar como as crianças ficam confusas quando, ainda, não possuem uma dominância lateral estruturada, por isso a praxia simultânea em ambas as mãos ou pernas permite à criança organizar sua atividade motora experimentando ora direita, ora esquerda sem imposição da destralidade;
A noção espacial refere-se ao espaço ocupado pelo corpo, pela sua localização e dominância e a roda de Capoeira proporciona experiências como entrar e sair, interagir, interferir e dividir este espaço com outros corpos. A criança aprende sobre a forma da roda e a localização de cada componente como a organização da bateria, o pé do berimbau (ou da cruz), o lugar de cada colega nesta roda e a direção em que os movimentos devem ser projetados. Todos estes aspectos estimulam, naturalmente, a organização espacial do jovem capoeira. A noção de espaço está intimamente ligada à noção de tempo partindo da ideia de que o corpo movimenta-se num espaço (roda) por determinado tempo (jogo).
A noção de tempo, assim como a noção de espaço, se constrói mentalmente, de forma abstrata por isso é tão difícil para a criança entender a ordem dos acontecimentos e como a estruturação do tempo está associada à noção de sucessão, portanto, intimamente ligada ao ritmo que é composto pelas noções de ordem, sucessão e duração.
E em que outra modalidade, além da capoeira, estas noções poderiam ser tão estimuladas simultânemente?
A começar pelas palmas, a criança aprende a bater palmas em, pelo menos, três cadências diferentes, dependendo do estilo musical de cada grupo, além disso, não só o jogo, mas toda a aula de Capoeira é realizada ao som da sua música característica que pode ser lenta ou rápida. A criança aprende que para estabelecer o diálogo corporal da Capoeira ela precisa perguntar com um movimento (ataque) e aguardar a resposta do colega que será outro movimento (esquiva) e o processo pelo qual esta conversa se estabelece é totalmente psicomotor e espaço-temporal.
Quanto à contribuição da Capoeira para com o esquema corporal pode-se dizer que o aumento no repertório motor da criança faz com que ela tome consciência da funcionalidade das partes do seu corpo, já que a construção do esquema corporal não pode ser ensinada, pois ela ocorre através das experiências corporais que a criança tem.
Mas com relação à imagem corporal, que é a imagem mental que a criança possui de si, a Capoeira influencia, principalmente, no aspecto social. Todo iniciado deseja vestir-se como o restante do grupo, ter um cordão como os alunos mais adiantados ou deseja movimentar-se como o seu professor (mestre), desta forma a criança constrói imagens para fazer parte de algo, para ser aceita. A imagem corporal se estrutura a partir das vivências afetivas da criança a partir do seu corpo em movimento ou não.
E sem entrar em maiores detalhes, como não dizer que a capoeira é psicomotora?

Fonte: Portal da Educação Física

sexta-feira, 11 de março de 2016

Capoeira Psicomotora – Parte I

A Capoeira é um dos maiores tesouros que o Brasil possui no seu aspecto cultural, toda a história da afro-descendência deste povo pode ser contada por esta arte, através dos seus rituais, da sua musicalidade e dos seus movimentos. Por isso a Capoeira é uma ferramenta tão importante no contexto educacional.
No que diz respeito à Educação Infantil, séries iniciais e Educação Especial a Capoeira como prática corporal se torna um forte agente de estimulação psicomotora porque a Capoeira é psicomotora e esta afirmativa é válida devido aos aspectos que a capoeira tem em comum com a Psicomotricidade.
Durante a infância a criança necessita vivenciar o seu corpo das mais variadas forma e ela já o faz naturalmente, se assim o meio em que vive permitir. A criança em seu comportamento motor característico costuma saltar, rolar, andar sobre quatro, três, dois e um apoio, a criança se alonga de formas variadas, inventa cantigas que remontam o seu cotidiano, adoram instrumentos de percussão devido à simplicidade que existe em criar um som com as suas próprias mãos como bater palmas, sacudir um chocalho, bater num balde, num pandeiro ou atabaque, para a criança é algo fácil, natural e instintivo.
Os principais componentes do desenvolvimento psicomotor são, naturalmente, estimulados pela Capoeira porque ela permite liberdade e criatividade corporal.
Podemos correlacionar tais componentes e linhas psicomotoras com os fundamentos da Capoeira como, por exemplo, no que diz respeito à relação adulto/criança e quanto à proposta que cada ferramenta oferece.
Em Terapia Psicomotora a relação do psicomotricista com a criança se faz por meio de ajuda, escuta, interação e disponibilidade corporal e o mesmo tipo de relação pode e deve ser estabelecida entre o instrutor de capoeira e as crianças que estão sob seus cuidados, porque para que a aprendizagem da capoeira seja efetiva em crianças pequenas é necessário que o professor crie uma relação de confiança com os pequenos ouvindo suas histórias, auxiliando nos movimentos mais difíceis ou que dão medo de realizar, além de permitir que o seu corpo seja o alvo dos golpes (martelos, bênçãos e cabeçadas) desajeitados dos pequenos. E na proposta de trabalho da Terapia Psicomotora são utilizados objetos e o corpo do psicomotricista como depósito das emoções da criança e com a Capoeira não é diferente, os instrumentos musicais, a própria musicalidade e objetos como o cavalete ou raquetes de outras artes marciais que podem ser usadas na capoeira para treinar, especialmente os chutes, canalizando, assim, a agressividade contida. Quanto ao corpo, muitas vezes a criança sente uma enorme necessidade de vencer o adulto que o instrutor de capoeira pode representar para ela naquele momento de sua vida, de repente ele deixa de ser o Tio da Capoeira para ser, simbolicamente, qualquer outro adulto da vida desta criança que lhe reprime como parentes ou outros professores.
Também podemos encontrar na Educação Psicomotora Funcional características comuns à prática de uma aula de capoeira. Nesta linha psicomotora a relação adulto/criança é menos íntima, pois o adulto funciona como um líder, um modelo para criança demonstrando os exercícios a serem realizados por ela, isso ocorre devido à herança que a Psicomotricidade carrega da Educação Física tradicional e em extinção, enfim, numa aula de capoeira para crianças do Ensino Fundamental, geralmente é assim que os fundamentos são passados, o professor demonstra e o aluno imita seus movimentos para depois serem feitos na tradicional roda. Na proposta da Psicomotricidade Funcional, o psicomotricista utiliza as famílias de exercícios conhecidos da citada Educação Física tradicional como saltar, rolar, arrastar, correr, escalar, pendurar, carregar, lançar e pegar em comparação com a Capoeira, nas aulas, alguns professores se utilizam destes padrões motores para complementar o treino, no entanto como humilde conhecedora desta arte-luta acredito que todos os seus movimentos mais tradicionais como a ginga, a negativa, cocórinha, queda de quatro, meia lua de compasso são originários das famílias e exercícios, o povo que criou a Capoeira primitiva baseou tais movimentos na sua herança motora e atividades do seu cotidiano nas plantações de café e cana, então saltar, agachar, rolar, escalar foram adaptados pelo instinto e defesa e sobrevivência de um povo oprimido, mas são movimentos que já estavam registrados na nossa filogenia.
E por fim temo a Educação Psicomotora Relacional, nesta linha a relação do psicomotricista com a criança é semelhante a da Terapia Psicomotora onde além de ajuda, escuta e interação há também estímulo e intervenção e na prática da capoeira, assim como em qualquer outra atividade corporal a criança necessita de um mediador que a estimule nos movimentos mais difíceis e que intervenha quando algo sair do controle, geralmente o “mestre de capoeira” tem esse perfil paternalista do tipo severo e afetivo ao mesmo tempo e quanto as característica da proposta de trabalho da Psicomotricidade Relacional podemos utilizar o jogo de capoeira propriamente dito para fazer a correlação, pois na PR encontramos o ritual de entrada e de saída, que apesar de ser verbalizado, é uma espécie de acordo sobre o que poderá acontecer na sessão e sobre o que aconteceu na sessão, enquanto que na capoeira o ritual de entrada e saída é não verbal, mas entendemos como um acordo de que nada ruim aconteça durante o jogo. Encontramos, também, a musicalidade que dá ritmo a brincadeira (jogo livre). A atividade livre e de expressão é a brincadeira em si, que na Psicomotricidade Relacional se faz através do diálogo corporal (comunicação não verbal) com alguns materiais clássicos da Educação Física como arcos, bolas, cordas, além do outro, na verdade estes materiais servem como mediadores para que uma relação simbólica seja estabelecida entre as crianças e apesar de não utilizarmos esses materiais no jogo da capoeira, utilizamos o diálogo corporal com o outro e essa é uma característica que difere a capoeira de outras artes-lutas, a capoeira é jogada com o outro e não contra outro. Ocorre um jogo simbólico, um faz de conta de ataque e defesa, de gracejo e expressão de sentimentos sem nada dizer, é um brinquedo, como se dizia antigamente, um brinquedo de Angola, pois acredita-se que foram os escravos de origem angolana que a descobriram, enfim na Capoeira não temos a habilidade de decodificação dos comportamentos e sentimentos apresentados pelas crianças durante a sua prática e isso o Psicomotricista Relacional sabe fazer e poderia fazer ao analisar um jogo de capoeira, mas que cada um utilize os recursos que tem para facilitar o processo e desenvolvimento psicomotor de nossas crianças.

Fonte: Portal da Educação Física

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Conselho Nacional do Esporte decide que Capoeira é Esporte

Chegou ao fim uma discussão que perdurava há tempos: capoeira é esporte. A decisão foi tomada pelo Conselho Nacional do Esporte (CNE), órgão consultivo do Ministério do Esporte. Como havia o entendimento de que capoeira é uma dança, a modalidade não podia ser beneficiadas por programas do Ministério do Esporte, como o Bolsa Atleta.

A capoeira é esporte, tem competições, são atividades importantes para o condicionamento físico. Crianças, adultos e idosos praticam a mesma para diminuir a obesidade e, principalmente, são atividades que têm federações e confederação. Já tinha aprovação do Conselho, mas ainda não havia a publicação do Ministério do Esporte de uma resolução a esse respeito”, comemorou Jorge Steinhilber, presidente do Conselho Federal de Educação Física (CFEF).
A decisão que beneficia a capoeira também afeta outras artes marciais. A partir do momento que o Ministério do Esporte publicar resolução admitindo-as como modalidades esportivas, a pasta pode repassar recursos para confederações e atletas desses esportes. Atualmente, a capoeira não é incluída no Bolsa Atleta.

Matéria publicada no site R7

Fonte: Portal da Educação Física

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 6/6

Uma das ilustrações de K.Lixto publicadas em 1906 na luxuosa
revista Kosmos: perseguida nas ruas, a capoeira era
apresentada de forma romântica para a classe dominante

A capoeira e a elite


Com o fim da escravidão, a capoeira já havia se disseminado por diversas camadas sociais na capital, alcançando não só brancos brasileiros – entre pobres e ricos – como também europeus que viviam na cidade. O poeta português Plácido de Abreu, citado pelo escritor carioca Henrique Coelho Neto como um dos mais valentes capoeiras de sua época, morreu na Revolta da Armada, mas deixou o testemunho de suas experiências entre as maltas cariocas registrado em um livro pioneiro, chamado Os capoeiras, lançado em 1886.

Muitos frequentavam e conheciam o “submundo” da capoeira: intelectuais, profissionais liberais e “até figuras prestigiosas no plano político, como o barão do Rio Branco, quando jovem, e Floriano Peixoto, entre outros, foram apontados como praticantes da arte da capoeiragem”, escreveu o historiador Luiz Sergio Dias no seu livro Quem tem medo da capoeira?. No entanto, nem mesmo os que pertenciam à elite escaparam da fúria perseguidora de Sampaio Ferraz.

O caso da prisão de Juca Reis, em 1890, foi o maior exemplo desse empenho e causou uma grave crise política. Irmão do conde de Matosinhos, Juca era um capoeira conhecido por suas desordens e estava em Portugal quando as perseguições começaram. Quintino Bocaiuva, ministro das Relações Exteriores, era amigo do conde e assegurou a volta de Juca Reis. Ainda assim, ele foi preso e desterrado, apesar dos protestos e do pedido de demissão de Quintino Bocaiuva, o qual não foi aceito pelo presidente. Já o conde, indignado, encerrou suas transações comerciais no Brasil e retornou a Portugal.

O mais irônico do caso é que o próprio Sampaio Ferraz conhecia os golpes de capoeira, tanto que uma vez, ao ensaiar uma disputa com seu amigo, o poeta Luís Murat, levou uma rasteira e bateu com a cabeça na mesa de mármore do Café Inglês, no centro do Rio.

Não deixa de ser curioso que a “redenção” da capoeira tenha sido apresentada à sociedade pela elite. Em 1906, em plena belle époque carioca, a luxuosa revista Kosmos dedicou algumas páginas da sua terceira edição à capoeira, com textos escritos por Lima Campos, explorando uma visão romântica do jogo, e desenhos de Klisto, desenhista que também era capoeira, cujos traços mostram golpes e gírias utilizados na época de forma bem próxima da realidade das ruas.

Não tardou para que, entre intelectuais e integrantes nacionalistas da elite, surgisse a defesa da capoeira como esporte nacional, que deveria ser ensinado das escolas aos quartéis. O principal articulador dessa ideia foi Coelho Neto, que publicou na revista Bazar, em 1928, um artigo defendendo “o nosso jogo”. Não por acaso, a partir desse período e durante os anos 1930, a capoeira começou a ser ensinada nas chamadas academias, deixando aos poucos as ruas. As maltas do Rio de Janeiro ficaram definitivamente para trás, mas se mantêm como um importante acontecimento para entender a história da capoeira e do Brasil.

Maurício Barros de Castro é jornalista, pesquisador e doutor em história social pela Universidade de São Paulo. É autor dos livros Zicartola – Política e samba na casa de Cartola e Dona Zica (Rio Arte/Relume Dumará, 2004) e Mestre João Grande – Na roda do mundo (Biblioteca Nacional/Garamond, 2010).

Fonte: História Viva

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 5/6

Mesmo depois de banido do Rio de Janeiro, o jogo continuou
bastante popular em outros centros urbanos do país. Na Bahia
da década de 1930, Samuel Querido de Deus (agachado na
foto) se tornou uma lenda nas rodas de Salvador
Estigmatizados como criminosos – já que sua prática se tornou ilegal em 1890 – e perseguidos como indivíduos perigosos, os capoeiras que permaneceram escondidos no Rio de Janeiro saíram, estrategicamente, de cena. Os que voltaram do desterro continuaram na clandestinidade. Poucas décadas depois, entre os anos 1910 e 1920, surgia o “bamba”. De acordo com o pesquisador e sambista Nei Lopes, é um termo que “vem do quimbundo mbamba, que significa exatamente mestre”.

O bamba tinha o domínio do corpo e do ritmo, por isso era um personagem típico do mundo negro, presente nas festas religiosas como ogã, tocando tambores para os orixás, o que o levou a desempenhar também papel fundamental na criação do samba de morro, na organização das escolas e dos blocos carnavalescos. Assim como os capoeiras do século XIX, que serviram de “baliza” para as bandas militares, eram os bambas que vinham à frente dos blocos, dançando ao redor do estandarte do grupo e ao mesmo tempo protegendo-o caso se encontrassem com blocos rivais, embalados pela música, gingando e dançando como se faz na capoeira, divertindo-se no carnaval, preparados para repelir qualquer ataque. Esse ritual mais tarde se tornaria uma das influências da coreografia do mestre-sala e da porta-bandeira.

Profundamente integrado à cultura popular da cidade, o bamba, que depois passaria a ser chamado simplesmente de malandro, vivia de pequenos expedientes, do jogo, do contrabando, da proteção de zonas de meretrício e casas noturnas e, mais tarde, do comércio do samba. Nesse ambiente marginal, vários malandros se tornaram famosos por façanhas que envolviam valentia e confronto com a ordem policial. O mais famoso deles foi Madame Satã.

Envolto em silêncio, o capoeira carioca deixou de se identificar como tal. Com o tempo, ele passou a se apresentar rebatizado como malandro ou bamba. Como afirmou o escritor e historiador Joel Rufino: “Caçada pela repressão a capoeira não acabou; o que nela havia de permanente, de essencial, sobreviveu na figura do bamba”. O capoeira só voltaria à cena novamente no Rio de Janeiro décadas mais tarde, assimilando a malandragem como uma de suas habilidades principais.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 4/6

Praticante do jogo a caminho de uma das sangrentas
sessões de chibata que a polícia preparava para punir os
cativos e libertos rebeldes
Um dos motivos para que as gangues se mantivessem mesmo com forte repressão policial era a cobertura que recebiam dos partidos políticos da época. Os Guaiamuns e Nagoas apoiavam, respectivamente, liberais e conservadores. O voto, na época, não era secreto, por isso muitos eleitores eram obrigados pelos capoeiras a votar nos candidatos dos partidos que apoiavam cada malta. Eles também eram responsáveis por criar arruaças nas eleições, que muitas vezes acabavam em confusões e brigas.

A proteção política dos poderosos e a atuação como capangas dos partidos tiraram dos capoeiras o brilho da resistência escrava. Além disso, eles passaram a servir de massa de manobra para interesses ideológicos. Após a assinatura da Lei Áurea, em 1888, eles chegaram a organizar uma milícia, chamada de Guarda Negra, que perseguia os abolicionistas, como prova da lealdade da capoeiragem à princesa Isabel e ao regime monárquico.

O golpe fatal nas gangues do Rio de Janeiro veio justamente com a Proclamação da República, em 1889. No ano seguinte, a capoeira foi inserida no Código Penal Brasileiro, por meio do decreto de 11 de outubro de 1890, cujo artigo 402 qualificou como crime “fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem”.

O responsável pela façanha que culminou com o fim das maltas no Rio de Janeiro foi Sampaio Ferraz, chefe de polícia que comandou a campanha que desterrou os capoeiras para Fernando de Noronha, durante o governo de Deodoro da Fonseca. Dessa maneira, Ferraz entrou para a história como o algoz que decretou a morte da capoeira na cidade.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 3/6

Cada malta apoiava um partido político e recebia
proteção dos respectivos parlamentares. Acima, Nagoas
carregam nos ombros o deputado conservador Duque-
Estrada Teixeira, que criticou a polícia em plena
assembleia
O território dos Guaiamuns avançava pela atual praça Quinze, compreendia os morros de São Bento e Providência e terminava no Campo de Santana, área dominada pelos Nagoas, que estendiam seus domínios pelas freguesias que cercavam a área central da cidade. Controlavam, portanto, os atuais bairros da Lapa, Catete e Glória. Dessa maneira, dominavam uma parte da capital que ainda estava em formação, onde se localizavam as chácaras, sítios, fazendas e até mesmo quilombos. As duas grandes maltas também se distinguiam pelas cores das fitas que utilizavam: os Nagoas se identificavam com a cor branca, e os Guaiamuns, com a vermelha.

Além das disputas entre as maltas, era comum os capoeiras aterrorizarem os moradores do próprio território que ocupavam. Muitas vezes, quando a população se reunia para assistir aos desfiles das bandas militares, eles vinham à frente dos músicos, gingando, dando rasteiras, exibindo navalhas e ameaçando verbal e corporalmente o público. Em outras ocasiões, dezenas deles provocavam as chamadas “correrias”, que visavam tanto assustar o povo quanto resolver disputas entre gangues rivais, e não raramente acabavam com a morte de um capoeira ou mesmo de algum passante atingido durante a batalha.

A contínua ameaça que a capoeira passou a representar para a ordem pública provocou ondas de repressão policial ao longo dos períodos colonial e monárquico. Durante a época de D. João VI, o major Manuel Nunes Vidigal ficou tão famoso pela crueldade com que tratava os capoeiras que chegou a ser citado no célebre romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

O major Vidigal foi o criador das “ceias de camarão”, como eram chamadas “as sangrentas sessões de chibata a que eram submetidos os capoeiras e vadios por ele encontrados”, de acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, no seu livro A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). Apesar da virulência de ações policiais como a do major Vidigal, os capoeiras resistiram durante todo o Império.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Gangues do Rio de Janeiro Imperial - Parte 2/6

Durante o Império, as maltas de capoeira atemorizaram a capital. Escravos renegados usavam esse misto de dança e luta para desafiar seus senhores e controlar bairros inteiros da cidade

por Maurício Barros de Castro

A praça XV de Novembro em 1904: após a expulsão dos capoeiras, a cidade foi remodelada para se enquadrar nos padrões europeus de urbanismo e civilidade

A condição ambígua do escravo no Rio de Janeiro colonial e, posteriormente, imperial possibilitou a associação dos capoeiras em maltas. A dependência da cidade em relação ao escravo fazia com que ele transitasse por vários segmentos sociais e espaços geográficos. Um lugar-chave para os encontros entre os capoeiras eram os chafarizes. Distribuídos em alguns pontos da capital, eram locais de disputa e integração dos escravos capoeiras que iam buscar água para as casas de seus senhores.

O mais antigo registro da palavra “capoeira” de que se tem notícia data de 1789 e se refere à libertação de um escravo chamado Adão, preso nas ruas do Rio de Janeiro devido à prática do jogo. Esse documento mostra que a repressão à capoeiragem acontecia antes mesmo do período joanino.

Havia muitos motivos para a capoeira ser perseguida. O primeiro deles era que inicialmente se tratava de uma prática de escravos rebeldes, soltos nas ruas, abertos às trocas culturais que levaram a capoeira a assimilar o uso da navalha, a partir de contatos com brancos das classes baixas, como os barbeiros e outros faquistas.

A navalha se tornou a arma-símbolo da capoeira, mas também eram utilizados bengalas e porretes nas lutas. Além disso, havia o repertório de golpes, como rasteiras, cabeçadas e rabos de arraia, entre outros. Ao mesmo tempo que absorveu outras práticas culturais, o capoeira passou a transmitir sua arte para representantes de outras classes sociais, chegando a atingir a elite. As maltas podiam ter poucos integrantes, algumas dezenas ou até 100 capoeiras, entre eles negros escravizados, libertos e uma minoria de brancos.

A geografia das gangues era determinada pelas freguesias, mas, apesar de existirem muitos grupos que pertenciam a essas localidades específicas, a cidade foi dividida em duas grandes maltas: Nagoas e Guaiamuns. A zona portuária e a área central da cidade eram controladas pelos Guaiamuns, que ocuparam os pontos de fundação do Rio de Janeiro, mais densamente povoados e onde foram erguidas as primeiras construções da capital, como o Paço Imperial, os chafarizes, as casas, quiosques e cortiços, também chamados de “cabeças de porco”.
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