sexta-feira, 10 de junho de 2016

Capoeiragem, Guarda Negra & O fuzilamento do dia 17 - Parte III

Apresentamos mais informações sobre Guarda Negra e a Capoeiragem

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 53 - de 11/dez a 17/dez de 2005

São Luis do Maranhão-MA
Novembro de 2005


"...o Brasil foi o último país a abolir a mão de obra escrava, criou e sustentou uma série de ambiguidades em seu discurso racial, como vemos em relação à chamada Guarda-Negra - um símbolo da integração negra ao contexto da luta abolicionista que, ao mesmo tempo, se torna um culto ao imperialismo e se torna uma ameaça ao debate democrático do próprio racismo..".(Reginaldo da Silveira Costa (Mestre Squisito)[1]

Os movimentos pela abolição da escravatura são iniciados a partir de alguns eventos ocorridos: a cessação do tráfico negreiro da África, em 1850; a volta vitoriosa de negros da Guerra do Paraguai, que se estendeu de 1865 a 1870, a promulgação da Lei do Ventre Livre; a criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão (tendo José do Patrocínio e Joaquim Nabuco como fundadores); a Lei Saraiva-Cotegipe (mais popularmente conhecida como a Lei dos Sexagenários).

Dois conceitos históricos são entendidos por abolição da escravatura: o conjunto de manobras sociais empreendidas entre o período de 1870 a 1888 em prol da libertação dos escravos, e a própria promulgação da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, que promove a oficialização da abolição do regime.
"As mudanças ocorridas afetavam diretamente a economia de produção neste período do Brasil. Os negros chegaram a participar da luta anti-escravista e muitos deles, perseguidos por seus atos insurrecionais ou mesmo fugindo do jugo escravista, reuniam-se em povoados como os quilombos. Após as medidas oficiais anti-escravistas determinadas pela Lei Áurea, os senhores escravistas, insatisfeitos com a nova realidade, intencionavam exigir indenizações pelos escravos libertos, não obtendo nenhum aval do Império. Desta forma, surgiram os movimentos republicanos, que foram engrossados com a participação dos mesmos senhores que eram antigos detentores da "mercadoria escrava" e que, descontentes com as atitudes do Império, acabaram por defender um novo sistema de governo, decorrendo daí um dos principais motivos da derrocada final do Império. Por outro lado, a mão de obra proveniente das novas correntes imigratórias passa a ser empregada. Os negros, por um lado libertos, não possuíam instrução educacional ou a especialização profissional que passa a ser exigida, decorrendo destes aspectos a permanência dos negros à margem da sociedade frente à falta de oportunidades a eles oferecidas. A liberdade dada aos negros anteriormente escravizados é relativa: embora não mais escravizados, nenhuma estrutura que garantisse a ascensão social ou a cidadania dos negros foi oferecida. [2]
Nesse contexto, a Guarda Negra foi formada por José do Patrocínio em 28 de setembro de 1888, como um movimento paramilitar, composto por negros, que tinha passagem pelo Exército e com habilidade em capoeira. O objetivo dele era demonstrar gratidão à família real pela abolição e intimidar republicanos e tumultuar os comícios. A ação da Guarda Negra travava batalhas com os partidários do fim da Republica, sendo classificados como terroristas. Antônio Jardim, advogado abolicionista, chega a realizar suas palestras e comícios em posse de um revolver atento a ação dos capoeiristas da Guarda Negra.[3]

Muito embora Patrocínio, em virtude da Lei Áurea, seja identificado como monarquista e formado a Guarda Negra para defender a Princesa Isabel, aderiu às ideias republicanas, conforme informa Sérgio Cavalcante, em " A Maçonaria e Proclamação da República":
"Precisavam de um lugar para essa agitação. Procuraram um vereador para ver se era possível usar a Câmara... Paradoxalmente, procuraram o monarquista negro José do Patrocínio, detestado pelos republicanos, devido a suas ligações com a Guarda Negra. Estranhamente, Patrocínio havia aderido à República naquele dia e, na condição de mais moço vereador(conforme a regra exigia), convocou uma sessão na Câmara."[4]
O jornalista Renato Pompeu, em "Confissões de um trirracial", afirma saber que:
"... a República foi proclamada porque o Império, ao proclamar a Abolição, ficou comprometido com o futuro dos negros recém-libertados, como prova o fato de que só guarnições militares compostas de negros, como a Guarda Negra da Princesa Isabel, resistiram ao golpe de Estado de 15 de novembro de 1889. O regime republicano, assim, nasceu, e continua, sem nenhum compromisso maior com as pessoas de pele mais escura."[5]
O que sabemos até agora?
  • que capoeiras foram combatidos desde a chegada da família imperial ao Brasil em 1808;
  • que capoeiras sempre foram arregimentados para "lutaram" ao lado de alguma facção política - isso, desde o Império.
  • que negros foram recrutados para lutarem na Guerra do Paraguai, muitos pela sua habilidade de luta corporal - capoeiras.
  • que ao voltarem, muitos como heróis, não tiveram seus esforços reconhecidos e continuaram como cidadãos de segunda classe, ou sem classe alguma - ainda eram a escória do reino.
  • que grupos foram formados - maltas - e que esses grupos se enfrentavam entre si, pela posse de um território na cidade; que essa rixa entre capoeiras foi aproveitada, com a contratação de uma e outra, por partidos políticos, para dar surras nos adversários e impedir realização de comícios.
  • que por ocasião da Abolição, e em gratidão à Princesa imperial, abolicionistas - José do Patrocínio - cria um corpo paramilitar, recrutando capoeiras com alguma experiência no Exército, o qual foi denominado de Guarda Negra.
  • a criação dessa Guarda Negra uniu as diversas maltas, que passaram a atacar os republicados e a defender a monarquia - a herdeira do trono brasileiro, Princesa Isabel.
  • por essas ações, cada vez mais violentas, houve perseguição aos negros, em sua maioria capoeiras, e ligados a guarda negra, provocando sua marginalização, quando do advento da República, e a consequente criminalização do ato de praticar capoeira... (Logo após a Proclamação da República (1889), a capoeira foi proibida pelo Marechal Deodoro, permanecendo nessa situação até 1937 quando Mestre Bimba a tira do código penal e a leva a esporte nacional).
Em São Luís do Maranhão, encontramos um episódio relacionado com a participação dos negros no processo de combate à República recém proclamada. Foi denominado de "o fuzilamento do dia 17", e ocorreu com uma manifestação de escravos, recém-libertos, contra Paula Duarte, o único republicano no novo governo, conforme informa Mario Meireles, e isso porque se dizia que o novo regime vinha para tornar sem efeito a Lei Áurea. Os manifestantes foram à redação de "O Globo", jornal republicano, e tentaram o empastelar. A polícia interveio, dispersando-os. Na boca do povo, e naquelas circunstâncias, teria ocorrido um massacre - os fuzilamentos do dia 17. (Meireles, Mário. História do Maranhão. 2 ed. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 1980, p. 307).

Barbosa de Godois assim relata aqueles acontecimentos:
"A" surpresa com que no Maranhão foi recebida a noticia da revolução de 15 de Novembro succedeo a adhesão de ambas as parcialidades políticas ao regime que se instituía... Feita abstração d´um grupoi de libertos pela lei de 13 de maio que, imbuídos da idéagrosseira de que a republica viera para reduzil-os novamente ao captiveiro e no dia 17 percorreram desarmados algumas ruas, hasteando a bandeira imperial e dando vivas à princesa Isabel, nenhuma outra manifestação em contrario à nova instituição surgio em toda a província."Esse grupo, porém, que viera por vezes á frente da officina do jornal "Globo", na rua 28 de Julho, canto da dos Barqueiros, vociferava ameaças contra o redactor d´esse diário, o chefe republicado Dr. Francisco de Paula Belfort Duarte,debandou ás primeiras descargas d´um pequeno contingente, postado perto do edifício da mesma officina, para pol-a á salvo de qualquer aggressão...Ainda n´essa data não estava proclamada a adhesão d aprovíncia á forma republicana, o que só se realisou no dia 18 de Novembro." (BARBOSA DE GODOIS, Antonio Baptista. Historia do Maranhão. São Luís: Mar. Typ. De Ramos d´Almeida & C., Suces., 1904, tomo II, p. 539-540.)
Note-se que a obra de Barbosa de Godois é de 1904. Os acontecimentos ainda eram recentes. E não faz nenhuma referência a uma "guarda negra" formada por libertos, para defender a monarquia ... Será que houve, mesmo, guarda negra no Maranhão? Conforme se referem Carlos Eugênio L. Soares e Flávio Gomes?

Milson Coutinho, ao descrever os acontecimentos daquele dia 17 de Novembro - Maranhão, 1889: fuzilamentos e torturas na alvorada da república - afirma que, após ler e reler inúmeros autores que se referiram aos fatos do dia 17 - Jerônimo de Viveiros e Mário Meireles - "provocaram, no autor deste estudo, um grande desejo de examinar, à luz da documentação da época, a origem desses distúrbios, sua ocorrência, amplitude e conseqüências" (p. 16). (COUTINHO, Milson. Subsídios para a História do Maranhão. São Luís: SIOGE, 1978).

Para Coutinho, as origens dos distúrbios provocados principalmente por ex-escravos, no Maranhão, com o advento da proclamação do regime republicado, tiveram origem em boatos que circularam por toda a cidade segundo o qual o regime recém-implantado iria revogar a Lei Áurea sancionada pela Princesa Isabel e os pretos teriam que voltar à condição de cativos. Esses boatos partiam dos sebastianistas, isto é, dos saudosos do monarquismo agonizante, e, mentira ou não, calaram fundo no espírito dos negros, que jamais poderiam aceitar a volta ao tronco, ao chicote do feitor, ao trabalho forçado.

Não foi possível apurar o cabeça do movimento, informa Coutinho, nem nos livros de história e nem nas pesquisas que empreendeu. Nem mesmo a polícia, naquela época, deslindou a sedição contra o jornalista Paula Duarte, talvez porque, convenientemente elucidado o fato, "esboroassem seus resultados nos costados d´algum ex-barão do Império, já devidamente engastado no novo regime." (p. 17).

O estopim, ao que parece, foi uma conferência na Câmara Municipal, que seria proferida por Paula Duarte, em que falaria sobre o novo regime doutrinando sobre matéria republicana. O povo da cidade fora convidado, através de comunicação do dr. Sá Valle.
"Grossa multidão formada em sua maioria por pardos e ex-escravos se acercou da redação do jornal de Paula Duarte, em atitude hostil, haja vista a gritaria, algazarra e berreiro próprios a esse tipo de manifestação."Pessoas gradas intervierem, pedindo aos manifestantes que dissolvessem o aparato popular, enquanto Paula Duarte, acuado no prédio de sua tipografia, dali não pode se retirar, escoando-se, consequentemente, a hora marcada para a que pronunciasse a sua conferência."O grupo, cada vê mais reforçado, e sempre no maior alarido, retirou-se de frente da redação d´O Globo, passando a percorrer as ruas de São Luís dando vivas à Monarquia." (p. 18)
Prossegue Coutinho o seu relato, informando que a turba passou em frente à casa do Desembargador Tito de Matos, ainda respondendo pelo Governo da Província: "...estancou a passeata, com a finalidade de cumprimentar o Magistrado, derradeiro lampejo da Monarquia deposta e última esperança da malta enfurecida". (p. 18-19).

Malta enfurecida? Coutinho a teria usada em que sentido? De identificar os manifestantes com as maltas de capoeira que agiam no Rio de Janeiro, dando vivas à monarquia e contra o novo regime? No-lo sabemos ...

Prosseguindo, O Desembargador pediu as massas que aguardassem a ordem, dissolvessem a passeata. Esses acontecimentos se deram pela manhã. Os espíritos serenaram e a tranquilidade pública volveu à Capital. Mas...
"...por volta das 15 horas do dia 17 os ânimos voltaram a se reacender, com novos grupos de anarquistas a percorrer as ruas e praças da capital, estocando todos os segmentos da balbúrdia em frente ao jornal de Paula Duarte, desaguadouro do contingente de alucinados que para ali convergiam, provindos de quantos becos se contassem, isto já em profusa massa humana."O Comandante do 5º. Batalhão de Infantaria destacou, para o local uma força devidamente embalada, tropa essa que se postou em frente à tipografia de Paula Duarte, a partir das 16 horas, a fim de garantir a segurança do jornalista e evitar a depredação do edifício.".(p. 19, grifos meus).
Os revoltosos debandaram, proferindo gestos coléricos e invulgar alacridade, e assim se passou o resto da tarde, sem outras consequências que não o clima de total intranquilidade reinante.
"Os relógios assinalavam pouco mais das 19 horas, quando a multidão enfurecida e com muitos de seus componentes já armados voltou à carga para tirar a prova de fogo"Iniciou-se a fuzilaria, de que resultou a morte imediata de três manifestantes, ferimentos em 11 outros, lesões em vários soldados, cabo e sargento do destacamento, vindo a morrer depois, na Santa casa, um dos sediciosos ferido por balaço da tropa." (p. 20).
Nenhuma palavra sobre uma Guarda Negra ... nem no relatório do suboficial que ordenou o fogo...

Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação

[1] In http://bahia.port5.com/terreiro/racial.html
[2] In http://www.algosobre.com.br/ler.asp?conteudo=206
[3] In http://negro.www.marconegro.blogspot.com/
[4] In http://www.salmo133.org/sal/Htm_Div/HinoProclamacaoRepublica BR_SergioCavalcante.htm
[5] In http://carosamigos.terra.com.br/outras_edicoes/edicoes_especiais/eleicoes/renato_pompeu.asp

Fonte: Jornal do Capoeira

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Capoeiragem, Guarda Negra & ISABELISMO - Parte II

Nesta crônica o autor apresenta mais algumas informações sobre a Capoeiragem e a Guarda Negra, tendo-se como enfoque desta semana o "ISABELISMO".


Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 53 - de 11/dez a 17/dez de 2005

São Luis do Maranhão-MA
Novembro de 2005

José do Patrocínio foi o mais fervoroso adepto do isabelismo, e procurou aliciar libertos para defender a monarquia ameaçada pela onda republicana que crescera após a Abolição. Não satisfeito em beijar os pés da Redentora, José do Patrocínio inicia a arregimentação de ex-escravos, capoeiras e marginais de um modo geral, para fundar a Guarda Negra. Esse ajuntamento tinha como finalidade impedir a propaganda republicana, inclusive com a tarefa de dissolver comícios pela violência.

Essa posição dos elementos aliciados por José do Patrocínio deu muito trabalho às autoridades e impediu, em muitos casos, que os adversários da monarquia se manifestassem. Os seus membros conseguiram dissolver muitos comícios republicanos através da violência.

Segundo registra a crônica da época, houve mesmo mortes em comícios republicanos pelas quais a Guarda Negra foi responsabilizada. Osvaldo Orico, biógrafo de José do Patrocínio, assim descreve a situação:
"Incompreensível por um lado, mas explicável por outro, essa famigerada Guarda Negra tivera um inspirador. Não fora outro senão José do Patrocínio. O fanatismo abrira-lhe na alma a ilusão desse recurso com que imaginava cercar de garantias o prestígio da Redentora de sua raça. Foi a gratidão que o moveu a provocar e a sugerir um movimento de solidariedade dos libertos para com a padroeira inesquecível. E, ao toque de reunir, acorreram de todo lado os antigos sentenciados do cativeiro, ansiosos de oferecer com a força material do peito aberto a flor do seu reconhecimento heróico. Os acontecimentos registrados na capital e no interior, durante a fase em que se fez sentir a influência da Guarda Negra e se apelou para a sua incontida violência, mostraram como fora infeliz a idéia de arregimentar no antigo holocausto das senzalas a força que deveria guardar o Trono. Inaugurou-se uma época de terror que deu à nação enormes prejuízos em dinheiro e em vidas. Onde quer que brilhasse a centelha da luz republicana, surgia aí o conflito das raças, desencadeado pela fúria dos libertos em louvor à rainha. E amiudaram-se os atentados e morticínios. Na rua do Passeio; em frente à Secretaria de justiça; em dias de março de 89, durante a agitação popular que a febre amarela e a falta de água provocaram, a Guarda Negra deixou indícios de sua lamentável influência." [1].
Noel Nascimento, em ARCABUZES, assim relata os acontecimentos daqueles dias:
        "Xandô espantou-se e perguntou:
        - Que guerra?
        - Tu não sabes? Essa do fim da monarquia. Não sabes que está pipocando Brasil afora? Donde vens, então? Tem motim em toda parte, no Sul, no Norte. Eu vi brigas de grupos armados. Nas ruas do Ouvidor, do Teatro, de Luís de Camões e na Travessa do Rosário a cavalaria dispersou o povo a pranchadas. Houve mais de duzentos feridos. Não sabes que quase mataram o doutor Silva Jardim à saída da Sociedade Francesa de Ginástica?
        Ao almoçarem na mesa grande do refeitório, comentavam:
        - A guarda negra persegue os que mais lutaram contra a escravidão.
        - Ainda há quem defenda a monarquia por causa da Princesa Isabel. Não viram a multidão que se formou no dia treze de maio?
        - O pobre quer o direito do eleitor, até o negro deve ter o direito de votar.
        O funcionário que falou foi interpelado pelo estudante de medicina, o qual procurou esclarecê-lo:
        - Até os negros por quê? Eles em primeiro lugar, pois construíram o Brasil. Sabes? - prosseguiu- os falsos abolicionistas é que, como alguns escritores, julgam o negro inferior. São uns racistas.
        - Muito bem falado - aplaudiu o português que acabara de consertar uma das poltronas, português abrasileirado e não da casta dos galegos.
        O mesmo pensionista indagou de Xandô:
        - Tu não sabias que na Bahia, em Ilhéus, bandidos tomaram a cidade, arrombando casas comerciais, aterrorizando a população? O império está em ruínas - concluiu convicto.".[2]
Ainda segundo Osvaldo Orico, a Guarda Negra agiu com violência contra os republicanos, nas cidades de Campos e Lage do Murié,:
"Na primeira localidade em uma reunião republicana que se processava pacificamente, massa enorme de policiais e libertos abertos armados invadiu o edifício em que se realizava um banquete democrático, alarmou as senhoras, desrespeitou com ameaças a intervenção amistosa do pároco, que suplicava das janelas do templo ordem e clemência, disparou tiros, arremessou garrafas, espancou e feriu, tudo isto para levantar entre acompanhamentos bélicos vivas e saudações à rainha.
"Na segunda, a polícia, após uma série de distúrbios, prendeu no tronco um honrado cidadão por suspeita de ideais republicanos." [3]
Natal também teve a sua Guarda Negra. Criação do Partido Conservador e instrumento de combate às idéias republicanas. Segundo os conservadores, os negros, por gratidão deveriam defender a monarquia. Em Natal, a Guarda Negra recebeu o nome de Clube da Guarda Negra. O seu presidente foi Malaquias Maciel Pinheiro. Instalada a 10 de fevereiro de 1889, com muita festa, essa organização, na apuração de Câmara Cascudo, nada fez de bom ou mal.[4]

A Guarda Negra era um movimento contraditório e confuso. Apoiava a monarquia porque os escravos conseguiram libertar-se do cativeiro através da magnanimidade da princesa Isabel. Via a Abolição como um ato de munificência social praticado pela regente, sem analisar as estratégias ocultas nessa medida e as consequências negativas que a Abolição traria, feita da forma inconclusa como o foi.

Por outro lado, deixaram de pressionar os republicanos, especialmente os mais democratas, como Silva Jardim, no sentido de radicalizar o seu programa, exigindo reformas sociais e econômicas estruturais, como a distribuição da terra aos ex-escravos. Foi, portanto, um movimento conjuntural e reacionário, e o próprio José do Patrocínio, ao ver proclamada a República, foi um dos primeiros a aderir ao novo regime. Com isto, a Guarda Negra se desarticulou completamente logo depois da proclamação da República, vindo a desaparecer sem maiores consequências.

Nesse período de transição, os negros recém-saídos da escravidão passaram a se organizar de várias formas alternativas, especialmente em grupos de lazer, culturais ou esportivos. Por outro lado, levando-se em consideração a forma como a Abolição foi feita, descartando-os da participação naquelas reformas estruturais que as mudanças do momento estavam a exigir, as reminiscências do sistema escravista e da Redentora continuaram existindo como ideologia de apoio psicológico em diversos grupos negros de ex-escravos.

Isto retardou ainda mais o processo, pois a Guarda Negra tinha uma ideologia de retrocesso, de volta ao passado e ao mesmo utópica (monarquia sem escravidão), quando devia exigir medidas de avanço social radicais.[5]

O isabelismo passa a avassalar José do Patrocínio e também milhares de africanos recém-libertos. Veem na Princesa a única e abnegada senhora que os redimira da escravidão. Arregimentados e orientados por José do Patrocínio, em várias cidades do Brasil organizam-se em Guarda Negra que dissolve, pela violência, comícios e manifestações de republicanos. Pensam mostrar assim eterna gratidão à Princesa...

O isabelismo converte a razão apaixonada de José do Patrocínio em paixão irracional... Mas nada impede (nem sequer a Guarda Negra) que em 15 de Novembro de 1889 a República seja implantada no Brasil.

Mas, e em São Luís? Dunshe de Abranches, em suas memórias sobre a escravidão e o movimento abolicionista, se refere à guarda negra, naquele episódio que resultou na queda do gabinete Cotegibe:
"Voltando logo depois ao Rio [de viagem a São Paulo e Santos], assisti à agitação revolucionária que se fez em torno do gabinete organizado pelo Barão de Cotegipe. Participei dos memoráveis comícios em que, ao lado de Patrocínio, a mocidade das escolas civis e militares resistia heroicamente às investidas da guarda negra. E, em uma dessas reuniões subversivas no Largo da Lapa, um dos quartéis generaes da capoeiragem carioca, terminada em tremendo e sangrento conflitcto, sendo talves o vigésimo orador, que alli falava do alto do chafariz...". (in DUNSHE DE ABRANCHES. O Captiveiro (memórias). Rio de Janeiro : (s.e.), 1941, p. 228-229).
Ainda nada sobre a Guarda Negra em São Luís ...

Continua na próxima edição falando sobre O FUZILAMENTO DO DIA 17.

Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação

[1] In http://www.vidaslusofonas.pt/jose_do_patrocinio.htm
[2] In www.astrovates.com.br/tese/arcabuze.htm
[3] in www.vidaslusofonas.pt/jose_do_patrocinio.htm
[4] in www.tribunadonorte.com.br/especial/histrn/hist_rn_7f.htm
[5] in www.vidaslusofonas.pt/jose_do_patrocinio.htm

Nota da Ilustração: capturada da página 75 da Revista HISTÓRIA VIVA - Novembro de 2005, cujo título apresenta-se como "CORRIDA DE CAPOEIRA - Caricatura de autor desconhecido.

Fonte: Jornal do Capoeira

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Capoeiragem e a Guarda Negra - Parte I

Nesta crônica o autor apresenta alguns fatos relacionados à Capoeiragem e à Guarda Negra (Rio de Janeiro), enquanto ele, o autor, busca indícios da presença da própria Guarda Negra em São Luis do Maranhão.
Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 52 - de 4/dez a 10/dez de 2005

São Luis do Maranhão-MA
Novembro de 2005

Com um misto de alegria e surpresa, li na edição 25, de novembro de 2005, da Revista História Viva um interessante artigo de Carlos Eugênio Líbano Soares e Flávio Gomes - p. 74-79 - sobre "O combate nas ruas pelo Ideal Abolicionista". Alegria, por contar um pouco mais da história da/dos capoeiras. Surpresa, por se referir à "Guarda Negra".

Por não ser da área, isto é, capoeira, e não se lhe conhecer a história, nunca ouvira falar da "guarda negra"; e mais, como estudioso da história do Maranhão, especialmente do esporte e da educação física, não encontrara nenhuma referência a esse assunto nos mais de 400 livros que tenho em minha biblioteca...

Procurei o Prof. Jairo Ives de Oliveira Pontes, meu colega de magistério no CEFET-MA, e organizador de uma "Nova história do Maranhão", ed. em CD-ROM, e fiz-lhe a pergunta, a queima-roupa: "Fale-me da guarda negra!". Espantado, disse nada saber; nem na História do Brasil - da qual é professor -, nem na história do Maranhão, da qual é pesquisador... Mostrei-lhe o artigo em questão. Mostrou-se, qual, surpreso. "Precisamos investigar".

No artigo a que me refiro, da chamada consta "quilombolas, jornalistas e capoeiras foram personagens fundamentais do Rio de Janeiro contrários à escravatura"; e no corpo do artigo, inicia afirmando que

"a abolição da escravidão não foi fruto apenas de uma suposta ação exclusiva de enfrentamentos parlamentares. Nas ruas - principalmente nas cidades -, abolicionistas de várias origens sociais, escravos, libertos, operários de fábricas que alvoreciam, capoeiras, jornalistas e pequenos negociantes transformaram a campanha pela liberdade dos cativos numa verdadeira batalha ... e mais adiante ... capoeiras se engalfinhavam com republicados contrários à abolição...".

Isso, em cidades como Rio de Janeiro, Santos, Porto Alegre, Campinas, Salvador e Recife não foram poucas as refregas nas ruas envolvendo polícia, abolicionistas, capoeiras, escravos e libertos.

O dono das ruas, naquele momento em que o grito da abolição cortou os ares, era o capoeira. Para os autores, a participação dos capoeiras nesse memorável momento político da vida carioca ainda é plena de contradições e zonas de sombra, em virtude de as maltas - como eram chamados os grupos de capoeira - não se posicionavam somente de um dos lados da contenda. Estavam nas trincheiras dos que defendiam o fim imediato da escravidão, assim como no lado dos que postulavam uma transição lenta, gradual e segura, sem o grito das ruas.

Mas os capoeiras se fizeram presentes, com suas correrias, suas lutas de rua, empastelamento de jornais - de ambos os lados - e os inesquecíveis golpes da capoeira, da rasteira e da navalha...

Iniciando em 05 de janeiro de 1885, quando capoeiras de uma malta armada pelos inimigos da causa abolicionista invadiram o prédio da redação do jornal "Gazeta da Tarde", dirigido por José do Patrocínio. Consta que essa invasão não teve nada relacionada com o movimento abolicionista, conforme a história passou a registrar o empastelamento do jornal, pelos capoeiras.

Foi apenas um enfrentamento entre maltas rivais, colocada de um lado, grupo do Campo de Santana (identificada com os abolicionistas) formada por pequenos vendedores de jornais, e do outro lado (dos escravistas), a malta que dominava o Largo de Santa Rita, chefiada por um tal de Castro Cotrim, junta com outros chefes de malta da região portuária de Santa Rita como Coruja e Chico Vagabundo. Os pequenos vendedores de jornal entraram na redação para fugir de seus perseguidores e foram apoiados pelos funcionários do jornal, que rebateram o ataque.

Anos mais tarde, José do Patrocínio cria a "Guarda Negra", em função da Lei Áurea, que abriu caminho para uma temporária unificação dos grupos em prol da novel agremiação, talvez a face mais conhecida da capoeiragem política dos últimos anos da monarquia. Mais tarde, Patrocínio a iria renegar, após a queda do gabinete João Alfredo, que concretizou o 13 de maio.

Patrocínio foi quem introduziu os capoeiras para o ninho abolicionista e circulava bem no complexo mundo das maltas de capoeira do Rio - José do Patrocínio era mulato, filho de uma africana e de um poderoso cônego do conservador clero católico, de Campos dos Goitacases -, algo muito raro entre as lideranças abolicionistas - Joaquim Nabuco e André Rebouças, dentre outros ... -, em geral compostas de moradores de classe média que nutriam verdadeira ojeriza à capoeiragem.

O porta-voz da Guarda Negra escrevia seus manifestos nas páginas de "A Cidade do Rio", o novo jornal de Patrocínio; as primeiras reuniões foram realizadas na redação do jornal; a polêmica na imprensa era travada entre o jornal de patrocínio e o "Paíz", no qual Rui Barbosa vociferava os maiores impropérios contra a Guarda da Redentora.

Após o incidente de 14 de julho de 1889 entre os capoeiras da Guarda Negra e militantes republicanos no coração do Rio, Patrocínio gradualmente se afastou da organização... a guarda entraria em declínio, até ser completamente desbaratada pela repressão de Sampaio Ferraz em 1890.

Informam os Autores que houve episódios da Guarda Negra em outras cidades, como Porto Alegre, Salvador e São Luís...

São Luís? Daí nosso espanto, de Jairo e eu. Nunca ouvíramos falar... Procurei em Mário Meireles, nosso maior historiador, e não achei nada; em Vieira Filho, em seu "A Polícia Militar do Maranhão", de 1975, e não consta nada; Navas-Toríbio, em seu "O negro na literatura maranhense", também não há referência...

Resta a Internet! Na Wikipedia, sob o título Capoeira, consta que, historicamente, capoeiristas têm sido utilizados em guerra e conflitos como na Guerra do Paraguai e na Revolta dos Mercenários, em 1828, e que em 1888 foi instituída pelo exército brasileiro a Guarda Negra, composta praticamente por capoeiristas.

Em 1897, o general Couto de Magalhães disse que a capoeira não deveria ser perseguida mais sim dominada e ensinada em escolas militares. Em 1939, mestre Bimba começa a ensinar a capoeira no quartel do CPOR de Salvador. Não se pode esquecer que como arte de guerra a capoeira foi utilizada contra a opressão da escravidão nos quilombos e posteriormente nas maltas. [1].

CARDOSO, em "HISTÓRIA DA CAPOEIRA", ao tratar da "repressão da capoeira" refere-se que, quando da chegada da família Real ao Brasil em 1808, começou o processo de repressão à cultura negra e foi intensificada a perseguição policial. Em 1809, foi criada a Guarda Real da Polícia na qual o Major Miguel Nunes Vidigal foi nomeado comandante. Major Vidigal foi o verdadeiro terror dos capoeiristas, perseguia-os, espancava-os e torturava-os na tentativa de exterminá-los. Apesar dos severos castigos, os capoeiras resistiam bravamente e em 1824, a punição tornou-se pior: além das trezentas chibatadas eram enviados por três meses para realizar trabalhos forçados na Ilha das Cobras.

A partir da segunda metade do século XIX (1850), começaram a ocorrer sucessivas prisões de capoeiristas, os quais estavam formando maltas que atemorizavam a população e os governantes. Os principais focos da capoeira eram: Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. No entanto, no Rio de Janeiro é que a capoeira era motivo de maior preocupação (mesmo porque o Rio era a capital do país na época), era onde estava a maior concentração das maltas, sendo as mais temíveis as do Guaiamuns e dos Nagoas. Os Nagoas eram ligados aos monarquistas do Partido Conservador, agiam na periferia, e os Guaiamuns eram ligados aos Republicanos do Partido Liberal, controlavam a região central da cidade. (in Letícia Cardoso de Carvalho [2]).

Maltas adversárias que por décadas se digladiaram pelas ruas da cidade; os nagoas e guaiamus sempre aparentavam estar imersos num universo imaginário, fronteira entre a ficção acadêmica e uma nebulosa tradição popular. Nesse processo de divisão da cidade em dois grandes grupos rivais estaria completo, definindo uma linha divisória que mantinha nagoas e guaiamus em lados opostos, e em permanente conflito pelo controle de cada área. O conflito político-partidário entre liberais e conservadores acabou se cristalizando como a clivagem mais importante entre as maltas de capoeiras, que assim se ligaram indelevelmente ao destino dos dois partidos principais do sistema político do Império. O ano de 1888 foi o da Abolição da Escravatura e de grandes mobilizações de capoeiras. (in Soares, Carlos Eugênio Líbano. Dos nagoas e guaiamus: a formação das maltas In: A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994.).

Apesar da repressão que sofria, quando interessava, a capoeira servia também de instrumento nas mãos dos políticos. Ora para os liberais, ora para os conservadores. Um exemplo é a Guarda Negra, criada em 1888 por José do Patrocínio, composta por negros capoeiristas que tinham o objetivo de defender a monarquia e lutar contra a República (após a libertação dos escravos os capoeiristas ficaram ainda mais a favor da monarquia como agradecimento à Princesa Isabel por ter assinado a Lei Áurea). Logo após a Proclamação da República (1889), a capoeira foi proibida pelo Marechal Deodoro, permanecendo nessa situação até 1937 quando Mestre Bimba a tira do código penal e a leva a esporte nacional. (in Letícia Cardoso de Carvalho [3]).

A formação da Guarda Negra é precedida por violentos conflitos entre nagoas e guaiamus, retratados quase diariamente pela imprensa. Nunca como naquela época a atuação das maltas de capoeiras atingiu um impacto e uma sofisticação como se viu. O termo "fortaleza" para as tavernas deixa entender que aqueles eram locais típicos de reunião e conflito, e mais, pontos nervosos de uma geografia de bairro, constantemente em movimento pelo embate intermitente das maltas. (in Elias, Larissa Cardoso. Capoeira: Revolta e Teatralidade, Uma Perspectiva Artaudiana, disponível em [4])

Nos últimos dias do império, os conflitos entre republicanos e monarquistas ocorreram frequentemente. A fim proteger a princesa Isabel, os monarquistas criaram a Guarda Negra (protetor preto), composto dos pretos, mulatos e muitos escravos libertos. Estes homens foram extremamente devotados à Princesa porque tinha assinado a lei que abolia a escravidão. A Guarda Negra combateu os republicanos até que a última faísca da vida do império morreu. Furiosos, os republicanos juraram matar seus membros; se a monarquia não conseguiu extinguir a capoeira, a república recém-estabelecida o faria.
Continua na próxima edição falando sobre O ISABELISMO.
Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação

[1] in http://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o:Capoeira
[2] in http://www.geocities.com/projetoperiferia6/historia.htm
[3] in http://www.geocities.com/projetoperiferia6/historia.htm
[4] in http://hemi.nyu.edu/unirio/studentwork/imperio/projects/Larissa/Larissawork.htm

Nota da Ilustração: capturada da página 75 da Revista HISTÓRIA VIVA - Novembro de 2005, cujo título apresenta-se como "CORRIDA DE CAPOEIRA - Caricatura de autor desconhecido. Observar na ilustração, além de paus e porretes "voando", a presença da Sardinha (Navalha).

Fonte: Jornal do Capoeira

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Major Manuel Nunes Vidigal

Miguel Nunes Vidigal (Angra dos Reis, ? de ? de 1745, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1843) foi um militar brasileiro.

Nascido na cidade de Angra dos Reis, então Capitania do Rio de Janeiro, foi o primeiro brasileiro nato a ser um dos comandantes de forças militares no recém-formado Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves quando da chegada da família real portuguesa no ano de 1808 à cidade do Rio de Janeiro.

Ainda jovem, alistou-se num dos regimentos de cavalaria de milícias daquela capitania. Foi promovido a alferes em dezembro de 1782, a tenente em dezembro de 1784, a capitão em 20 de outubro de 1790, a sargento-mor em 18 de março de 1797, a tenente-coronel em 24 de junho de 1808, a coronel em 26 de outubro daquele mesmo ano, a brigadeiro graduado em 10 de março de 1822 e a brigadeiro em 12 de outubro de 1824.

Em 1791, era capitão da 1ª companhia do Regimento de Cavalaria de Milícias, responsável pela guarda do Conde de Resende, Vice-Rei do Brasil.

Com a criação da então Divisão Militar da Guarda Real de Polícia em 13 de maio de 1809, embrião da atual Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, foi indicado como subcomandante da Corporação, tendo a época o posto de sargento-mor (hoje major), a qual seria comandada por José Maria Rebello, que já era membro da Guarda Real de Polícia de Lisboa, instituição que serviu de base para a criação da congênere brasileira. Anos depois, em 23 de abril de 1821, chega ao comando-geral da corporação com a ida de Rabello de volta para Portugal, quando este acompanha o rei e deixa o Brasil.

Em 1º de dezembro de 1822 foi agraciado com o hábito de cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro.

Em 10 de março de 1824 foi transferido para o exército de 1ª linha. Solicitou reforma, que lhe foi concedida no posto de marechal de campo em decreto de 14 de novembro do mesmo ano, tendo mantido o comando da Guarda Real de Polícia até 14 de novembro daquele ano.

Vidigal, era considerado um perseguidor implacável dos candomblés, das rodas de samba e especialmente dos capoeiras, “para quem reservava um 'tratamento especial', uma espécie de surras e torturas a que chamava de 'Ceia dos Camarões'”.

Seus detratores, os quais existiam aos montes haja vista sua reconhecida rigidez na "aplicação" da "lei", entretanto, o descreviam como "um homem alto, gordo, do calibre de um granadeiro, moleirão, de fala abemolada, mas um capoeira habilidoso, de um sangue-frio e de uma agilidade a toda prova, respeitado pelos mais temíveis capangas de sua época. Jogava maravilhosamente o pau, a faca, o murro e a navalha, sendo que nos golpes de cabeça e de pés era um todo inexcedível" [carece de fontes].

Em 10 de julho de 1843 faleceu na cidade do Rio de Janeiro, com 98 anos de idade, nas terras que hoje dão nome ao bairro carioca do Vidigal, as quais recebeu de presente dos monges beneditinos, em 1820, ao pé do morro Dois Irmãos, sendo sepultado nas catacumbas da igreja de São Francisco de Paula.

Vidigal na cultura popular

Manuel Antônio de Almeida, ao escrever "Memórias de um Sargento de Milícias" assim fala sobre ele: "O Major Vidigal, que principia aparecendo em 1809, foi durante muitos anos, mais que o chefe, o dono da Polícia colonial (...). Habilíssimo nas diligências, perverso e ditatorial nos castigos, era o horror das classes desprotegidas do Rio de Janeiro". Noutro trecho da obra, o descreve da seguinte forma: "Era Vidigal um homem alto não muito gordo, com ares de moleirão. Tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, a voz descansada e adocicada. Apesar desse aspecto de mansidão, não se encontraria, por certo, homem mais apto para o cargo..."

Alfredo Pujol lembra uma quadrinha que corria sobre ele no murmúrio do povo:

Avistei o Vidigal.
Fiquei sem sangue;
Se não sou tão ligeiro
O quati me lambe.

Mário de Andrade, na introdução às Memórias de um Sargento de Milícias, São Paulo, 1941.

Da época em que o mesmo ainda comandava as forças policiais militares na corte, Artur Azevedo escreveu sobre ele esses versos satíricos:

Naquele tempo, Vidigal famoso,
Mais rancoroso
Do que um bicho mau,
Tinha jurado aos deuses prender-me
Para meter-me
Na polícia o pau.

Fonte: Wikipédia

sexta-feira, 13 de maio de 2016

13 de Maio 1888 - Dia da Abolição da Escravatura

Marc Ferrez. Escravos em terreiro de uma fazenda de café na região
do Vale do Paraíba, c. 1882. Vale do Paraíba, RJ.
A Abolição da Escravatura foi o acontecimento histórico mais importante do Brasil após a Proclamação da Independência, em 1822. No dia 13 de maio de 1888, após seis dias de votações e debates no Congresso, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que decretava a libertação dos escravos no país. Sobre este dia, Machado de Assis escreveu anos depois na coluna “A Semana”, no jornal carioca Gazeta de Notícias: “Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto”.

A escravidão no Brasil foi amplamente documentada pelos fotógrafos do século XIX. Contribuíram para isto o fato de ter a fotografia chegado cedo ao país, em 1840, sendo o imperador Pedro II um grande entusiasta, além de ter sido o último país das Américas a abolir a escravatura, em 1888. Por cerca de 350 anos, o Brasil – destino de 4,5 milhões de escravos africanos – foi o maior território escravagista do Ocidente, mantendo este sistema tanto no campo como na cidade – o lugar de trabalho era o lugar do escravo. Muitas vezes o objetivo das fotografias não era a denúncia e sim o estético ou, ainda, o registro do exótico.

A Galeria do Dia da Abolição da Escravatura exibe fotos de escravos em situações de trabalho, em momentos de descanso ou mesmo em poses obtidas em estúdios. Dentre seus autores estão Alberto Henschel, Augusto Riedel, Augusto Stahl, George Leuzinger, João Goston, Marc Ferrez , Revert Henrique Klumb, além de alguns anônimos.

Leia mais na Brasiliana Fotográfica: http://brasilianafotografica.bn.br/?p=520.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Grávidas praticam capoeira para reduzir ansiedade: 'Humor equilibrado'

Michelle é mãe de Yuri e incentivou o filho a começar a jogar capoeira (Foto: Luna Oliva/G1)
Sem contraindicações, capoeira pode ser praticada durante a gravidez. Moradora de Santos praticou capoeira até um dia antes de dar à luz.

Uma moradora de São Vicente, no litoral de São Paulo, encontrou na capoeira uma forma de ter uma gestação mais saudável e sem contratempos. Em vez de 'sossegar' e praticar modalidades recomendadas para grávida, como hidroginástica e yoga, Michelle Carneiro de 34 anos, optou pelos chutes, saltos e rasteiras da modalidade.

Atualmente, Michelle é instrutora de capoeira e tem dois filhos. Durante a gestação de ambos ela praticou a arte marcial. "Eu já fazia antes de engravidar. Então, exatamente por isso, eu não queria parar. Continuar na capoeira me ajudou a controlar totalmente a ansiedade durante a minha gestação", conta.

A instrutora afirma que recebe muitas reclamações de grávidas que se sentem cansadas e sonolentas durante a gestação. Por isso, ela passou a recomendar o esporte para outras mulheres, já que por experiência própria, ao praticar a capoeira se sentia com mais vitalidade e menos pesada, além de continuar flexível.

Leia mais na fonte abaixo...

Fonte: Portal G1

sexta-feira, 18 de março de 2016

Capoeira Psicomotora – Parte II

A primeira parte deste texto comparou a semelhança das principais linhas de trabalho da Psicomotricidade com a Capoeira, no entanto, faltou abordar a relação dos principais componentes do desenvolvimento psicomotor com a prática desta arte-luta.
A criança que inicia na Capoeira tem o seu repertório motor aumentado automaticamente, pois ela aprende a utilizar o seu corpo de formas diferentes da vida cotidiana, ao mesmo tempo ela consegue se identificar com esta nova maneira de se movimentar e isso ocorre devido à liberdade e a ludicidade que a capoeira desperta em cada criança. Os movimentos que, muitas vezes, são reprimidos no ambiente doméstico ou escolar são permitidos na capoeira, sendo assim, levantar as pernas bem alto, rolar, virar de cabeça para baixo, usar as mãos no chão, cantar ou batucar, são ações que toda criança quer e sabe, cada uma a seu modo, realizar, mas não tem coragem, liberdade ou oportunidade de fazer.
Literalmente, o que toda criança quer é ser criança e a única forma de fazer isso é estimulando o seu desenvolvimento psicomotor e a melhor ferramenta que se tem é a brincadeira espontânea, mas nos dias atuais esta ferramenta tem sido pouco utilizada, por inúmeros fatores, por isso, algumas crianças tem maior ou menor facilidade para se movimentar e se expressar. Como a capoeira está repleta de aspectos simbólicos (lúdicos) e favorece a comunicação corporal ela se torna uma prática aliada da Psicomotricidade porque estimula os componentes do desenvolvimento psicomotor que são: coordenação motora global, coordenação motora fina, lateralidade, noção espaço- temporal, esquema corporal, imagem corporal.
A tão falada coordenação motora global, também conhecida como ampla ou geral, agrega os demais componentes do desenvolvimento psicomotor a partir do recrutamento dos grandes grupos musculares, ou seja, através de uma grande organização corporal é possível construir esta coordenação utilizando exercícios combinados e dissociados, danças e atividades de expressão corporal. A Capoeira possibilita tudo isso. Se na simples imitação do jogo de Capoeira, a criança estimula a construção da sua coordenação motora global pode-se imaginar os seus benefícios sobre este componente se a prática for organizada e devidamente orientada;
A coordenação motora fina também é amplamente estimulada pela prática da Capoeira, em especial pelo manuseio com os instrumentos musicais e dentre eles o berimbau torna-se o maior responsável pelo desenvolvimento desta coordenação devido à maneira de segurar, em forma de pinça, a baqueta (vareta) e a pedra (ou dobrão) em cada uma das mãos simultaneamente e vale lembrar que a escrita da criança dependerá dos estímulos de coordenação motora fina que ela recebe;
Através do manuseio dos instrumentos observa-se que a lateralidade, também, é estimulada, além da execução de todos os fundamentos para ambos os lados, que é uma prática comum nas aulas de Capoeira.
Se as noções de direita e esquerda causam dúvidas em muitos adultos podemos imaginar como as crianças ficam confusas quando, ainda, não possuem uma dominância lateral estruturada, por isso a praxia simultânea em ambas as mãos ou pernas permite à criança organizar sua atividade motora experimentando ora direita, ora esquerda sem imposição da destralidade;
A noção espacial refere-se ao espaço ocupado pelo corpo, pela sua localização e dominância e a roda de Capoeira proporciona experiências como entrar e sair, interagir, interferir e dividir este espaço com outros corpos. A criança aprende sobre a forma da roda e a localização de cada componente como a organização da bateria, o pé do berimbau (ou da cruz), o lugar de cada colega nesta roda e a direção em que os movimentos devem ser projetados. Todos estes aspectos estimulam, naturalmente, a organização espacial do jovem capoeira. A noção de espaço está intimamente ligada à noção de tempo partindo da ideia de que o corpo movimenta-se num espaço (roda) por determinado tempo (jogo).
A noção de tempo, assim como a noção de espaço, se constrói mentalmente, de forma abstrata por isso é tão difícil para a criança entender a ordem dos acontecimentos e como a estruturação do tempo está associada à noção de sucessão, portanto, intimamente ligada ao ritmo que é composto pelas noções de ordem, sucessão e duração.
E em que outra modalidade, além da capoeira, estas noções poderiam ser tão estimuladas simultânemente?
A começar pelas palmas, a criança aprende a bater palmas em, pelo menos, três cadências diferentes, dependendo do estilo musical de cada grupo, além disso, não só o jogo, mas toda a aula de Capoeira é realizada ao som da sua música característica que pode ser lenta ou rápida. A criança aprende que para estabelecer o diálogo corporal da Capoeira ela precisa perguntar com um movimento (ataque) e aguardar a resposta do colega que será outro movimento (esquiva) e o processo pelo qual esta conversa se estabelece é totalmente psicomotor e espaço-temporal.
Quanto à contribuição da Capoeira para com o esquema corporal pode-se dizer que o aumento no repertório motor da criança faz com que ela tome consciência da funcionalidade das partes do seu corpo, já que a construção do esquema corporal não pode ser ensinada, pois ela ocorre através das experiências corporais que a criança tem.
Mas com relação à imagem corporal, que é a imagem mental que a criança possui de si, a Capoeira influencia, principalmente, no aspecto social. Todo iniciado deseja vestir-se como o restante do grupo, ter um cordão como os alunos mais adiantados ou deseja movimentar-se como o seu professor (mestre), desta forma a criança constrói imagens para fazer parte de algo, para ser aceita. A imagem corporal se estrutura a partir das vivências afetivas da criança a partir do seu corpo em movimento ou não.
E sem entrar em maiores detalhes, como não dizer que a capoeira é psicomotora?

Fonte: Portal da Educação Física
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