Pular para o conteúdo principal

Festival de Cordas, Cordéis, Cordões e Fitas


André Luiz Lacé Lopes (*)
Jornal A Notícia, RJ- 1996


Escrevemos, na semana passada, sobre uma possível "União Geral das Diversas Uniões das Capoeiras" (o autor refere-se ao jornal A Notícia). Realmente as tentativas no sentido de uma grande união, de uma união geral estão proliferando, fazendo com que os eternos gozadores de plantão comecem a afirmar que o ideal é uma "união geral para cada mestre".

Mesmo assim, vejo o fenômeno com otimismo, não tenho dúvida de que desse excesso de soluções surgirá uma solução de consenso. Final feliz, para a Capoeira e para os capoeiras, que poderá ser acelerado se o Governo Federal (Ministério Extraordinário de Esportes, INDESP) resolver entrar nesta Roda. No momento, não vejo outra alternativa mais rápida e eficaz, ou seja, o INDESP promovendo uma grande mesa redonda com os representantes dos principais movimentos. Claro, nesta reunião - histórica - estariam presentes figuras que valem por um movimento inteiro. Além de apoio multidisciplinar - sociólogos, antropólogos, administradores, advogados, educadores, maestros - e de visão-ação interdepartamental (na área federal, só para dar um exemplo, o melhor trabalho em prol da capoeira, em l996, foi feito pelo Ministério da Cultura).

Um dos assuntos nucleares para esta "grande mesa redonda federal" (mundial!?), seguramente, será a Torre da Babel dos Cordéis, Cordas, Cordões e Fitas tentando definir uma hierarquia dentro da Capoeira. Este é justamente o nosso assunto de hoje.

Para não complicar muito comecemos com a definição feita pelo regulamento oficial da capoeira como aprovado em 1972. Inspirada nas cores da bandeira brasileira que, por sua vez, inspirou-se nas características naturais do próprio Brasil, tomou a seguinte forma: 1º estágio - cordel verde, 2º - cordel verde-amarelo, 3º - amarelo, 4º - amarelo-azul, 5º - azul (formado), 6º - verde-amarelo-azul (contramestre), mestre de 1º grau - cordel branco-verde, mestre de 2º grau - branco-amarelo, mestre de 3º grau - branco-azul, e mestre de 4º grau - cordel branco. Não tendo ainda em mãos o trabalho feito, recentemente, pelo Mestre Damionor Mendonça, estou utilizando como fonte de informação a apostila básica elaborada pelo Mestre Bogado para todos os cursos da Associação de Capoeira Barravento (sede em Niterói, Rio de Janeiro).

Sem mesmo procurar conhecer os fundamentos da hierarquia acima resumida, alguns mestres resolveram criar hierarquia própria. Alguns até passando a chamar cordel de corda ou cordão (a utilização de fitas, salvo engano, pertence ao Mestre Carlos Senna e data de muito antes das demais).

De qualquer maneira a disputa virou um verdadeiro "festival de alternativas discutíveis e até suspeitas", todas elas contrariando frontalmente a essência da capoeiragem. O que de um lado, com boa vontade, pode ser entendido como a comprovação da criatividade infinita da capoeiragem, por outro, pode muito bem ser entendido como mecanismos criados com segundas intenções, intenções que não ajudam à Capoeira, e sim a terceiros. Segundas intenções ditadas por simples vaidade ou por ganância. Não será por aí que chegaremos à solução maior, magnânima, que contemple os verdadeiros fundamentos desta fascinante arte.

Mas que fique claro, não estou tirando a razão de quem tentou ou está tentando implantar seu próprio padrão de hierarquia, apenas estou sugerindo que já está na hora de uma reflexão mais profunda sobre o assunto, com vistas a uma grande fusão, não tanto de cordéis (ou cordas, cordões etc etc), mas de fundamentos.

Cordéis ou similares, caso sobrevivam (espero que não sobrevivam), deverão representar os fundamentos da Capoeira. O que não está ocorrendo.

Apenas para ilustrar, a seguir, apresentamos algumas alternativas criadas para o padrão oficial aprovado, em 1972, pelo então Conselho Nacional de Esportes. Para começar, a própria Confederação Brasileira de Capoeira já introduziu algumas modificações. Vários outros grupos, entretanto, como a Senzala-regional, a Abadá, a IUNA e a Muzenza preferiram partir para uma hierarquia própria. Valendo lembrar que todas essas tentativas estão sempre acompanhadas de justificativa, por vezes, digamos, excessivamente "mística": "Cinza: vem das cinzas e as cinzas retornará"; "Laranja: representa o fruto que está nascendo dentro da capoeira"; "Azul claro: quer almejar os céus"! Etc...

A Abadá-Capoeira (Informativo nº 4, setembro/outubro 963) estabeleceu dezessete níveis: 1. Corda crua, 2. Amarela/crua, 3. Amarela, 4. Amarela/laranja, 5. Laranja. 6. Azul/laranja, 7. Azul, 8. Verde/azul, 9. Verde, 10. Roxa-verde, 11. Roxa, 12. Marrom/roxa, 13. Marrom, 14. Vermelha/marrom, 15. Vermelha, 16. Branca/vermelha, e 17. Branca.

O Grupo Muzenza (fonte: Jornal Muzenza, outubro, 96), por sua vez houve por bem definir 13 níveis para adulto: 1. estágio inicial: cinza (iniciante), 2. laranja (iniciante), 3. azul claro (iniciante), 4. verde (aluno graduado), 5. amarelo (aluno graduado), 6. azul (aluno graduado), 7. branco/roxo (contramestre 1º grau), 8. branco-marrom (contramestre 2º grau) 9. banco/vinho (contramestre 3º grau), 10. Roxo (mestre 1º grau), 11. Marrom (mestre 2º grau), 12. vinho (mestre 3º grau) e 13. Branco. O Grupo Muzenza estabeleceu, ainda, uma graduação específica para alunos até 15 anos: 1.cinza/claro, 2. Laranja/branco, 3. Azul/claro, 4. Verde/branco, 5. Amarelo/branco e 5. Azul/branco.

O Grupo IUNA (Mestre Santana, São Paulo), salvo engano, procurou fazer uma conciliação do padrão oficial inicial (Confederação Brasileira de Pugilismo) e o padrão ABADÁ (fonte: Boletim Capoeira IUNA, dez/93), não resistindo, entretanto, a exemplo do Grupo Muzenza, à tentação de hierarquizar o mundo infanto-juvenil.

Mestre Paulo Gomes (Associação de Capoeira Ilha da Maré), manteve a tradição, ou seja, nada de cordas ou cordéis, nada de imitar soluções orientais, nada de fragilizar o capoeira inventando uma corda para ele, eventualmente, nela se enforcar. Paulo Gomes preferiu uma solução que merece reflexão profunda de todos nós: 1. Fase inicial (espécie de estágio probatório) sem uniforme especial; 2. Batismo: calça preta e camisa branca com cola preta; 3. Calça branca, lista vertical preta, camisa branca e gola preta; 4. Tira a lista preta da gola da camisa, fica todo de banco: formado para aula (mestrado); 6. Casaco de cetim (professor de capoeira), amarrado na cintura (o branco é o símbolo máximo da capoeira).

Sem querer esgotar a questão, não posso deixar de transcrever a opinião do Professor Inezil Penna Marinho ("Ginástica Brasileira", Brasília, 1981).

- "A hierarquização dos cordéis, segundo o nosso entendimento, deveria obedecer aos sete "Domínios de Irradiações dos Orixás", que correspondem "as sete fases sociais do negro. As linhas de Orixás são as seguintes:

1ª - Linha de Iemanjá - na iconografia religiosa representa a linha que reina nas areias e no mar; cor representativa do Orixá: azul.

2ª - Linha de Xangô - No sincretismo religioso representa a linha protetora do céu (Olorum) e da terra (aganju), a linha que leva o batismo espiritual a todos que nascem e vivem na terra; cor representativa: marrom.

3ª - Linhas de Oxossi - Representa a linha guardiã das matas; cor representativa: verde.

4ª - Linha de Oxum - representa a linha protetora das águas doces e das cachoeiras; cor representativa: amarela.

5ª -Linha de Iansã - Representa a linha que preside os ventos e as tempestades; cor representativa: roxa.

6ª - Linha de Ogum - representa a linha guerreira; cor representativa vermelha.

7ª Linha de Oxalá - Na iconografia religiosa é o orixá maior, chefe supremo, linha que tem irradiação universal: core representativa: banca".

A respeito desse assunto, continua o Prof. Inezil Penna Marinho, indicamos a leitura do trabalho "Síntese do Sistema de Graduação Fundamentado no aspecto místico-religioso do negro", de autoria de Mestre Zulu.

Devo declarar que, de todas as tentativas de simbolizar cada grau hierárquico na capoeira, está me parece a mais instigante. No seu bojo, vamos encontrar a origem mais remota da capoeira, seus fundamentos filosóficos, espirituais e religiosos, noção de justiça (Xangô!!), preocupação ecológica e inspiração poética. Mas, não ousem mergulhar muito fundo nessas águas misteriosas e fascinantes. Conversei com vários especialistas e seguidores praticantes de cultos negros, todos concordaram que o mote era instigante, mas, todos concordaram, também, que existe meia dúzia de obstáculos perigosos, talvez até instransponíveis.

Para começar não existe apenas um culto afro-brasileiro, existem vários; não apenas várias linhas de Candomblé, mas, também, várias linhas de Umbanda. Qual escolher como paradigma da hierarquia da Capoeira (supondo, apenas raciocinar, que esta idéia burguesa de estabelecer uma hierarquia militar não afronte os verdadeiros fundamentos da Capoeira)?

Se temos um Ogum dançando Capoeira no Candomblé (com direito a toques específicos pelos alabês), temos, também, na Umbanda, os encantados Zé Pilintra (foto), Marinheiro, Malandrinho, Maria Padilha jogando, de vez em quando, sua capoeiragem...

O assunto é apaixonante e, caso o leitor queira aprofundá-lo, como preliminar de fundamental importância, aconselho a percorrer as melhores corimas do Rio e da Bahia (com todo respeito às "roças" dos demais estados - algumas fortíssimas - e as corimas do resto mundo, do Uruguai à África, passando certamente pelo Caribe e - pasmem! - pelos Estados Unidos e Europa. Ao final dessa "volta do mundo" muito especial, talvez o leitor não saia com um estudo pronto sobre hierarquias, mas, em compensação, estará entendendo muito mais sobre boa parte dos fundamentos da Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem.

Muito bem, voltando ao tema geral deste artigo, o fato é que os exemplos proliferam, aqui no Brasil e - o que é muito perigoso - no exterior. Contrapondo-se às cordas e cordéis, numa resistência heróica e bem sucedida, vamos encontrar a solução dos Angoleiros. Domingo passado, tive o prazer e a honra de participar da festa de fim de ano do Grupo Capoeira Só Angola (Santa Teresa, RIO). Vários mestres prestigiaram a festa, inclusive o excelente contramestre Valmir Damasceno (Grupo Pelourinho, Mestre Moraes, Salvador). Obviamente, ninguém utilizava corda ou cordéis. Pois muito bem, ao final da Roda, qualquer um, especialista ou não em capoeira, sabia dizer, com exatidão, quem tinha sido mais mandingueiro, quem deu a melhor volta do mundo, quem tinha cantado melhor e mais adequadamente (em função da dinâmica de cada "vorta do mundo")...

Pensem nisto, camaradas.


(*) Artigo publicado inicialmente no Jornal A notícia, Coluna Roda de Capoeira, de Juca Reis (André Luiz Lacé Lopes). Rio de Janeiro, Domingo - 21/21 de dezembro de 1996.
Transcrito no Livro "A Volta do Mundo da Capoeira", 460 páginas. RJ / 1999.

Comentários

Psico disse…
Show de bola o artigo Papagaio!! É com certeza um assunto para se refletire também para conhecer um pouco da origem dos sistemas de graduação!! Acompanho sempre o blog! ;)
Parabéns pelo ótimo trabalho!
Grande abraço!!
Papagaio Preto disse…
Valeu Psico! Pela força e pela visita, estamos tentando sempre por informação de qualidade para aumentar o número de visitantes para termos mais pessoas com quem debater assuntos sobre capoeira.
Abraços.
Unknown disse…
super assunto gostei dimais e porque meu grupo utiliza faixa como graduacao nao sei se voce conhece e um grande grupo de capoeira da cidadde baixa de salvador-bahia entao lendo isso tudo vejo que as graduacoes na capoeira sao importante e tambem ao mesmo tempo nao somos um grupo que começamos a utilizar lenço em primeiro como gaduacao e em 1980 passamos a ser faixa pela decisao dos antigos do meu grupo que se chama estilo faixa a primeira faixa tenhe como cor branca e depois branca e amarela e depois amarela e depois amarela e azul e depois azul e depois azul e roxo e depois roxo e depois roxo e preto e depois preto e depois 8 dans pra grao mestre 8 dan
Papagaio Preto disse…
Eu já vi alguns vídeos na internet sobre a Capoeira estilo faixa, para ser mais exato foi um vídeo da Mestra Renatinha, mas agora no momento não me lembro do nome do grupo, você pertence ao mesmo grupo que ela?

Postagens mais visitadas deste blog

Sequência de Ensino de Mestre Bimba

Vamos começar o Ano acelerado! Nesse primeiro post do ano, tirando o de Feliz Ano Novo é claro, vamos começar relembrando os fundamentos no método de ensino da Regional... O Mestre criou o primeiro método de ensino da capoeira, que consta de uma sequência lógica de movimentos de ataque, defesa e contra-ataque, podendo ser ministrada para os iniciantes na forma simplificada, o que permite que os alunos aprendam jogando com uma forte motivação e segurança. Jair Moura, Ex-aluno explica ” esta sequência é uma série de exercícios físicos completos e organizados em um número de lições práticas e eficientes, a fim de que o principiante em Capoeira, dentro de um menor espaço de tempo possível, se convença do valor da luta, como um sistema de ataque e defesa “. A sequência original completa de ensino é formada com 17 golpes, onde cada aluno executa 154 movimentos e a dupla 308, o que desenvolve sobremaneira o condicionamento físico e a habilidade motora específica dos praticantes. PRIMEIRA

Novo longa de Capoeira: Fly Away Beetle

Está em fase de pós produção o longa-metragem Capoeira: Fly Away Beetle , da produtora americana Bluedot . Filmado nas ruas de Salvador, o documentário mostra a beleza da capoeira e, ao mesmo tempo, explora sua a história, os mitos e todo o simbolismo de seus movimentos. A produção do longa-metragem acompanhou renomados mestres de capoeira de Salvador, conhecendo seus trabalhos, seus colegas e alunos e conhecendo também a esperança, o respeito e a libertação que a capoeira promove. E, com o objetivo de compreender melhor o cenário atual da Capoeira, o filme volta às suas raízes abordando a escravidão, o candomblé, chegando às lendárias histórias de Besouro Mangangá, e retornando aos fatos atuais. Confira o trailer: Capoeira: Fly Away Beetle Trailer from BlueDot Productions on Vimeo . O documentário Capoeira: Fly Away Beetle é uma produção de Slade Renee & Ri Stewart, dirigido por Corbin Cosmos Matt & Lockhart e assistência de Marcio de Abreu, roteiro e narração de Go

A sua Corda é de Valor

A escola ABADÁ-Capoeira tem seu próprio sistema de graduação. Todos começam com a CORDA CRUA e avançam de acordo a sua particularidade. Graduações infantis • 3 Anos - Uma ponta Amarela • 4 Anos - Ponta Amarela • 5 Anos - Ponta Amarela e Laranja • 6 anos - Ponta Laranja • 7 Anos - Ponta Laranja e Azul • 8 Anos - Ponta Azul • 9 Anos - Crua e Amarela • 10 Anos - Amarela • 11 Anos - Crua e Laranja • 12 Anos - Amarela e Laranja • 13 Anos - Laranja • 14 Anos - Crua e Azul • 15 Anos - Amarela e Azul • 16 Anos - Laranja e Azul Graduações Jovens e Adultos Alunos • CORDA CRUA E AMARELA (Transformação) • CORDA AMARELA (O Ouro: Significa a valorização do Aprendizado que será desenvolvido a partir desta graduação) • CORDA AMARELA E LARANJA (Transformação) • CORDA LARANJA (O Sol: Significa o despertar para a consciência do aprendizado) • CORDA LARANJA E AZUL (Transformação) Alunos Graduados • CORDA AZUL (O Mar: Significa a consciência da imensidão do caminho a percorrer)