sábado, 24 de dezembro de 2016

Feliz Natal...

Charge do Mestre Cartunista Redi

Estou fazendo este pequeno post para desejar de um...
FELIZ NATAL À TODOS!!!

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

20 de Novembro - Dia da Consciência Negra

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O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de Novembro no Brasil e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.
A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. Apesar das várias dúvidas levantadas quanto ao caráter de Zumbi nos últimos anos (comprovou-se, por exemplo, que ele mantinha escravos particulares) o Dia da Consciência Negra procura ser uma data para se lembrar a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro em 1594.
Algumas entidades como o Movimento Negro organizam palestras e eventos educativos, visando principalmente crianças negras. Procura-se evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade.
Outros temas debatidos pela comunidade negra e que ganham evidência neste dia são: inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, se há discriminação por parte da polícia, identificação de etnias, moda e beleza negra, etc.
O dia é celebrado desde a década de 1960, embora só tenha ampliado seus eventos nos últimos anos; até então, o movimento negro precisava se contentar com o dia 13 de Maio, Dia da Abolição da Escravatura – comemoração que tem sido rejeitada por enfatizar muitas vezes a "generosidade" da princesa Isabel, ou seja, ser uma celebração da atitude de uma branca.
A semana dentro da qual está o dia 20 de Novembro também recebe o nome de Semana da Consciência Negra. 

História do Dia Nacional da Consciência Negra
Data estabelecida pelo projeto lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. Foi escolhido 20 de Novembro, pois foi neste dia em 1695 que morreu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.
A homenagem a Zumbi foi mais do que justa, pois este personagem histórico representa a luta do negro contra a escravidão no período Colonial. Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Os quilombos representavam uma resistência ao sistema escravista e também um forma coletiva de manutenção da cultura africana aqui no Brasil. Zumbi lutou até a morte por esta cultura e pela liberdade do seu povo. 

Importância da Data
A criação desta data serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional. Os negros africanos colaboraram muito nos aspectos políticos, sociais, gastronômicos e religiosos de nosso país. É um dia que devemos comemorar nas escolas, nos espaços culturais e em outros locais, valorizando a cultura afro-brasileira.
A abolição da escravatura, de forma oficial, só veio em 1888. Porém, os negros sempre resistiram e lutaram contra a opressão e as injustiças advindas da escravidão.
Sempre ocorreu uma valorização dos personagens históricos de cor branca, como se a história do Brasil tivesse sido construída somente pelos europeus e seus descendentes. Imperadores, navegadores, bandeirantes, líderes militares entre outros são considerados hérois nacionais. Agora temos a valorização de um líder negro em nossa história e, esperamos, que em breve outros personagens históricos de origem africana sejam valorizados por nosso povo e por nossa história. Passos importantes estão sendo tomados neste sentido, pois nas escolas brasileiras já é obrigatória a inclusão de disciplinas e conteúdos que visam estudar a história da África e a cultura afro-brasileira.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Capoeira. O jeito brasileiro de ir à luta

Rosangela Petta

Quando você vê um filme com Mel Gibson, Eddie Murphy ou Wesley Snipes, pode ter certeza: para fazer aquelas incríveis cenas de ação, eles incluíram a capoeira nos ensaios. É que essa técnica corporal, mistura de dança e exercícios, desenvolvida exclusivamente no Brasil, já ganhou adeptos em 48 países. Ambiciosa, desde o ano passado ela foi reconhecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro como esporte olímpico e está em campanha por um lugar nos jogos de 2004. O número de academias vem crescendo rapidamente e já soma 25 000. Veja por que essa luta brasileira está empolgando cada vez mais gente.

Nos últimos dois anos, o número de cursos de capoeira quadruplicou. O cálculo é do presidente da Confederação Brasileira de Capoeira, Sérgio Luís Vieira, sustentado em estimativas do final de 1995 que incluem tanto as escolas filiadas quanto as “de fundo de quintal”. Se levarmos em conta que a média de alunos de cada mestre, título dado ao professor de capoeira, é de 100 iniciantes, chega-se à conclusão de que uns 2,5 milhões de brasileiros já entraram na roda.

Além disso, essa mistura de jogo, dança e pugilismo está presente em 48 países. Curiosamente, nenhum do continente africano. São 120 cursos apenas no estado americano da Califórnia, incluindo o da Universidade de Berkeley. “Houve um boom de capoeira, especialmente depois que ela foi reconhecida como esporte pelo Comitê Olímpico Brasileiro, no ano passado”, disse Vieira à SUPER. “A capoeira entrou em clubes da classe média alta, em colégios e universidades. Por isso vamos formar uma federação internacional ainda em 1996. Se tudo correr nesse ritmo, chegaremos às Olimpíadas em 2004.”

Não vai ser fácil. Além de precisar preencher os pré-requisitos olímpicos, que obrigam a prática da modalidade em pelo menos 75 países de quatro continentes, a capoeira não é uma técnica uniforme. Ela ainda é praticada espontaneamente, como a brincadeira dos escravos nos dias de festa do Brasil colonial (veja na página 50), e está dividida em estilos, métodos e rituais diferentes e informais. O que você vê na televisão, na rua ou na maioria das academias está mais próximo de um certo tipo de roda: a Regional, bem diferente da capoeira Angola, a mais primitiva. Embora a confederação tente unir as duas correntes, listando 76 golpes, é difícil promover competições que avaliem todos os capoeiristas por um mesmo padrão.

Uma cultura negra em jogo

Não são todos os capoeiristas, ou capoeiras que se consideram atletas. Para os grupos mais tradicionais de Salvador, ela é forma de expressão da cultura negra. Tanto que, para eles, trata-se de uma arte marcial afro-brasileira. “Reduzir a capoeira ao esporte é diminuir seu lado subjetivo, sua história e sua filosofia”, diz Pedro Moraes Trindade, o mestre Moraes, baiano que segue a linha de Angola. “Capoeira é a fusão de corpo e mente. Em comparação a outras artes marciais, corresponde ao tai chi chuan chinês, no qual você não precisa ser forte, mas inteligente.”

Manoel Nascimento Machado, ou mestre Nenéu, de Salvador, batizado na capoeira como “Sá Pererê” e filho do criador da capoeira Regional, também insiste em ressaltar aspectos que extrapolam a mera habilidade física. “O capoeira nunca joga contra o outro, mas com o outro”, explica à SUPER. “Assim ele se prepara para enfrentar a vida lá fora.”

Em comum, a capoeira Angola e a Regional têm alguns princípios fundamentais. Quem joga sempre deve começar cumprimentando o parceiro “ao pé do berimbau”, quer dizer, agachado perto do instrumento que dará o ritmo dos golpes. Ambos devem estar limpos, “decentemente trajados” e jamais sem camisa. Deve-se procurar a harmonia, na qual um movimento de defesa já é o começo de outro, de ataque, sem ferir o companheiro. Os oponentes não se atracam, mas lutam “por aproximação”, respeitando a hora de entrar e sair da roda. E ninguém deve aprender capoeira para sair batendo nos outros.

Tudo começou com uma certa dança da zebra

A palavra capoeira não é africana, como se costuma pensar. Ela vem do tupi, kapu·era, e originalmente possui dois significados. Pode tanto designar mato ralo ou roçado como uma espécie de cesto ou gaiola que serve para carregar animais e mantimentos. A partir desse duplo sentido, etimologistas, historiadores e folcloristas começam a polemizar sobre o berço da capoeira, que pode ser rural ou urbano.

Uns enxergam seu nascimento no campo, entre grandes plantações de cana e engenhos de açúcar, onde as clareiras abertas na mata serviriam de canal para a fuga dos negros rebeldes e espaço para o lazer nas horas de folga. “A própria palavra já denuncia uma ligação com o meio rural”, diz o antropólogo Oderp Serra, da Universidade Federal da Bahia. Mas há quem diga que a capoeira é própria da cidade, onde aquela brincadeira quase inocente das fazendas teria evoluído para a arte marcial. “Sem dúvida, ela é urbana”, afirma o pesquisador baiano Waldeloir Rego, autor de um clássico sobre o assunto, Ensaio Sócio-Etnográfico Sobre a Capoeira de Angola. “Só não podemos afirmar se a capoeira é de Salvador ou do Rio de Janeiro. Provavelmente, se fez ao mesmo tempo nas duas cidades, e ainda em Recife.”

A existência de jogos corporais semelhantes à capoeira em Cuba (o mani) e na Martinica (a ladja) comprovam que a semente de todas as especulações está nos costumes trazidos nos porões dos navios negreiros que também seguiram para o Caribe. Mestre Moraes foi um dos capoeiristas brasileiros que tiveram a oportunidade de presenciar na Angola atual o ritual do n·golo, ou “dança da zebra”. “Não é capoeira, mas uma competição atlética que os rapazes da aldeia fazem para ver quem merece ficar com a moça que já atingiu a idade de casar”, conta.

Cruzando os relatos disponíveis, Rego concluiu que o n·golo virou folguedo, um divertimento praticado pelos escravos nos domingos e feriados. Com o tempo, a prática teria se transformado em exibições de habilidade, destreza e leveza de movimentos, chegando ao jogo de ataque e defesa no século passado.

A festa virou violência e fez política

No século passado, as principais cidades portuárias brasileiras, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro, eram um aglomerado barulhento de gente. Era comum a figura do “escravo de ganho”, aquele que tinha permissão de vender ou prestar serviços na rua e, em troca, dar uma porcentagem do dinheiro que obtivesse ao seu senhor. Sem outra coisa a oferecer senão a força física para carregar móveis, mercadorias e dejetos, muitos faziam ponto perto do porto. Não demorou para que esses grupos se organizassem sob a chefia de algum valente chamado de “capitão”, que era exímio em capoeira.

Segundo o historiador carioca Carlos Eugênio Líbano Soares, que examinou o registro de prisões de escravos do século XIX, os anos entre a chegada da Família Real, em 1808, e a abdicação do primeiro imperador, em 1831, foram marcados pelo “terror da capoeira” no Rio de Janeiro. A Bahia não ficava atrás. “Salvador era um barril de pólvora”, conta o antropólogo Oderp Serra. “Os negros fizeram mais de trinta revoluções nesse período. Em toda cidade, é natural que uma enorme massa de excluídos se organize e acabe formando gangues, como os latinos fazem hoje nos Estados Unidos.”

As “maltas” eram bandos de capoeiras que saíam para enfrentar rivais nas datas festivas, diante de bandas militares ou procissões, misturando brincadeira e violência. Os mais perigosos não se expunham tanto, mas eram bons de faca, porrete e navalha. Para o corrupto sistema partidário da época, foi a ferramenta ideal de campanha. Foi assim que os nagoas e os guaiamus, gangues cariocas, se ligaram, respectivamente, ao partido Conservador e ao Liberal, transformando-se no braço armado das disputas políticas do Rio de Janeiro.

Até então, a lei punia a capoeiragem com sentenças de até 300 açoites e o calabouço. O auge da repressão foi em 1890 quando ficou instituída a deportação dos capoeiras do Rio para a ilha de Fernando de Noronha. Na Bahia, as falanges foram desorganizadas pela convocação para a Guerra do Paraguai, em 1864. E as do Recife só acabaram definitivamente em 1912, quando o jogo voltou a ser brincadeira, dando origem ao frevo.

Calça larga e um brinco de ouro

A figura do malandro capoeirista marcou a cultura brasileira do começo deste século. O folclorista Luís da Câmara Cascudo escreveu em 1916 que “o capoeira era um indivíduo desconfiado e sempre prevenido. Andando nos passeios, ao aproximar-se de uma esquina, tomava imediatamente a direção do meio da rua. Havia os capoeiras de profissão, conhecidos logo à primeira vista pela atitude singular do corpo, pelo andar arrevesado, pelas calças de boca larga, ou pantalona, cobrindo toda a parte anterior do pé, pela argolinha de ouro na orelha, como insígnia de força e valentia, e o nunca esquecido chapéu de banda”.

“Na luta, toda a atenção se concentra no olhar dos contendores, pois um golpe imprevisto, um avanço em falso, uma retirada negativa poderiam dar ganho de causa a um dos dois”, afirma Cascudo.

Na capoeira de Angola, vale mais a astúcia do que a força muscular. Seu mais célebre representante foi Vicente Ferreira Pastinha, baiano do Pelourinho, amigo do artista plástico Caribé, personagem do escritor Jorge Amado e dono de uma filosofia peculiar: “Capoeira é tudo o que a boca come”, costumava dizer. “Ele ensinava a capoeira do dia-a-dia. Estava mais para mais religião que para brutalidade”, afirma Jaime Martins dos Santos, o mestre Curió, que treinou com Pastinha desde os oito anos de idade. “Naquele tempo capoeira era coisa de arruaceiros, da malandragem. Escolhi treinar com ele porque era muito organizado e extremamente dedicado ao aluno”.

O método de Pastinha, ensinado regularmente desde 1910, consiste em golpes desferidos quase que em câmara lenta. O capoeirista fica a maior parte do tempo com o corpo arqueado e sua ginga é de braços soltos, relaxados, porque a tática era se fazer de fraco diante do oponente. “Nossos movimentos não têm pressa de chegar mas, quando chegam, é de forma harmoniosa”, explica mestre Moraes, um angoleiro que se formou com mestre João Grande, o discípulo de Pastinha que hoje dá aulas em Nova York, nos Estados Unidos. “É um diálogo de corpos. Eu venço quando meu parceiro não tem mais respostas para as minhas perguntas.”

Como o crime se tornou esporte

De 1890 a 1937, a capoeira foi crime previsto pelo Código Penal da República. Simples exercícios na rua davam até seis meses de prisão. Nesse ambiente hostil, as escolas de capoeiragem sobreviviam clandestinas nos subúrbios. Foi para reverter esse quadro que o baiano Manoel dos Reis Machado, um angoleiro forte e valente conhecido como mestre Bimba, inventou uma nova capoeira. Teve o cuidado de tirar a palavra do nome da academia que fundou em 1932 em Salvador, o Centro de Cultura Física e Luta Regional. Filho de um campeão de batuque, uma espécie de luta-livre comum na Bahia do século XIX, juntou técnicas do boxe e do jiu-jítsu e criou um método de ensino. Para fugir de qualquer pista que lembrasse a origem marginalizada da capoeira, mudou alguns movimentos, eliminou a malícia da postura do capoeirista, colocando-o em pé, criou um código de ética rígido que exigia até higiene, estabeleceu o uniforme branco e se meteu até na vida privada dos alunos. “Para treinar com meu pai era preciso provar que estava trabalhando ou mostrar o boletim do colégio”, conta Demerval dos Santos Machado, conhecido como “Formiga” nas rodas de capoeira e organizador da Fundação mestre Bimba ao lado do irmão, mestre Nenéu.

O resultado é que, a partir daí, a capoeira começou a ganhar alunos da classe média branca e, também, a se dividir. Até hoje angoleiros e regionais criticam-se mutuamente, embora se respeitem. Os primeiros se dizem guardiães da tradição, os outros acham que a capoeira “precisa evoluir”. Com isso, Bimba deu ares atléticos ao jogo e atraiu as mulheres, até então excluídas das rodas. “Meu pai falava de uma capoeira chamada ·Maria Doze Homens·, mas era exceção”, diz Nenéu. Mestre “Curió” confirma: “Dos anos 40 para os 50, poucas mulheres jogavam: “·Nega Didi·, ·Maria Homem·, ·Satanás·, ·Maria Pára o Bonde·, ·Calça Rala·”. Embora seja angoleiro e radical defensor da moda antiga, até Curió admite que só quando a capoeira virou esporte é que as rodas ficaram mistas. Ele mesmo tem uma contra-mestre do sexo feminino: “É a ·Jararaca·”, diz.

O toque dá o ritmo e manda recado

Antigamente não havia música de fundo na capoeira. No máximo, quem estava por perto marcava o ritmo com um tambor. Em seu fabuloso levantamento publicado em 1834, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, Jean-Baptiste Debret deixou claro que os tocadores de berimbau tinham a intenção de chamar a atenção dos fregueses para o comércio dos ambulantes. Um certo Henry Koster (inglês que se radicou em Pernambuco, virou senhor de engenho e passou a ser chamado de Henrique Costa) escreveu em suas anotações de 1816 que, de vez em quando, os escravos pediam licença para dançar em frente à senzala e se divertiam ao som de objetos rudes. Um deles era o atabaque. Outro, “um grande arco com uma corda, tendo uma meia quenga de coco no meio ou uma pequena cabaça, amarrada”. Era um instrumento de percussão trazido da África. A palavra vem do quimbundo, mbirimbau.

O que conhecemos hoje é chamado berimbau-de-barriga porque o músico leva e traz a boca da cabaça até o próprio corpo para alterar o som. Segundo o folclorista Édison Carneiro, foi neste século, e na Bahia, que o instrumento se incorporou ao jogo da capoeira, para marcar o ritmo dos praticantes. O que define um jogo rápido ou lento é o toque, um padrão rítmico-melódico tocado e cantado. Segundo o etnógrafo Waldeloir Rego, existem 25 tipos de toque. Entre os mais tradicionais, de autoria desconhecida, estão o Angola (bem lento, para os capoeiras que gingam pertinho do chão), São Bento Pequeno (ou Angola invertida, para golpes em que os oponentes chegam muito perto um do outro), São Bento Grande (para jogos mais ágeis), Cavalaria (usado nos tempos da proibição do jogo para avisar a chegada da polícia), Amazonas (que saúda um mestre visitante) e Banguela (o mais lento da capoeira regional, usado para acalmar os ânimos dos combatentes). O Iuna é um exemplo de toque instrumental, criado por mestre Bimba para o jogo de capoeiras experientes. A maioria tem letra (veja o quadro ao lado) e muitas vezes quem está cantando aproveita para comentar o jogo, improvisando versos que pedem para baixar a agressividade ou que zombam do capoeirista que não é tão bom quanto dizia.

O bom capoeira é aquele que sabe cair

Os golpes da capoeira se dividem entre traumáticos e desequilibrantes. Entre os primeiros estão os movimentos de ataque que envolvem a cabeça, o joelho e, principalmente, os pés. No segundo grupo se incluem rasteiras e tesouras, cujo objetivo é derrubar o adversário. Em nenhum caso é permitido atacar com as mãos, elas servem exclusivamente de apoio. “É um jogo que no início tende para o exercício anaeróbico, com perda de oxigênio”, explica o professor de educacão física Gladson de Oliveira Silva, instrutor de capoeira na Universidade de São Paulo. “Mas, nos exercícios do treino e no desenrolar da ginga, do ritmo, ele se torna aeróbico, com equilíbrio de oxigênio.”

Segundo o professor, rigorosamente todos os movimentos da capoeira trabalham as articulações, a coluna dorsal e lombar e a maioria dos músculos. Por isso, desenvolve a flexibilidade e a tonicidade. Mas ninguém se torna um Arnold Schwarzeneger fazendo capoeira. “São movimentos de soltura, balanceados, na base da contração e descontração, alternadamente. Ela fortalece sem dar massa muscular.”

É óbvio que já não se ensina a luta com facões e navalhas que os capoeiristas da velha guarda encaixavam entre os dedos do pé. Mesmo assim, é preciso tomar alguns cuidados. “Como em qualquer outra arte marcial, deve-se proteger o tórax e a cabeça. Um pontapé nesses pontos pode ser fatal. Por isso o ensino da capoeira deve dar uma consciência corporal, com noções de distância, desenvolvendo reações rápidas. Como diziam os capoeiras antigos: se precisar cair, tem que cair direito”, diz Gladson.

PARA SABER MAIS

Ensaio Sócio-Etnográfico da Capoeira de Angola, Waldeloir do Rego, Itapuã, Salvador, 1968. Capoeira, do engenho à universidade, Gladson de Oliveira Silva, Cepeusp, São Paulo, 1995.

A negrada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro, Carlos Eugênio Líbano Soares, Secretaria Municipal de Cultura, Rio de Janeiro, 1994.

Capoeira Angola, CD do selo Smithsonian/Folkways Records, Washington, 1996.



De um jeito ou de outro, a tradição fez escola
A capoeira começou a ser ensinada regularmente nos anos 30 e já naquela época estava dividida em duas vertentes. A de Angola, nome que homenageia as tradições dos escravos angolanos, e a Regional, chamada assim por ter nascido na região da Bahia. Veja como identificar as diferenças entre elas.

A manha dos angoleiros

Clima solene
No chamado jogo de Angola os capoeiristas ficam agachados, quietos, esperando sua vez de jogar.

O chão é o limite
Os movimentos dos angoleiros são mais lentos, aparentemente displicentes, rentes ao solo.

Orquestra afinada
Este estilo utiliza uma bateria de três berimbaus, dois pandeiros, um atabaque, um reco-reco e um agogô.

O vigor dos regionais

Roda alegre
Aqui os capoeiras aguardam sua vez em pé, batendo palmas ao ritmo da música.

Soltos no ar
Os regionais mantêm o corpo mais ereto e desferem golpes mais velozes, com maior quantidade de saltos.

Som minimalista
O fundo musical deste estilo precisa apenas de um berimbau e dois pandeiros.

No batizado, o capoeirista ganha apelido
O capoeira sempre é chamado por um apelido que lhe é dado na roda. Foi assim que ficaram famosos os mestres João Grande, João Pequeno, Cobrinha Verde, Camisa e Canjiquinha. Esse nome de guerra geralmente é dado na ocasião do batizado, momento em que o aspirante jogará pra valer pela primeira vez. Segundo Aristeu Oliveira dos Santos, o paranaense Mestrinho, a ocasião serve para testar os conhecimentos de quem está sendo batizado. O ritual foi inventado por Mestre Bimba para marcar o fim da etapa de iniciação. Na época, o criador da capoeira Regional entregava um lenço ao seu discípulo, baseado no costume dos antigos valentões de Salvador que protegiam o pescoço com um pedaço de seda para que a navalha do inimigo escorregasse. Esse costume, influenciado pelas faixas coloridas das artes marciais orientais, inspirou os cordéis da capoeira. Os ortodoxos não aceitam o sistema de graduação. Acreditam que alguém só pode ser chamado de mestre quando sua vocação de educador e sua sabedoria de conselhelro, além da habilidade, “aparecem naturalmente”. Mas muitas academias adotaram o sistema hierárquico montado pela Confederação Brasileira de Capoeira, com a combinação das cores da bandeira do Brasil.

Pistas de que a ginga cresceu na cidade
Em 1830 o pintor alemão Johann Moritz Rugendas desenhou uma cena chamada Capoeira que dá várias pistas sobre a evolução do jogo. O cenário 1. e a presença de vendedores ambulantes 2. indica que estamos na cidade. Há dois combatentes 3. em movimento, armando seus golpes. Além de um tambor 4. marcando o ritmo, forma-se uma roda em torno dos capoeiras 5., que ao mesmo tempo é um escudo protetor dos olhos da polícia e delimita o terreno onde o jogo deve acontecer.

Festejos que vieram da luta
A vocação da capoeira para a brincadeira aparece em três outras formas de folguedos ligados a ela pela origem das danças africanas. O samba de roda 1., que se forma na mesma estrutura da capoeiragem e usa seqüências musicais parecidas. O maculelê 2. também é praticado no meio de uma roda, com os oponentes batendo bastões de madeira. O frevo 3. nasceu quando a polícia pernambucana desbaratou as gangues de capoeiras que chutavam e abriam caminho para as bandas militares, furando o bumbo dos outros com o que viria a se tornar a sombrinha do carnaval de Recife.

A mistura dos grupos africanos
Os escravos negros começaram a ser desembarcados no Brasil por volta de 1548 e, nos três séculos seguintes, seriam predominantemente do tronco linguístico banto, do qual faz parte a língua quimbundo. Esse grupo englobava angolas, benguelas, moçambiques, cabindas e congos. “Eram povos de pequenos reinos, com um razoável domínio de técnicas agrícolas e cuja grande característica era possuir uma visão muito plástica e imaginosa da vida, com grande capacidade de adaptação cultural”, explica o antropólogo Oderp Serra. “No Brasil, esses grupos étnicos, antes rivais, se uniram pela escravidão formando uma cultura africana que plantou bases muito fortes na cultura brasileira, de dança, música e técnicas de corpo como a capoeira.”

Descriminalização por decreto presidencial

Depois de ver uma exibição de capoeira no Rio de Janeiro, em 1937, o presidente Getúlio Vargas descriminalizou-a e decretou ser aquele o “esporte autenticamente brasileiro”. Até então, os capoeiristas podiam pegar de dois meses a três anos de prisão, com pena de deportação no caso de estrangeiros.

Entenda como se comunicam os camaradas
A linguagem dos capoeiras é cheia de gírias e códigos. “Esquenta-banho” era a senha que mestre Bimba dava a seus alunos para um jogo rápido, apressado. A expressão nasceu após as aulas, quando Bimba obrigava os alunos a tomar um banho frio, ligeiro, porque a caixa d·água da academia era pequena. Veja outros casos:

Abadá – Uniforme branco. Também é o estilo criado por mestre Camisa, do Rio de Janeiro. Era o nome que se dava ao blusão rústico usado pelos escravos.
Adufe – Pandeiro quadrado, usado há mais de cem anos. A palavra vem do árabe ad-duff.
Camará – Uma corruptela de camarada, companheiro, parceiro de jogo e de roda.
Crocodilagem – Jogo duro que submete o capoeira a uma situação de inferioridade ou deslealdade.
Comprar o jogo – Pedir para substituir um dos capoeiras que estão no centro da roda.
Galopantes – Tapas, gestos proibidos nos treinos e na capoeira de competição.
Ginga, gingado – Balanço do corpo de um lado para o outro, ritmado, que imprime cadência ao jogo. Alguns estudiosos acham que é uma influência dos marinheiros que conviviam com capoeiras nos portos, pois a palavra também diz respeito ao movimento do remo.
Mandingueiro – Capoeirista angoleiro, cheio de truques, que joga com malícia, enganando o adversário. Originalmente a palavra se refere a um grupo de negros africanos feiticeiros.
Negaças – Sucessão de movimentos para experimentar a guarda do oponente.
Ticum – Faca de madeira.
Vadiar – Jogar capoeira por prazer, por divertimento. Na época da escravidão, a vadiação era o lazer das horas de descanso.

Os segredos do instrumento que gemia na senzala
Trazido da África pelos angolanos, o berimbau se tornou a grande estrela da roda de capoeira. Sem ele ninguém ginga, ninguém joga.

Efeitos especiais
O caxixi é uma pequena cesta de palha, com fundo de couro, usada como chocalho. Tem de 10 a 15 centímetros de altura, cerca de 6 centímetros de diâmetro na base e um recheio de sementes, pedrinhas ou pequenos búzios. O dobrão, nome tomado da moeda de 40 réis, é uma peça de cobre com aproximadamente 5 centímetros de diâmetro. E a baqueta, ou vaqueta, é uma vara de madeira com cerca de 40 centímetros de comprimento.

Caixa acústica
A cabaça é a caixa de ressonância. Feita com o fruto da cabaceira, árvore comum no Norte e no Nordeste, pode ser oval (o coité) ou ter duas esferas ligadas. Depois de seca e cortada, tiram-se as sementes antes de ser lixada.

Do cipó ao aço
A corda já foi um cipó, um fio de latão, um arame de cerca e, mais recentemente, fios de aço retirados de pneus. O mais comum, hoje, é usar o aço vendido em carretéis.

Firme e forte
O arco vem do caule da biriba, arbusto comum no Nordeste, cuja madeira é fácil de envergar. A casca se solta facilmente, como a da mandioca. Para conservar melhor, depois de lixá-lo alguns mestres passam sebo de boi, envernizam ou pintam.

É obrigatório saber tocar e cantar
Entre os cânticos entoados na capoeira há uma ladainha, espécie de oração que abre a roda, e o “corrido”, tipo de samba sem refrão, com imagens do cotidiano. Todo capoeira deve aprender a tocá-los e cantá-los. Veja alguns exemplos.

Ladainha cantada por mestre João Pequeno, angoleiro discípulo de mestre Pastinha:

“Iê, quando eu cheguei aqui
Quando eu aqui cheguei
A todos eu vim louvar
Vim louvar a Deus primeiro
Morador deste lugar
Agora eu tô cantando
Cantando pra mim louvou
Tô louvando a Jesus Cristo
Tô louvando a Jesus Cristo
Porque nos abençoô
Tô louvando e tô rogando
Ao Pai que nos criou
Abençoe esta cidade
Abençoe esta cidade
Com todos seus moradores
E na roda de capoeira
Abençoe os jogadores
Camaradinho,

É mandingueiro!

Iê, é mandingueiro, camará!

Corrido cantado por mestre Bimba na capoeira Regional:

“Capenga ontem teve aqui
Capenga ontem teve aqui
Deu dois mil réis a papai
Deu três mil réis a mamãe
Café e açúcar a vovó
Deu dois vinténs a mim
Sim Senhor, meu camarada
Quando eu entrar, você entra
Quando eu sair, você sai
Passar bem, passar mal
Mas tudo no mundo é passar!
Água de beber
Iê, água de beber, camará
Vou dizer a meu senhor
Que a manteiga derramou
Olha a manteiga do patrão
Mas caiu n·água e se molhou

Quem se defende já prepara o ataque

Aú e cabeçada
Enquanto um capoeira avança com a cabeça, o outro desvia fazendo o aú, movimento parecido com a estrela da ginástica de solo.

Balão de lado
Outro golpe regional: um capoeira joga o outro para atrás num movimento lateral, agarrado à sua cintura. Também é chamado de cintura desprezada.

Bênção e negativa
O primeiro é um golpe aplicado com o calcanhar, de frente. A defesa é feita com apoio das mãos, uma perna esticada e a outra flexionada.

Martelo e rasteira
O ataque é feito com um giro da perna para atingir o adversário com o peito do pé. Na defesa, o capoeira se abaixa e prepara o desequilíbrio de quem ataca.

Ginga
O balanço do corpo para a direita e para a esquerda, e de trás para a frente, faz os capoeiras se prepararem para os golpes.

Tesoura de costas
O capoeira que se abaixou para se defender cruza as pernas em torno de uma perna de quem ataca, enquanto está de costas para o adversário.

Arqueado
Típico da capoeira Regional, neste movimento um capoeira joga o outro para trás apoiando-se em seus dois joelhos.

Cocorinha
A melhor defesa contra a meia-lua de compasso é a cocorinha. Nela o oponente se agacha, levanta o braço para proteger o rosto e apoia a outra mão no chão. Da cocorinha, o defensor pode passar a atacante executando, por exemplo, uma cabeçada (veja na página anterior).

Fonte: Super Interessante

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Jogo Aberto: Conversas sobre a Capoeira Angola de Recife e Olinda

Vídeo-registro sobre a Capoeira Angola será lançado em novembro

Temas de relevância histórica, social e cultural permeiam a produção audiovisual

A Capoeira Angola no Estado e a relação entre a Capoeira e a Mulher, o Corpo, a Dança e Autonomia, enquanto princípio educacional, são temas relevantes para a história cultural de Pernambuco e ganharam registro audiovisual em “Jogo aberto: Conversas sobre a Capoeira Angola do Recife e de Olinda.”, um projeto realizado pela professora mestre Gabriela Santana em colaboração com 12 mestres (as) e professores (as) de Capoeira do Recife e Olinda. “Jogo Aberto..” será lançado oficialmente nos dias 12 e 26 de novembro, respectivamente, às 10h e às 19h, no Museu do Homem do Nordeste e no Centro Cultural Grupo Bongar e no Terreiro Xambá.

Leia mais na fonte abaixo...

Fonte: Portal Capoeira

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Como surgiu o berimbau?

A origem se perde nos milênios, já que o instrumento nada mais é que um modelo de arco, um dos primeiros instrumentos usados pelo homem para produzir sons.
Sua origem se perde na poeira dos milênios, porque o instrumento nada mais é que um modelo de arco, um dos primeiros instrumentos usados pelo homem para produzir sons, há quase 20 mil anos. A grande dúvida dos estudiosos, até hoje sem resposta, é se foi o arco usado para atirar flechas que deu origem ao arco musical – tataravô do berimbau – ou se ocorreu o contrário. Seja como for, o instrumento ganhou a forma que tem hoje entre as antigas tribos nativas africanas. Tudo indica que ele teria chegado ao Brasil já em 1538, junto com os primeiros escravos. Aqui, ele passou a ser identificado como elemento típico da capoeira. “O berimbau é a alma dessa mistura de dança e arte marcial, definindo tanto os movimentos quanto o ritmo”, afirma a historiadora Rosângela Costa Araújo, doutoranda na USP e fundadora do Grupo Nzinga de capoeira-angola. Isso não significa, porém, que seu som hipnótico se mantenha restrito às rodas de luta.

Na África, ele marca presença como acompanhamento musical de rituais fúnebres – e no Brasil também foi usado, no século XIX, por escravos recém-libertados para atrair compradores para os doces que vendiam nas ruas. Apesar do jeitão de objeto improvisado, o berimbau é um instrumento sofisticado, capaz de emitir várias sonoridades. Numa roda de capoeira autêntica, ele costuma aparecer em trio, cada um com um diferente tamanho de cabaça (sua caixa de ressonância). Quanto maior ela for, mais grave é o som.

Percussão sofisticada
Para tocar berimbau é preciso dominar seus sete componentes

Baqueta
A vareta de madeira, que mede entre 30 e 40 cm, é batida contra a corda para emitir o som

Dobrão
Normalmente é uma moeda velha – mas há quem use uma pedra em seu lugar. Ela é segurada entre o polegar e o indicador da mão esquerda e faz variar as notas emitidas pelo berimbau, dependendo da pressão que faz na corda

Cabaça
O fruto seco e limpo da cabaceira (árvore comum no norte do Brasil) tem o formato de uma cuia e funciona como caixa de ressonância

Verga
O arco, com cerca de 1,60 m de comprimento, é feito geralmente do caule de um arbusto chamado biriba, comum no Nordeste

Corda
O fio de arame de aço bem esticado costuma ser arrancado de pneus radiais

Amarração da cabaça
O barbante que prende a cabaça à verga ajuda a passar para ela o som emitido pela corda

Caxixi
O pequeno chocalho (com pedrinhas, sementes ou búzios) reforça a marcação do ritmo

Fonte: Mundo Estranho

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Bimba foi "Angoleiro"?

Detalhe ampliado da fotografia de Mestre Bimba "jogando" capoeira com Asclépios Ferrer, no início dos anos 30, encontrada à página 19 do livro "Mestre Bimba, a crônica da capoeiragem" de Jair Moura (Salvador, 1991).
Observar a descontração, a postura em meia-guarda (muzenza), a face zombeteira, sorridente, o balanço do tronco, os ombros soltos, com braços relaxados, punhos fletidos, mãos em concha. Membros superiores em movimento de varredura protegendo a cabeça e o ventre, equilíbrio centralizado na cintura.
Posição de animal semi-agachado, prestes ao ataque, fuga ou salto; compatível com número imprevisível de movimentos, rápidos e velozes; esquiva, cabeçada, giros, ataques usando membros superiores ou inferiores.
Foto exibindo a semelhança, entre os movimentos do estilo ensinado pelo Mestre Bimba até os anos 40, com o "jogo de capoeira", "vadiação" ou "brincadeira"; que alguns preferem chamar de capoeira tradicional; a matriz dos estilos chamados de Angola pelo Mestre Pastinha e de Regional pelos seguidores de Mestre Bimba.

Fonte: Capoeira da Bahia

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Lofting Dance

Alguns dançarinos de house também se utilizam de um estilo de dança chamado Lofting, uma mistura de Capoeira Angola com movimentos de solo do Jazz. Todavia, apesar de oferecer mais elementos à dança, o lofting não é obrigatório para se dançar a house dance. O Lofting era dançado antes do house dance nas festas do DJ Mancuso chamada The Lofting no Paradise Garage.

Fonte: Wikipédia & YouTube

sexta-feira, 15 de julho de 2016

As bravuras de se contar histórias sobre Besouro Preto - Lobisomem

O autor do Livro "Histórias e Bravuras de Besouro O Valente Capoeira", escreveu com exclusividade para o Portal Capoeira e nos contou como foi sua inspiração e o processo de elaboração do Cordel.

Victor Alvim conhecido como "Lobisomem" nos enviou também algumas fotos do Lançamento do Livro em Salvador e no Rio.

As bravuras de se contar histórias sobre Besouro Preto.

Por Victor Alvim "Lobisomem"

DOWNLOAD AQUI!

Fonte: Portal Capoeira

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Entrevista com Mestre João Grande - 2004

Entrevista do Mestre João Grande ao Repórter Abelha (Poloca), realizada na. quarta-feira, 01 de setembro de 2004, em Ponta de Areia/ Itaparica.

Fonte: Portal Capoeira

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Besouro Mangangá - Adora Roda



Música: Besouro Mangangá
Compositor: Vinícius de Oliveira
Interpretação: Adora Roda

Besouro mangangá
Herói de um povo guerreiro
Zum zum zum zum zum zum
Capoeira mata um
Besouro cordão de ouro
Que por amor enfrentou o seu senhor
Senhor de quê? Senhor de quem?
Senhor de nada
Chorava, rezava
Tem poder sua guia
Sua perna parece um facão
Nego avoa que nem avião
Mizifi tem proteção
Besouro cordão de ouro
O martelo rodado é fatal
Seu olhar parece um punhal
Queima cana e corta bambuzal
Da África filho ancestral

Fonte: Biblioteca da Capoeira

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Capoeiragem, Guarda Negra & O fuzilamento do dia 17 - Parte III

Apresentamos mais informações sobre Guarda Negra e a Capoeiragem

Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 53 - de 11/dez a 17/dez de 2005

São Luis do Maranhão-MA
Novembro de 2005


"...o Brasil foi o último país a abolir a mão de obra escrava, criou e sustentou uma série de ambiguidades em seu discurso racial, como vemos em relação à chamada Guarda-Negra - um símbolo da integração negra ao contexto da luta abolicionista que, ao mesmo tempo, se torna um culto ao imperialismo e se torna uma ameaça ao debate democrático do próprio racismo..".(Reginaldo da Silveira Costa (Mestre Squisito)[1]

Os movimentos pela abolição da escravatura são iniciados a partir de alguns eventos ocorridos: a cessação do tráfico negreiro da África, em 1850; a volta vitoriosa de negros da Guerra do Paraguai, que se estendeu de 1865 a 1870, a promulgação da Lei do Ventre Livre; a criação da Sociedade Brasileira contra a Escravidão (tendo José do Patrocínio e Joaquim Nabuco como fundadores); a Lei Saraiva-Cotegipe (mais popularmente conhecida como a Lei dos Sexagenários).

Dois conceitos históricos são entendidos por abolição da escravatura: o conjunto de manobras sociais empreendidas entre o período de 1870 a 1888 em prol da libertação dos escravos, e a própria promulgação da Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel, que promove a oficialização da abolição do regime.
"As mudanças ocorridas afetavam diretamente a economia de produção neste período do Brasil. Os negros chegaram a participar da luta anti-escravista e muitos deles, perseguidos por seus atos insurrecionais ou mesmo fugindo do jugo escravista, reuniam-se em povoados como os quilombos. Após as medidas oficiais anti-escravistas determinadas pela Lei Áurea, os senhores escravistas, insatisfeitos com a nova realidade, intencionavam exigir indenizações pelos escravos libertos, não obtendo nenhum aval do Império. Desta forma, surgiram os movimentos republicanos, que foram engrossados com a participação dos mesmos senhores que eram antigos detentores da "mercadoria escrava" e que, descontentes com as atitudes do Império, acabaram por defender um novo sistema de governo, decorrendo daí um dos principais motivos da derrocada final do Império. Por outro lado, a mão de obra proveniente das novas correntes imigratórias passa a ser empregada. Os negros, por um lado libertos, não possuíam instrução educacional ou a especialização profissional que passa a ser exigida, decorrendo destes aspectos a permanência dos negros à margem da sociedade frente à falta de oportunidades a eles oferecidas. A liberdade dada aos negros anteriormente escravizados é relativa: embora não mais escravizados, nenhuma estrutura que garantisse a ascensão social ou a cidadania dos negros foi oferecida. [2]
Nesse contexto, a Guarda Negra foi formada por José do Patrocínio em 28 de setembro de 1888, como um movimento paramilitar, composto por negros, que tinha passagem pelo Exército e com habilidade em capoeira. O objetivo dele era demonstrar gratidão à família real pela abolição e intimidar republicanos e tumultuar os comícios. A ação da Guarda Negra travava batalhas com os partidários do fim da Republica, sendo classificados como terroristas. Antônio Jardim, advogado abolicionista, chega a realizar suas palestras e comícios em posse de um revolver atento a ação dos capoeiristas da Guarda Negra.[3]

Muito embora Patrocínio, em virtude da Lei Áurea, seja identificado como monarquista e formado a Guarda Negra para defender a Princesa Isabel, aderiu às ideias republicanas, conforme informa Sérgio Cavalcante, em " A Maçonaria e Proclamação da República":
"Precisavam de um lugar para essa agitação. Procuraram um vereador para ver se era possível usar a Câmara... Paradoxalmente, procuraram o monarquista negro José do Patrocínio, detestado pelos republicanos, devido a suas ligações com a Guarda Negra. Estranhamente, Patrocínio havia aderido à República naquele dia e, na condição de mais moço vereador(conforme a regra exigia), convocou uma sessão na Câmara."[4]
O jornalista Renato Pompeu, em "Confissões de um trirracial", afirma saber que:
"... a República foi proclamada porque o Império, ao proclamar a Abolição, ficou comprometido com o futuro dos negros recém-libertados, como prova o fato de que só guarnições militares compostas de negros, como a Guarda Negra da Princesa Isabel, resistiram ao golpe de Estado de 15 de novembro de 1889. O regime republicano, assim, nasceu, e continua, sem nenhum compromisso maior com as pessoas de pele mais escura."[5]
O que sabemos até agora?
  • que capoeiras foram combatidos desde a chegada da família imperial ao Brasil em 1808;
  • que capoeiras sempre foram arregimentados para "lutaram" ao lado de alguma facção política - isso, desde o Império.
  • que negros foram recrutados para lutarem na Guerra do Paraguai, muitos pela sua habilidade de luta corporal - capoeiras.
  • que ao voltarem, muitos como heróis, não tiveram seus esforços reconhecidos e continuaram como cidadãos de segunda classe, ou sem classe alguma - ainda eram a escória do reino.
  • que grupos foram formados - maltas - e que esses grupos se enfrentavam entre si, pela posse de um território na cidade; que essa rixa entre capoeiras foi aproveitada, com a contratação de uma e outra, por partidos políticos, para dar surras nos adversários e impedir realização de comícios.
  • que por ocasião da Abolição, e em gratidão à Princesa imperial, abolicionistas - José do Patrocínio - cria um corpo paramilitar, recrutando capoeiras com alguma experiência no Exército, o qual foi denominado de Guarda Negra.
  • a criação dessa Guarda Negra uniu as diversas maltas, que passaram a atacar os republicados e a defender a monarquia - a herdeira do trono brasileiro, Princesa Isabel.
  • por essas ações, cada vez mais violentas, houve perseguição aos negros, em sua maioria capoeiras, e ligados a guarda negra, provocando sua marginalização, quando do advento da República, e a consequente criminalização do ato de praticar capoeira... (Logo após a Proclamação da República (1889), a capoeira foi proibida pelo Marechal Deodoro, permanecendo nessa situação até 1937 quando Mestre Bimba a tira do código penal e a leva a esporte nacional).
Em São Luís do Maranhão, encontramos um episódio relacionado com a participação dos negros no processo de combate à República recém proclamada. Foi denominado de "o fuzilamento do dia 17", e ocorreu com uma manifestação de escravos, recém-libertos, contra Paula Duarte, o único republicano no novo governo, conforme informa Mario Meireles, e isso porque se dizia que o novo regime vinha para tornar sem efeito a Lei Áurea. Os manifestantes foram à redação de "O Globo", jornal republicano, e tentaram o empastelar. A polícia interveio, dispersando-os. Na boca do povo, e naquelas circunstâncias, teria ocorrido um massacre - os fuzilamentos do dia 17. (Meireles, Mário. História do Maranhão. 2 ed. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, 1980, p. 307).

Barbosa de Godois assim relata aqueles acontecimentos:
"A" surpresa com que no Maranhão foi recebida a noticia da revolução de 15 de Novembro succedeo a adhesão de ambas as parcialidades políticas ao regime que se instituía... Feita abstração d´um grupoi de libertos pela lei de 13 de maio que, imbuídos da idéagrosseira de que a republica viera para reduzil-os novamente ao captiveiro e no dia 17 percorreram desarmados algumas ruas, hasteando a bandeira imperial e dando vivas à princesa Isabel, nenhuma outra manifestação em contrario à nova instituição surgio em toda a província."Esse grupo, porém, que viera por vezes á frente da officina do jornal "Globo", na rua 28 de Julho, canto da dos Barqueiros, vociferava ameaças contra o redactor d´esse diário, o chefe republicado Dr. Francisco de Paula Belfort Duarte,debandou ás primeiras descargas d´um pequeno contingente, postado perto do edifício da mesma officina, para pol-a á salvo de qualquer aggressão...Ainda n´essa data não estava proclamada a adhesão d aprovíncia á forma republicana, o que só se realisou no dia 18 de Novembro." (BARBOSA DE GODOIS, Antonio Baptista. Historia do Maranhão. São Luís: Mar. Typ. De Ramos d´Almeida & C., Suces., 1904, tomo II, p. 539-540.)
Note-se que a obra de Barbosa de Godois é de 1904. Os acontecimentos ainda eram recentes. E não faz nenhuma referência a uma "guarda negra" formada por libertos, para defender a monarquia ... Será que houve, mesmo, guarda negra no Maranhão? Conforme se referem Carlos Eugênio L. Soares e Flávio Gomes?

Milson Coutinho, ao descrever os acontecimentos daquele dia 17 de Novembro - Maranhão, 1889: fuzilamentos e torturas na alvorada da república - afirma que, após ler e reler inúmeros autores que se referiram aos fatos do dia 17 - Jerônimo de Viveiros e Mário Meireles - "provocaram, no autor deste estudo, um grande desejo de examinar, à luz da documentação da época, a origem desses distúrbios, sua ocorrência, amplitude e conseqüências" (p. 16). (COUTINHO, Milson. Subsídios para a História do Maranhão. São Luís: SIOGE, 1978).

Para Coutinho, as origens dos distúrbios provocados principalmente por ex-escravos, no Maranhão, com o advento da proclamação do regime republicado, tiveram origem em boatos que circularam por toda a cidade segundo o qual o regime recém-implantado iria revogar a Lei Áurea sancionada pela Princesa Isabel e os pretos teriam que voltar à condição de cativos. Esses boatos partiam dos sebastianistas, isto é, dos saudosos do monarquismo agonizante, e, mentira ou não, calaram fundo no espírito dos negros, que jamais poderiam aceitar a volta ao tronco, ao chicote do feitor, ao trabalho forçado.

Não foi possível apurar o cabeça do movimento, informa Coutinho, nem nos livros de história e nem nas pesquisas que empreendeu. Nem mesmo a polícia, naquela época, deslindou a sedição contra o jornalista Paula Duarte, talvez porque, convenientemente elucidado o fato, "esboroassem seus resultados nos costados d´algum ex-barão do Império, já devidamente engastado no novo regime." (p. 17).

O estopim, ao que parece, foi uma conferência na Câmara Municipal, que seria proferida por Paula Duarte, em que falaria sobre o novo regime doutrinando sobre matéria republicana. O povo da cidade fora convidado, através de comunicação do dr. Sá Valle.
"Grossa multidão formada em sua maioria por pardos e ex-escravos se acercou da redação do jornal de Paula Duarte, em atitude hostil, haja vista a gritaria, algazarra e berreiro próprios a esse tipo de manifestação."Pessoas gradas intervierem, pedindo aos manifestantes que dissolvessem o aparato popular, enquanto Paula Duarte, acuado no prédio de sua tipografia, dali não pode se retirar, escoando-se, consequentemente, a hora marcada para a que pronunciasse a sua conferência."O grupo, cada vê mais reforçado, e sempre no maior alarido, retirou-se de frente da redação d´O Globo, passando a percorrer as ruas de São Luís dando vivas à Monarquia." (p. 18)
Prossegue Coutinho o seu relato, informando que a turba passou em frente à casa do Desembargador Tito de Matos, ainda respondendo pelo Governo da Província: "...estancou a passeata, com a finalidade de cumprimentar o Magistrado, derradeiro lampejo da Monarquia deposta e última esperança da malta enfurecida". (p. 18-19).

Malta enfurecida? Coutinho a teria usada em que sentido? De identificar os manifestantes com as maltas de capoeira que agiam no Rio de Janeiro, dando vivas à monarquia e contra o novo regime? No-lo sabemos ...

Prosseguindo, O Desembargador pediu as massas que aguardassem a ordem, dissolvessem a passeata. Esses acontecimentos se deram pela manhã. Os espíritos serenaram e a tranquilidade pública volveu à Capital. Mas...
"...por volta das 15 horas do dia 17 os ânimos voltaram a se reacender, com novos grupos de anarquistas a percorrer as ruas e praças da capital, estocando todos os segmentos da balbúrdia em frente ao jornal de Paula Duarte, desaguadouro do contingente de alucinados que para ali convergiam, provindos de quantos becos se contassem, isto já em profusa massa humana."O Comandante do 5º. Batalhão de Infantaria destacou, para o local uma força devidamente embalada, tropa essa que se postou em frente à tipografia de Paula Duarte, a partir das 16 horas, a fim de garantir a segurança do jornalista e evitar a depredação do edifício.".(p. 19, grifos meus).
Os revoltosos debandaram, proferindo gestos coléricos e invulgar alacridade, e assim se passou o resto da tarde, sem outras consequências que não o clima de total intranquilidade reinante.
"Os relógios assinalavam pouco mais das 19 horas, quando a multidão enfurecida e com muitos de seus componentes já armados voltou à carga para tirar a prova de fogo"Iniciou-se a fuzilaria, de que resultou a morte imediata de três manifestantes, ferimentos em 11 outros, lesões em vários soldados, cabo e sargento do destacamento, vindo a morrer depois, na Santa casa, um dos sediciosos ferido por balaço da tropa." (p. 20).
Nenhuma palavra sobre uma Guarda Negra ... nem no relatório do suboficial que ordenou o fogo...

Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação

[1] In http://bahia.port5.com/terreiro/racial.html
[2] In http://www.algosobre.com.br/ler.asp?conteudo=206
[3] In http://negro.www.marconegro.blogspot.com/
[4] In http://www.salmo133.org/sal/Htm_Div/HinoProclamacaoRepublica BR_SergioCavalcante.htm
[5] In http://carosamigos.terra.com.br/outras_edicoes/edicoes_especiais/eleicoes/renato_pompeu.asp

Fonte: Jornal do Capoeira

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Capoeiragem, Guarda Negra & ISABELISMO - Parte II

Nesta crônica o autor apresenta mais algumas informações sobre a Capoeiragem e a Guarda Negra, tendo-se como enfoque desta semana o "ISABELISMO".


Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 53 - de 11/dez a 17/dez de 2005

São Luis do Maranhão-MA
Novembro de 2005

José do Patrocínio foi o mais fervoroso adepto do isabelismo, e procurou aliciar libertos para defender a monarquia ameaçada pela onda republicana que crescera após a Abolição. Não satisfeito em beijar os pés da Redentora, José do Patrocínio inicia a arregimentação de ex-escravos, capoeiras e marginais de um modo geral, para fundar a Guarda Negra. Esse ajuntamento tinha como finalidade impedir a propaganda republicana, inclusive com a tarefa de dissolver comícios pela violência.

Essa posição dos elementos aliciados por José do Patrocínio deu muito trabalho às autoridades e impediu, em muitos casos, que os adversários da monarquia se manifestassem. Os seus membros conseguiram dissolver muitos comícios republicanos através da violência.

Segundo registra a crônica da época, houve mesmo mortes em comícios republicanos pelas quais a Guarda Negra foi responsabilizada. Osvaldo Orico, biógrafo de José do Patrocínio, assim descreve a situação:
"Incompreensível por um lado, mas explicável por outro, essa famigerada Guarda Negra tivera um inspirador. Não fora outro senão José do Patrocínio. O fanatismo abrira-lhe na alma a ilusão desse recurso com que imaginava cercar de garantias o prestígio da Redentora de sua raça. Foi a gratidão que o moveu a provocar e a sugerir um movimento de solidariedade dos libertos para com a padroeira inesquecível. E, ao toque de reunir, acorreram de todo lado os antigos sentenciados do cativeiro, ansiosos de oferecer com a força material do peito aberto a flor do seu reconhecimento heróico. Os acontecimentos registrados na capital e no interior, durante a fase em que se fez sentir a influência da Guarda Negra e se apelou para a sua incontida violência, mostraram como fora infeliz a idéia de arregimentar no antigo holocausto das senzalas a força que deveria guardar o Trono. Inaugurou-se uma época de terror que deu à nação enormes prejuízos em dinheiro e em vidas. Onde quer que brilhasse a centelha da luz republicana, surgia aí o conflito das raças, desencadeado pela fúria dos libertos em louvor à rainha. E amiudaram-se os atentados e morticínios. Na rua do Passeio; em frente à Secretaria de justiça; em dias de março de 89, durante a agitação popular que a febre amarela e a falta de água provocaram, a Guarda Negra deixou indícios de sua lamentável influência." [1].
Noel Nascimento, em ARCABUZES, assim relata os acontecimentos daqueles dias:
        "Xandô espantou-se e perguntou:
        - Que guerra?
        - Tu não sabes? Essa do fim da monarquia. Não sabes que está pipocando Brasil afora? Donde vens, então? Tem motim em toda parte, no Sul, no Norte. Eu vi brigas de grupos armados. Nas ruas do Ouvidor, do Teatro, de Luís de Camões e na Travessa do Rosário a cavalaria dispersou o povo a pranchadas. Houve mais de duzentos feridos. Não sabes que quase mataram o doutor Silva Jardim à saída da Sociedade Francesa de Ginástica?
        Ao almoçarem na mesa grande do refeitório, comentavam:
        - A guarda negra persegue os que mais lutaram contra a escravidão.
        - Ainda há quem defenda a monarquia por causa da Princesa Isabel. Não viram a multidão que se formou no dia treze de maio?
        - O pobre quer o direito do eleitor, até o negro deve ter o direito de votar.
        O funcionário que falou foi interpelado pelo estudante de medicina, o qual procurou esclarecê-lo:
        - Até os negros por quê? Eles em primeiro lugar, pois construíram o Brasil. Sabes? - prosseguiu- os falsos abolicionistas é que, como alguns escritores, julgam o negro inferior. São uns racistas.
        - Muito bem falado - aplaudiu o português que acabara de consertar uma das poltronas, português abrasileirado e não da casta dos galegos.
        O mesmo pensionista indagou de Xandô:
        - Tu não sabias que na Bahia, em Ilhéus, bandidos tomaram a cidade, arrombando casas comerciais, aterrorizando a população? O império está em ruínas - concluiu convicto.".[2]
Ainda segundo Osvaldo Orico, a Guarda Negra agiu com violência contra os republicanos, nas cidades de Campos e Lage do Murié,:
"Na primeira localidade em uma reunião republicana que se processava pacificamente, massa enorme de policiais e libertos abertos armados invadiu o edifício em que se realizava um banquete democrático, alarmou as senhoras, desrespeitou com ameaças a intervenção amistosa do pároco, que suplicava das janelas do templo ordem e clemência, disparou tiros, arremessou garrafas, espancou e feriu, tudo isto para levantar entre acompanhamentos bélicos vivas e saudações à rainha.
"Na segunda, a polícia, após uma série de distúrbios, prendeu no tronco um honrado cidadão por suspeita de ideais republicanos." [3]
Natal também teve a sua Guarda Negra. Criação do Partido Conservador e instrumento de combate às idéias republicanas. Segundo os conservadores, os negros, por gratidão deveriam defender a monarquia. Em Natal, a Guarda Negra recebeu o nome de Clube da Guarda Negra. O seu presidente foi Malaquias Maciel Pinheiro. Instalada a 10 de fevereiro de 1889, com muita festa, essa organização, na apuração de Câmara Cascudo, nada fez de bom ou mal.[4]

A Guarda Negra era um movimento contraditório e confuso. Apoiava a monarquia porque os escravos conseguiram libertar-se do cativeiro através da magnanimidade da princesa Isabel. Via a Abolição como um ato de munificência social praticado pela regente, sem analisar as estratégias ocultas nessa medida e as consequências negativas que a Abolição traria, feita da forma inconclusa como o foi.

Por outro lado, deixaram de pressionar os republicanos, especialmente os mais democratas, como Silva Jardim, no sentido de radicalizar o seu programa, exigindo reformas sociais e econômicas estruturais, como a distribuição da terra aos ex-escravos. Foi, portanto, um movimento conjuntural e reacionário, e o próprio José do Patrocínio, ao ver proclamada a República, foi um dos primeiros a aderir ao novo regime. Com isto, a Guarda Negra se desarticulou completamente logo depois da proclamação da República, vindo a desaparecer sem maiores consequências.

Nesse período de transição, os negros recém-saídos da escravidão passaram a se organizar de várias formas alternativas, especialmente em grupos de lazer, culturais ou esportivos. Por outro lado, levando-se em consideração a forma como a Abolição foi feita, descartando-os da participação naquelas reformas estruturais que as mudanças do momento estavam a exigir, as reminiscências do sistema escravista e da Redentora continuaram existindo como ideologia de apoio psicológico em diversos grupos negros de ex-escravos.

Isto retardou ainda mais o processo, pois a Guarda Negra tinha uma ideologia de retrocesso, de volta ao passado e ao mesmo utópica (monarquia sem escravidão), quando devia exigir medidas de avanço social radicais.[5]

O isabelismo passa a avassalar José do Patrocínio e também milhares de africanos recém-libertos. Veem na Princesa a única e abnegada senhora que os redimira da escravidão. Arregimentados e orientados por José do Patrocínio, em várias cidades do Brasil organizam-se em Guarda Negra que dissolve, pela violência, comícios e manifestações de republicanos. Pensam mostrar assim eterna gratidão à Princesa...

O isabelismo converte a razão apaixonada de José do Patrocínio em paixão irracional... Mas nada impede (nem sequer a Guarda Negra) que em 15 de Novembro de 1889 a República seja implantada no Brasil.

Mas, e em São Luís? Dunshe de Abranches, em suas memórias sobre a escravidão e o movimento abolicionista, se refere à guarda negra, naquele episódio que resultou na queda do gabinete Cotegibe:
"Voltando logo depois ao Rio [de viagem a São Paulo e Santos], assisti à agitação revolucionária que se fez em torno do gabinete organizado pelo Barão de Cotegipe. Participei dos memoráveis comícios em que, ao lado de Patrocínio, a mocidade das escolas civis e militares resistia heroicamente às investidas da guarda negra. E, em uma dessas reuniões subversivas no Largo da Lapa, um dos quartéis generaes da capoeiragem carioca, terminada em tremendo e sangrento conflitcto, sendo talves o vigésimo orador, que alli falava do alto do chafariz...". (in DUNSHE DE ABRANCHES. O Captiveiro (memórias). Rio de Janeiro : (s.e.), 1941, p. 228-229).
Ainda nada sobre a Guarda Negra em São Luís ...

Continua na próxima edição falando sobre O FUZILAMENTO DO DIA 17.

Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação

[1] In http://www.vidaslusofonas.pt/jose_do_patrocinio.htm
[2] In www.astrovates.com.br/tese/arcabuze.htm
[3] in www.vidaslusofonas.pt/jose_do_patrocinio.htm
[4] in www.tribunadonorte.com.br/especial/histrn/hist_rn_7f.htm
[5] in www.vidaslusofonas.pt/jose_do_patrocinio.htm

Nota da Ilustração: capturada da página 75 da Revista HISTÓRIA VIVA - Novembro de 2005, cujo título apresenta-se como "CORRIDA DE CAPOEIRA - Caricatura de autor desconhecido.

Fonte: Jornal do Capoeira

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Capoeiragem e a Guarda Negra - Parte I

Nesta crônica o autor apresenta alguns fatos relacionados à Capoeiragem e à Guarda Negra (Rio de Janeiro), enquanto ele, o autor, busca indícios da presença da própria Guarda Negra em São Luis do Maranhão.
Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 52 - de 4/dez a 10/dez de 2005

São Luis do Maranhão-MA
Novembro de 2005

Com um misto de alegria e surpresa, li na edição 25, de novembro de 2005, da Revista História Viva um interessante artigo de Carlos Eugênio Líbano Soares e Flávio Gomes - p. 74-79 - sobre "O combate nas ruas pelo Ideal Abolicionista". Alegria, por contar um pouco mais da história da/dos capoeiras. Surpresa, por se referir à "Guarda Negra".

Por não ser da área, isto é, capoeira, e não se lhe conhecer a história, nunca ouvira falar da "guarda negra"; e mais, como estudioso da história do Maranhão, especialmente do esporte e da educação física, não encontrara nenhuma referência a esse assunto nos mais de 400 livros que tenho em minha biblioteca...

Procurei o Prof. Jairo Ives de Oliveira Pontes, meu colega de magistério no CEFET-MA, e organizador de uma "Nova história do Maranhão", ed. em CD-ROM, e fiz-lhe a pergunta, a queima-roupa: "Fale-me da guarda negra!". Espantado, disse nada saber; nem na História do Brasil - da qual é professor -, nem na história do Maranhão, da qual é pesquisador... Mostrei-lhe o artigo em questão. Mostrou-se, qual, surpreso. "Precisamos investigar".

No artigo a que me refiro, da chamada consta "quilombolas, jornalistas e capoeiras foram personagens fundamentais do Rio de Janeiro contrários à escravatura"; e no corpo do artigo, inicia afirmando que

"a abolição da escravidão não foi fruto apenas de uma suposta ação exclusiva de enfrentamentos parlamentares. Nas ruas - principalmente nas cidades -, abolicionistas de várias origens sociais, escravos, libertos, operários de fábricas que alvoreciam, capoeiras, jornalistas e pequenos negociantes transformaram a campanha pela liberdade dos cativos numa verdadeira batalha ... e mais adiante ... capoeiras se engalfinhavam com republicados contrários à abolição...".

Isso, em cidades como Rio de Janeiro, Santos, Porto Alegre, Campinas, Salvador e Recife não foram poucas as refregas nas ruas envolvendo polícia, abolicionistas, capoeiras, escravos e libertos.

O dono das ruas, naquele momento em que o grito da abolição cortou os ares, era o capoeira. Para os autores, a participação dos capoeiras nesse memorável momento político da vida carioca ainda é plena de contradições e zonas de sombra, em virtude de as maltas - como eram chamados os grupos de capoeira - não se posicionavam somente de um dos lados da contenda. Estavam nas trincheiras dos que defendiam o fim imediato da escravidão, assim como no lado dos que postulavam uma transição lenta, gradual e segura, sem o grito das ruas.

Mas os capoeiras se fizeram presentes, com suas correrias, suas lutas de rua, empastelamento de jornais - de ambos os lados - e os inesquecíveis golpes da capoeira, da rasteira e da navalha...

Iniciando em 05 de janeiro de 1885, quando capoeiras de uma malta armada pelos inimigos da causa abolicionista invadiram o prédio da redação do jornal "Gazeta da Tarde", dirigido por José do Patrocínio. Consta que essa invasão não teve nada relacionada com o movimento abolicionista, conforme a história passou a registrar o empastelamento do jornal, pelos capoeiras.

Foi apenas um enfrentamento entre maltas rivais, colocada de um lado, grupo do Campo de Santana (identificada com os abolicionistas) formada por pequenos vendedores de jornais, e do outro lado (dos escravistas), a malta que dominava o Largo de Santa Rita, chefiada por um tal de Castro Cotrim, junta com outros chefes de malta da região portuária de Santa Rita como Coruja e Chico Vagabundo. Os pequenos vendedores de jornal entraram na redação para fugir de seus perseguidores e foram apoiados pelos funcionários do jornal, que rebateram o ataque.

Anos mais tarde, José do Patrocínio cria a "Guarda Negra", em função da Lei Áurea, que abriu caminho para uma temporária unificação dos grupos em prol da novel agremiação, talvez a face mais conhecida da capoeiragem política dos últimos anos da monarquia. Mais tarde, Patrocínio a iria renegar, após a queda do gabinete João Alfredo, que concretizou o 13 de maio.

Patrocínio foi quem introduziu os capoeiras para o ninho abolicionista e circulava bem no complexo mundo das maltas de capoeira do Rio - José do Patrocínio era mulato, filho de uma africana e de um poderoso cônego do conservador clero católico, de Campos dos Goitacases -, algo muito raro entre as lideranças abolicionistas - Joaquim Nabuco e André Rebouças, dentre outros ... -, em geral compostas de moradores de classe média que nutriam verdadeira ojeriza à capoeiragem.

O porta-voz da Guarda Negra escrevia seus manifestos nas páginas de "A Cidade do Rio", o novo jornal de Patrocínio; as primeiras reuniões foram realizadas na redação do jornal; a polêmica na imprensa era travada entre o jornal de patrocínio e o "Paíz", no qual Rui Barbosa vociferava os maiores impropérios contra a Guarda da Redentora.

Após o incidente de 14 de julho de 1889 entre os capoeiras da Guarda Negra e militantes republicanos no coração do Rio, Patrocínio gradualmente se afastou da organização... a guarda entraria em declínio, até ser completamente desbaratada pela repressão de Sampaio Ferraz em 1890.

Informam os Autores que houve episódios da Guarda Negra em outras cidades, como Porto Alegre, Salvador e São Luís...

São Luís? Daí nosso espanto, de Jairo e eu. Nunca ouvíramos falar... Procurei em Mário Meireles, nosso maior historiador, e não achei nada; em Vieira Filho, em seu "A Polícia Militar do Maranhão", de 1975, e não consta nada; Navas-Toríbio, em seu "O negro na literatura maranhense", também não há referência...

Resta a Internet! Na Wikipedia, sob o título Capoeira, consta que, historicamente, capoeiristas têm sido utilizados em guerra e conflitos como na Guerra do Paraguai e na Revolta dos Mercenários, em 1828, e que em 1888 foi instituída pelo exército brasileiro a Guarda Negra, composta praticamente por capoeiristas.

Em 1897, o general Couto de Magalhães disse que a capoeira não deveria ser perseguida mais sim dominada e ensinada em escolas militares. Em 1939, mestre Bimba começa a ensinar a capoeira no quartel do CPOR de Salvador. Não se pode esquecer que como arte de guerra a capoeira foi utilizada contra a opressão da escravidão nos quilombos e posteriormente nas maltas. [1].

CARDOSO, em "HISTÓRIA DA CAPOEIRA", ao tratar da "repressão da capoeira" refere-se que, quando da chegada da família Real ao Brasil em 1808, começou o processo de repressão à cultura negra e foi intensificada a perseguição policial. Em 1809, foi criada a Guarda Real da Polícia na qual o Major Miguel Nunes Vidigal foi nomeado comandante. Major Vidigal foi o verdadeiro terror dos capoeiristas, perseguia-os, espancava-os e torturava-os na tentativa de exterminá-los. Apesar dos severos castigos, os capoeiras resistiam bravamente e em 1824, a punição tornou-se pior: além das trezentas chibatadas eram enviados por três meses para realizar trabalhos forçados na Ilha das Cobras.

A partir da segunda metade do século XIX (1850), começaram a ocorrer sucessivas prisões de capoeiristas, os quais estavam formando maltas que atemorizavam a população e os governantes. Os principais focos da capoeira eram: Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. No entanto, no Rio de Janeiro é que a capoeira era motivo de maior preocupação (mesmo porque o Rio era a capital do país na época), era onde estava a maior concentração das maltas, sendo as mais temíveis as do Guaiamuns e dos Nagoas. Os Nagoas eram ligados aos monarquistas do Partido Conservador, agiam na periferia, e os Guaiamuns eram ligados aos Republicanos do Partido Liberal, controlavam a região central da cidade. (in Letícia Cardoso de Carvalho [2]).

Maltas adversárias que por décadas se digladiaram pelas ruas da cidade; os nagoas e guaiamus sempre aparentavam estar imersos num universo imaginário, fronteira entre a ficção acadêmica e uma nebulosa tradição popular. Nesse processo de divisão da cidade em dois grandes grupos rivais estaria completo, definindo uma linha divisória que mantinha nagoas e guaiamus em lados opostos, e em permanente conflito pelo controle de cada área. O conflito político-partidário entre liberais e conservadores acabou se cristalizando como a clivagem mais importante entre as maltas de capoeiras, que assim se ligaram indelevelmente ao destino dos dois partidos principais do sistema político do Império. O ano de 1888 foi o da Abolição da Escravatura e de grandes mobilizações de capoeiras. (in Soares, Carlos Eugênio Líbano. Dos nagoas e guaiamus: a formação das maltas In: A negregada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994.).

Apesar da repressão que sofria, quando interessava, a capoeira servia também de instrumento nas mãos dos políticos. Ora para os liberais, ora para os conservadores. Um exemplo é a Guarda Negra, criada em 1888 por José do Patrocínio, composta por negros capoeiristas que tinham o objetivo de defender a monarquia e lutar contra a República (após a libertação dos escravos os capoeiristas ficaram ainda mais a favor da monarquia como agradecimento à Princesa Isabel por ter assinado a Lei Áurea). Logo após a Proclamação da República (1889), a capoeira foi proibida pelo Marechal Deodoro, permanecendo nessa situação até 1937 quando Mestre Bimba a tira do código penal e a leva a esporte nacional. (in Letícia Cardoso de Carvalho [3]).

A formação da Guarda Negra é precedida por violentos conflitos entre nagoas e guaiamus, retratados quase diariamente pela imprensa. Nunca como naquela época a atuação das maltas de capoeiras atingiu um impacto e uma sofisticação como se viu. O termo "fortaleza" para as tavernas deixa entender que aqueles eram locais típicos de reunião e conflito, e mais, pontos nervosos de uma geografia de bairro, constantemente em movimento pelo embate intermitente das maltas. (in Elias, Larissa Cardoso. Capoeira: Revolta e Teatralidade, Uma Perspectiva Artaudiana, disponível em [4])

Nos últimos dias do império, os conflitos entre republicanos e monarquistas ocorreram frequentemente. A fim proteger a princesa Isabel, os monarquistas criaram a Guarda Negra (protetor preto), composto dos pretos, mulatos e muitos escravos libertos. Estes homens foram extremamente devotados à Princesa porque tinha assinado a lei que abolia a escravidão. A Guarda Negra combateu os republicanos até que a última faísca da vida do império morreu. Furiosos, os republicanos juraram matar seus membros; se a monarquia não conseguiu extinguir a capoeira, a república recém-estabelecida o faria.
Continua na próxima edição falando sobre O ISABELISMO.
Leopoldo Vaz, São Luis do Maranhão, Nov-2005
Professor de Educação Física do CEFET-MA
Mestre em Ciência da Informação

[1] in http://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o:Capoeira
[2] in http://www.geocities.com/projetoperiferia6/historia.htm
[3] in http://www.geocities.com/projetoperiferia6/historia.htm
[4] in http://hemi.nyu.edu/unirio/studentwork/imperio/projects/Larissa/Larissawork.htm

Nota da Ilustração: capturada da página 75 da Revista HISTÓRIA VIVA - Novembro de 2005, cujo título apresenta-se como "CORRIDA DE CAPOEIRA - Caricatura de autor desconhecido. Observar na ilustração, além de paus e porretes "voando", a presença da Sardinha (Navalha).

Fonte: Jornal do Capoeira

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Major Manuel Nunes Vidigal

Miguel Nunes Vidigal (Angra dos Reis, ? de ? de 1745, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1843) foi um militar brasileiro.

Nascido na cidade de Angra dos Reis, então Capitania do Rio de Janeiro, foi o primeiro brasileiro nato a ser um dos comandantes de forças militares no recém-formado Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves quando da chegada da família real portuguesa no ano de 1808 à cidade do Rio de Janeiro.

Ainda jovem, alistou-se num dos regimentos de cavalaria de milícias daquela capitania. Foi promovido a alferes em dezembro de 1782, a tenente em dezembro de 1784, a capitão em 20 de outubro de 1790, a sargento-mor em 18 de março de 1797, a tenente-coronel em 24 de junho de 1808, a coronel em 26 de outubro daquele mesmo ano, a brigadeiro graduado em 10 de março de 1822 e a brigadeiro em 12 de outubro de 1824.

Em 1791, era capitão da 1ª companhia do Regimento de Cavalaria de Milícias, responsável pela guarda do Conde de Resende, Vice-Rei do Brasil.

Com a criação da então Divisão Militar da Guarda Real de Polícia em 13 de maio de 1809, embrião da atual Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, foi indicado como subcomandante da Corporação, tendo a época o posto de sargento-mor (hoje major), a qual seria comandada por José Maria Rebello, que já era membro da Guarda Real de Polícia de Lisboa, instituição que serviu de base para a criação da congênere brasileira. Anos depois, em 23 de abril de 1821, chega ao comando-geral da corporação com a ida de Rabello de volta para Portugal, quando este acompanha o rei e deixa o Brasil.

Em 1º de dezembro de 1822 foi agraciado com o hábito de cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro.

Em 10 de março de 1824 foi transferido para o exército de 1ª linha. Solicitou reforma, que lhe foi concedida no posto de marechal de campo em decreto de 14 de novembro do mesmo ano, tendo mantido o comando da Guarda Real de Polícia até 14 de novembro daquele ano.

Vidigal, era considerado um perseguidor implacável dos candomblés, das rodas de samba e especialmente dos capoeiras, “para quem reservava um 'tratamento especial', uma espécie de surras e torturas a que chamava de 'Ceia dos Camarões'”.

Seus detratores, os quais existiam aos montes haja vista sua reconhecida rigidez na "aplicação" da "lei", entretanto, o descreviam como "um homem alto, gordo, do calibre de um granadeiro, moleirão, de fala abemolada, mas um capoeira habilidoso, de um sangue-frio e de uma agilidade a toda prova, respeitado pelos mais temíveis capangas de sua época. Jogava maravilhosamente o pau, a faca, o murro e a navalha, sendo que nos golpes de cabeça e de pés era um todo inexcedível" [carece de fontes].

Em 10 de julho de 1843 faleceu na cidade do Rio de Janeiro, com 98 anos de idade, nas terras que hoje dão nome ao bairro carioca do Vidigal, as quais recebeu de presente dos monges beneditinos, em 1820, ao pé do morro Dois Irmãos, sendo sepultado nas catacumbas da igreja de São Francisco de Paula.

Vidigal na cultura popular

Manuel Antônio de Almeida, ao escrever "Memórias de um Sargento de Milícias" assim fala sobre ele: "O Major Vidigal, que principia aparecendo em 1809, foi durante muitos anos, mais que o chefe, o dono da Polícia colonial (...). Habilíssimo nas diligências, perverso e ditatorial nos castigos, era o horror das classes desprotegidas do Rio de Janeiro". Noutro trecho da obra, o descreve da seguinte forma: "Era Vidigal um homem alto não muito gordo, com ares de moleirão. Tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, a voz descansada e adocicada. Apesar desse aspecto de mansidão, não se encontraria, por certo, homem mais apto para o cargo..."

Alfredo Pujol lembra uma quadrinha que corria sobre ele no murmúrio do povo:

Avistei o Vidigal.
Fiquei sem sangue;
Se não sou tão ligeiro
O quati me lambe.

Mário de Andrade, na introdução às Memórias de um Sargento de Milícias, São Paulo, 1941.

Da época em que o mesmo ainda comandava as forças policiais militares na corte, Artur Azevedo escreveu sobre ele esses versos satíricos:

Naquele tempo, Vidigal famoso,
Mais rancoroso
Do que um bicho mau,
Tinha jurado aos deuses prender-me
Para meter-me
Na polícia o pau.

Fonte: Wikipédia
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