sexta-feira, 18 de março de 2016

Capoeira Psicomotora – Parte II

A primeira parte deste texto comparou a semelhança das principais linhas de trabalho da Psicomotricidade com a Capoeira, no entanto, faltou abordar a relação dos principais componentes do desenvolvimento psicomotor com a prática desta arte-luta.
A criança que inicia na Capoeira tem o seu repertório motor aumentado automaticamente, pois ela aprende a utilizar o seu corpo de formas diferentes da vida cotidiana, ao mesmo tempo ela consegue se identificar com esta nova maneira de se movimentar e isso ocorre devido à liberdade e a ludicidade que a capoeira desperta em cada criança. Os movimentos que, muitas vezes, são reprimidos no ambiente doméstico ou escolar são permitidos na capoeira, sendo assim, levantar as pernas bem alto, rolar, virar de cabeça para baixo, usar as mãos no chão, cantar ou batucar, são ações que toda criança quer e sabe, cada uma a seu modo, realizar, mas não tem coragem, liberdade ou oportunidade de fazer.
Literalmente, o que toda criança quer é ser criança e a única forma de fazer isso é estimulando o seu desenvolvimento psicomotor e a melhor ferramenta que se tem é a brincadeira espontânea, mas nos dias atuais esta ferramenta tem sido pouco utilizada, por inúmeros fatores, por isso, algumas crianças tem maior ou menor facilidade para se movimentar e se expressar. Como a capoeira está repleta de aspectos simbólicos (lúdicos) e favorece a comunicação corporal ela se torna uma prática aliada da Psicomotricidade porque estimula os componentes do desenvolvimento psicomotor que são: coordenação motora global, coordenação motora fina, lateralidade, noção espaço- temporal, esquema corporal, imagem corporal.
A tão falada coordenação motora global, também conhecida como ampla ou geral, agrega os demais componentes do desenvolvimento psicomotor a partir do recrutamento dos grandes grupos musculares, ou seja, através de uma grande organização corporal é possível construir esta coordenação utilizando exercícios combinados e dissociados, danças e atividades de expressão corporal. A Capoeira possibilita tudo isso. Se na simples imitação do jogo de Capoeira, a criança estimula a construção da sua coordenação motora global pode-se imaginar os seus benefícios sobre este componente se a prática for organizada e devidamente orientada;
A coordenação motora fina também é amplamente estimulada pela prática da Capoeira, em especial pelo manuseio com os instrumentos musicais e dentre eles o berimbau torna-se o maior responsável pelo desenvolvimento desta coordenação devido à maneira de segurar, em forma de pinça, a baqueta (vareta) e a pedra (ou dobrão) em cada uma das mãos simultaneamente e vale lembrar que a escrita da criança dependerá dos estímulos de coordenação motora fina que ela recebe;
Através do manuseio dos instrumentos observa-se que a lateralidade, também, é estimulada, além da execução de todos os fundamentos para ambos os lados, que é uma prática comum nas aulas de Capoeira.
Se as noções de direita e esquerda causam dúvidas em muitos adultos podemos imaginar como as crianças ficam confusas quando, ainda, não possuem uma dominância lateral estruturada, por isso a praxia simultânea em ambas as mãos ou pernas permite à criança organizar sua atividade motora experimentando ora direita, ora esquerda sem imposição da destralidade;
A noção espacial refere-se ao espaço ocupado pelo corpo, pela sua localização e dominância e a roda de Capoeira proporciona experiências como entrar e sair, interagir, interferir e dividir este espaço com outros corpos. A criança aprende sobre a forma da roda e a localização de cada componente como a organização da bateria, o pé do berimbau (ou da cruz), o lugar de cada colega nesta roda e a direção em que os movimentos devem ser projetados. Todos estes aspectos estimulam, naturalmente, a organização espacial do jovem capoeira. A noção de espaço está intimamente ligada à noção de tempo partindo da ideia de que o corpo movimenta-se num espaço (roda) por determinado tempo (jogo).
A noção de tempo, assim como a noção de espaço, se constrói mentalmente, de forma abstrata por isso é tão difícil para a criança entender a ordem dos acontecimentos e como a estruturação do tempo está associada à noção de sucessão, portanto, intimamente ligada ao ritmo que é composto pelas noções de ordem, sucessão e duração.
E em que outra modalidade, além da capoeira, estas noções poderiam ser tão estimuladas simultânemente?
A começar pelas palmas, a criança aprende a bater palmas em, pelo menos, três cadências diferentes, dependendo do estilo musical de cada grupo, além disso, não só o jogo, mas toda a aula de Capoeira é realizada ao som da sua música característica que pode ser lenta ou rápida. A criança aprende que para estabelecer o diálogo corporal da Capoeira ela precisa perguntar com um movimento (ataque) e aguardar a resposta do colega que será outro movimento (esquiva) e o processo pelo qual esta conversa se estabelece é totalmente psicomotor e espaço-temporal.
Quanto à contribuição da Capoeira para com o esquema corporal pode-se dizer que o aumento no repertório motor da criança faz com que ela tome consciência da funcionalidade das partes do seu corpo, já que a construção do esquema corporal não pode ser ensinada, pois ela ocorre através das experiências corporais que a criança tem.
Mas com relação à imagem corporal, que é a imagem mental que a criança possui de si, a Capoeira influencia, principalmente, no aspecto social. Todo iniciado deseja vestir-se como o restante do grupo, ter um cordão como os alunos mais adiantados ou deseja movimentar-se como o seu professor (mestre), desta forma a criança constrói imagens para fazer parte de algo, para ser aceita. A imagem corporal se estrutura a partir das vivências afetivas da criança a partir do seu corpo em movimento ou não.
E sem entrar em maiores detalhes, como não dizer que a capoeira é psicomotora?

Fonte: Portal da Educação Física

sexta-feira, 11 de março de 2016

Capoeira Psicomotora – Parte I

A Capoeira é um dos maiores tesouros que o Brasil possui no seu aspecto cultural, toda a história da afro-descendência deste povo pode ser contada por esta arte, através dos seus rituais, da sua musicalidade e dos seus movimentos. Por isso a Capoeira é uma ferramenta tão importante no contexto educacional.
No que diz respeito à Educação Infantil, séries iniciais e Educação Especial a Capoeira como prática corporal se torna um forte agente de estimulação psicomotora porque a Capoeira é psicomotora e esta afirmativa é válida devido aos aspectos que a capoeira tem em comum com a Psicomotricidade.
Durante a infância a criança necessita vivenciar o seu corpo das mais variadas forma e ela já o faz naturalmente, se assim o meio em que vive permitir. A criança em seu comportamento motor característico costuma saltar, rolar, andar sobre quatro, três, dois e um apoio, a criança se alonga de formas variadas, inventa cantigas que remontam o seu cotidiano, adoram instrumentos de percussão devido à simplicidade que existe em criar um som com as suas próprias mãos como bater palmas, sacudir um chocalho, bater num balde, num pandeiro ou atabaque, para a criança é algo fácil, natural e instintivo.
Os principais componentes do desenvolvimento psicomotor são, naturalmente, estimulados pela Capoeira porque ela permite liberdade e criatividade corporal.
Podemos correlacionar tais componentes e linhas psicomotoras com os fundamentos da Capoeira como, por exemplo, no que diz respeito à relação adulto/criança e quanto à proposta que cada ferramenta oferece.
Em Terapia Psicomotora a relação do psicomotricista com a criança se faz por meio de ajuda, escuta, interação e disponibilidade corporal e o mesmo tipo de relação pode e deve ser estabelecida entre o instrutor de capoeira e as crianças que estão sob seus cuidados, porque para que a aprendizagem da capoeira seja efetiva em crianças pequenas é necessário que o professor crie uma relação de confiança com os pequenos ouvindo suas histórias, auxiliando nos movimentos mais difíceis ou que dão medo de realizar, além de permitir que o seu corpo seja o alvo dos golpes (martelos, bênçãos e cabeçadas) desajeitados dos pequenos. E na proposta de trabalho da Terapia Psicomotora são utilizados objetos e o corpo do psicomotricista como depósito das emoções da criança e com a Capoeira não é diferente, os instrumentos musicais, a própria musicalidade e objetos como o cavalete ou raquetes de outras artes marciais que podem ser usadas na capoeira para treinar, especialmente os chutes, canalizando, assim, a agressividade contida. Quanto ao corpo, muitas vezes a criança sente uma enorme necessidade de vencer o adulto que o instrutor de capoeira pode representar para ela naquele momento de sua vida, de repente ele deixa de ser o Tio da Capoeira para ser, simbolicamente, qualquer outro adulto da vida desta criança que lhe reprime como parentes ou outros professores.
Também podemos encontrar na Educação Psicomotora Funcional características comuns à prática de uma aula de capoeira. Nesta linha psicomotora a relação adulto/criança é menos íntima, pois o adulto funciona como um líder, um modelo para criança demonstrando os exercícios a serem realizados por ela, isso ocorre devido à herança que a Psicomotricidade carrega da Educação Física tradicional e em extinção, enfim, numa aula de capoeira para crianças do Ensino Fundamental, geralmente é assim que os fundamentos são passados, o professor demonstra e o aluno imita seus movimentos para depois serem feitos na tradicional roda. Na proposta da Psicomotricidade Funcional, o psicomotricista utiliza as famílias de exercícios conhecidos da citada Educação Física tradicional como saltar, rolar, arrastar, correr, escalar, pendurar, carregar, lançar e pegar em comparação com a Capoeira, nas aulas, alguns professores se utilizam destes padrões motores para complementar o treino, no entanto como humilde conhecedora desta arte-luta acredito que todos os seus movimentos mais tradicionais como a ginga, a negativa, cocórinha, queda de quatro, meia lua de compasso são originários das famílias e exercícios, o povo que criou a Capoeira primitiva baseou tais movimentos na sua herança motora e atividades do seu cotidiano nas plantações de café e cana, então saltar, agachar, rolar, escalar foram adaptados pelo instinto e defesa e sobrevivência de um povo oprimido, mas são movimentos que já estavam registrados na nossa filogenia.
E por fim temo a Educação Psicomotora Relacional, nesta linha a relação do psicomotricista com a criança é semelhante a da Terapia Psicomotora onde além de ajuda, escuta e interação há também estímulo e intervenção e na prática da capoeira, assim como em qualquer outra atividade corporal a criança necessita de um mediador que a estimule nos movimentos mais difíceis e que intervenha quando algo sair do controle, geralmente o “mestre de capoeira” tem esse perfil paternalista do tipo severo e afetivo ao mesmo tempo e quanto as característica da proposta de trabalho da Psicomotricidade Relacional podemos utilizar o jogo de capoeira propriamente dito para fazer a correlação, pois na PR encontramos o ritual de entrada e de saída, que apesar de ser verbalizado, é uma espécie de acordo sobre o que poderá acontecer na sessão e sobre o que aconteceu na sessão, enquanto que na capoeira o ritual de entrada e saída é não verbal, mas entendemos como um acordo de que nada ruim aconteça durante o jogo. Encontramos, também, a musicalidade que dá ritmo a brincadeira (jogo livre). A atividade livre e de expressão é a brincadeira em si, que na Psicomotricidade Relacional se faz através do diálogo corporal (comunicação não verbal) com alguns materiais clássicos da Educação Física como arcos, bolas, cordas, além do outro, na verdade estes materiais servem como mediadores para que uma relação simbólica seja estabelecida entre as crianças e apesar de não utilizarmos esses materiais no jogo da capoeira, utilizamos o diálogo corporal com o outro e essa é uma característica que difere a capoeira de outras artes-lutas, a capoeira é jogada com o outro e não contra outro. Ocorre um jogo simbólico, um faz de conta de ataque e defesa, de gracejo e expressão de sentimentos sem nada dizer, é um brinquedo, como se dizia antigamente, um brinquedo de Angola, pois acredita-se que foram os escravos de origem angolana que a descobriram, enfim na Capoeira não temos a habilidade de decodificação dos comportamentos e sentimentos apresentados pelas crianças durante a sua prática e isso o Psicomotricista Relacional sabe fazer e poderia fazer ao analisar um jogo de capoeira, mas que cada um utilize os recursos que tem para facilitar o processo e desenvolvimento psicomotor de nossas crianças.

Fonte: Portal da Educação Física

sexta-feira, 4 de março de 2016

Mestre Waldemar da Paixão - Salvador/Bahia 1955



Arquivo Histórico:
Trecho do filme de Simone Dreyfus, gravado em Salvador, em 1955. Nas imagens, além do Mestre Waldemar da Paixão, estão Mestre Bugalho (que toca o berimbau no inicio do filme), Caiçara (aos 52 segundos) e, ainda, Zacarias, Traíra e Nagé.

Fonte: Portal Capoeira & YouTube
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